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A Way of Walking, de Sérgio Carronha

Transportar terra, solo, argila, poeira e sujidade para o espaço da galeria é um ato performativo que – de Robert Smithson, Robert Morris e Walter de Maria a Dineo Seshee Bopape – sempre exigiu um espírito de rebelião perante a conceção estética e o design minimalista de uma típica exposição marcada por uma limpeza pristina.

Ao residir e trabalhar em Montemor-o-Novo, Sérgio Carronha acrescenta o seu “próprio” solo laranja/avermelhado ao geométrico e branco espaço da Galeria Monitor em Lisboa. Para visitar a exposição e apreciar os vários objetos, cerâmicas e esculturas colocadas nos dois pisos da galeria, os visitantes são convidados a caminhar sobre uma “pintura” efémera de barro vermelho e caulim, que cobre o chão da galeria, registando as pegadas de quem por lá passa e fazendo com que os visitantes saiam do espaço com algum pó colorido debaixo dos pés. Um efeito lúdico que pode ser percebido como uma ocorrência clara do fenómeno da impregnação recíproca inerente aos mecanismos de recepção estética, mas também às diferentes formas de convivência e de coabitação. A way of walking deixando rastos tangíveis e suaves da nossa presença e actividades, enquanto andamos sempre transformados pelo ambiente e pelas experiências que nele temos.

A existência deste material cru, móvel e “sujo” na exposição acaba por fazer a ponte entre o contexto rural da sua criatividade e produção artística e o ambiente urbano da galeria. Fica sublinhado o contraste e a tensão entre o natural e o artificial, o suave e o sólido, entre o amorfo dos materiais orgânicos e as estruturas arquitectónicas lineares e “definitivas” construídas pelo homem, entre os amplos espaços abertos e o estilo de vida confinado da cidade, vinculando ao conjunto uma unidade formal delicada, tranquila e coerente.

A interação do artista com o espaço da galeria estende-se também aos objetos e a outros vestígios de intervenções site-specific, tal como a pintura monocromática feita à mão numa parede, através de uma combinação de cinzas de madeira e água. Estes efémeros e imateriais gestos artísticos contrastam também com os objetos aparentemente perenes, como o menir enraizado com solidez no tempo e no espaço. As várias peças escultóricas, com as suas formas arquetípicas, os seus símbolos, motivos e padrões, proporcionam experiências sensoriais e associações livres, que variam entre a evocação de vestígios e artefactos arqueológicos, até ao presente contexto sociopolítico, cultural e económico do Alentejo. À medida que corpos individuais transportam memórias pessoais, manifestadas em formas e sintomas externos, a terra tem também uma bagagem histórica que se exprime em sinais, marcas e formas específicas que ecoam processos passados e futuros, dinâmicas de vida e morte.

À sua maneira, Carronha participa nos movimentos performativos, intelectuais, sociais e artísticos que acreditam no poder transformador do re(encontrar) a terra e do renovar as relações com o ambiente natural da nossa existência. O que significa hoje trabalhar com argila, arenito, pigmentos naturais, caulim, sementes e casco de agave no espaço da galeria? Manifestar esta agregação de materiais distantes mas familiares, prosaicos mas poéticos, simples mas mágicos, profanos mas sagrados, e transformando-os através de técnicas retro inovadoras, é certamente uma forma de procurar restabelecer interações íntimas e espirituais com a natureza, os seus ciclos, os seus ritmos, as suas variações, bem como as suas subtis manifestações materiais e imateriais.

A Way of Walking na Monitor Lisbon – até 15 de janeiro de 2020.

Katherine Sirois é historiadora de arte e autora freelance canadiana nascida em Montreal. Formada em Estudos de Artes na UQÀM (Mtl), onde foi assistente de ensino e de investigação, foi doutoranda na EHESS (Paris), com a orientação de Daniel Arasse, e no Departamento de Estética da Universidade de Paris I-Panthéon Sorbonne. Está actualmente associada ao Instituto de História da Arte da Universidade NOVA de Lisboa. É co-editora e curadora do e-magazine de arte contemporânea Wrong Wrong e é membro da equipa de curadoria do projecto Ymago. Foi recentemente incluída na equipa dos colaboradores da Umbigo.

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