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Parasita, de Rita Ferreira, na Travessa da Ermida

Na abóbada de uma antiga Ermida, encontra-se suspensa Parasita, pintura a óleo sobre papel concebida por Rita Ferreira especificamente para o Projeto Travessa da Ermida. Conta com curadoria de João Silvério, apesar de o próprio afirmar que a obra não dependeu necessariamente do processo curatorial.

O trabalho de Rita Ferreira (Óbidos, 1991) gira em torno dos campos disciplinares da pintura e do desenho. As formas abstratas que surgem em grande parte das suas obras, “parecem ser anteriores à linguagem da significação”, parafraseando o texto de João Silvério acerca da exposição. Em Parasita, essas formas de tom negro são vigorosamente desenhadas sobre um fundo verde. A estaticidade da pintura é contrariada pelo movimento, organicidade e plasticidade das formas, adivinhando-se uma coreografia do corpo. Pela primeira vez, “o fundo assume-se como fundo, como uma base, e não como uma forma ou como um elemento para dar forma” refere Rita Ferreira.

A escala de Parasita foi definida tendo em conta as dimensões e caraterísticas do outrora espaço de culto. A superfície com 3,60 m por 2,50 m apresenta duas faces e é estruturada por várias camadas em papel que lhe conferem uma espessura, uma rigidez e um peso que permite o seu suporte apenas através da aresta superior, suspendendo-a. O corpo da pintura, a sua fisicalidade, assemelha-se ao de uma tapeçaria.

A dimensão escultórica ou instalativa é caraterística do trabalho de Rita Ferreira, tendo em conta as estruturas que concebe para a exposição de pintura. Bastidores em latão que enquadram planos em papel ou estruturas em ferro que permitem a sua exposição na vertical são alguns dos dispositivos utilizados. No entanto, a suspensão é uma novidade apresentada pela primeira vez através da obra Parasita.

Colocada a apenas cerca de 10 cm do chão, a pintura é apresentada como um corpo que levita. A luz que se vislumbra ao seu redor, entre a obra e o espaço, enfatiza a ideia de suspensão. Três elementos são conjugados em perfeita harmonia: a escala do espaço, a proporção da pintura e o seu posicionamento no espaço. A obra não poderia ser nem maior nem mais pequena, não poderia estar nem mais para lá nem mais para cá. Tem portanto as dimensões acertadas e encontra-se no devido lugar.

Localizada no sítio do antigo altar, imediatamente visível por quem entra na primeira antecâmara da Ermida, a obra de grandes dimensões apresenta paradoxalmente um verso. Como se a primeira face visível, o primeiro confronto com o observador, contaminasse o seu verso, incitando o público a circundá-la e a descobrir o que está por trás, no lugar de celebração. Nas palavras de João Silvério, “o parasitismo que esta obra manifesta reside na sua situação espacial, suspensa sob o teto da Ermida e simultaneamente erguendo-se perante o espetador”.

Parasita surge no seguimento do trabalho mais recente que Rita Ferreira desenvolveu para a Bienal Anozero, em Coimbra, que teve como base recordações do sítio onde nasceu. Recordações essas que suscitaram um interesse pelo desenvolvimento de uma pesquisa em torno de plantas parasitárias. “Aquele que come na mesa de outrem” é a definição para o termo grego “parásitos” que está na origem da palavra “parasita”, organismos que se associam a outros retirando-lhes os meios para a sua sobrevivência prejudicando o organismo hospedeiro.

Hyobanche Sanguinea é a espécie parasitária, oriunda da África do Sul, que está na origem da obra Parasita. O seu tom avermelhando e as suas pequenas dimensões em nada se assemelham à escala e à tonalidade verde utilizados por Rita Ferreira. O resultado distancia-se do referente que deu origem à pintura, não sendo intenção a sua representação direta. Apesar de o nome da obra induzir a criação de uma imagem mental ou de uma ideia do que a obra poderá ser, no seu encontro essa imagem não é correspondida, abrindo outras perspetivas de interpretação e suscitando um maior envolvimento por parte do visitante. Este “objeto parasitário” acaba por se referir mais a nós, enquanto espetadores, do que à espécie botânica que esteve na sua origem.

Parasita está patente na Travessa da Ermida, em Lisboa, até 11 de janeiro.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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