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Momentum Festival Inshadow

Há movimentos artísticos de grande resiliência que acontecem em diversas partes do mundo e do nosso país em concreto. O InShadow – Lisbon ScreenDance Festival acontece de forma quase milagrosa há cerca de 11 anos, fruto da persistência de Pedro Sena Nunes e Ana Rita Barata e da sua equipa da VoArte. O festival compõe-se de vários eventos que incluem uma competição de vídeo-dança e de documentário e vários workshops e eventos de formação, a par de várias exposições e exibições que acontecem um pouco por toda a cidade de Lisboa.

Na Cisterna da Faculdade de Belas-Artes (FBAUL) podemos ver uma exposição que integra um conjunto de filmes de Merce Cunningham no âmbito do centenário do seu nascimento, In*Outside, um conjunto de fotografias de João Pedro Rodrigues que registou os ensaios da peça 3,50 x 2,70 (três e meio dois setenta) de Ana Rita Barata e Bruno Rodrigues, Border, uma instalação de vídeo de Sofia Marques Ferreira e Espaço | Marca, um vídeo de Rafael Raposo Pires.

Merce Cunningham Centenário é um conjunto de filmes que acontece em loop numa tela semi-transparente de grande formato por trás da qual conseguimos vislumbrar as fotografias de João Pedro Rodrigues e o espaço da Cisterna. A projeção tem cerca de sete horas e haverá ainda, em paralelo, duas sessões na Cinemateca Portuguesa de filmes no âmbito do centenário. O loop exibido na cisterna apresenta dez filmes de diferentes durações e de diferentes realizadores incluindo o próprio Cunningham.

A dança é arte efémera, como diz o próprio Cunningham (…) It gives you nothing back, no manuscripts to store away, no paintings to show on walls and maybe hang in museums, no poems to be printed and sold, nothing but that single fleeting moment when you feel alive.” Nesse sentido, a captação fílmica das coreografias é de uma riqueza histórica assinalável, pois de outra forma não teríamos acesso vitalício (ainda que persista a dúvida sobre a permanência de suportes fílmicos sejam analógicos ou digitais) ao trabalho daquele que foi um dos mais importantes coreógrafos e dançarinos da contemporaneidade, também professor e realizador. Para Cunningham, a câmara de filmar permitia não apenas captar, mas ser uma parte integrante da coreografia, um ponto de vista ativo. Também por isso, estes filmes são de uma riqueza enorme, pois permitem-nos um olhar sobre o olhar do coreógrafo sobre a sua própria obra. Permitem-nos ainda ter acesso a cenários, guarda-roupa e música criados especificamente para as coregrafias por artistas como John Cage (umas das importantes e longas colaborações) ou Eric Satie, Andy Warhol, Willem de Kooning, Jasper Johns ou Robert Rauschenberg. É ainda uma oportunidade, mesmo se em diferido e póstuma, de ver o próprio Merce Cunningham a dançar.

Serve este preâmbulo para enfatizar que, só por esta obra, já valia a pena a visita à Cisterna. A forma como está disposta a sequência em tela semi-transparente permite-nos ter uma percepção diferente dos filmes, pois a envolvente confunde-se com o espaço do filme, a escala passa a ser a do olhar humano e transforma um filme numa fruição que parece ser em tempo real. As sete horas, permitem entradas e saídas e movimentações várias em diferentes dias e horas, transformando a Cisterna num fluxo aquoso de pessoas.

Espaço | Marca, de Rafael Raposo Pires (aluno na FBAUL) é única obra que não visa a relação com o corpo, mas sim com o espaço natural e o espaço criado ou ocupado pelo homem (na sua necessidade de criação de fronteiras). No fundo, liga-se às restantes obras pela necessidade de ação e marcação.

In*Outside liga-se ao conjunto de filmes de Cunningham através do que é o registo sobre a dança. Uma peça feita com atores surdos e ouvintes transcrita para fotografia, onde apenas nos é permitido imaginar o movimento entre elas ou que sai delas, como o momento antes e o depois.

A Cisterna da FBAUL induz a este processo de imaginação e reconexão, pois serviu para conter água (as cisternas eram construídas muitas vezes para armazenamento das águas pluviais) e ainda hoje se sente a humidade (que se sente em todos os edifícios similares) que é uma memória dessa contenção. É também ela um registo de movimento, um registo sensorial e olfactivo. Momentum acrescenta um registo visual e sonoro tornando a Cisterna um lugar de memória de sentidos e de emoções.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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