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Loulé Design Lab | Loulé Criativo

Por volta da década de trinta, do anterior século, os intelectuais portugueses viam com preocupação, e alarmismo1, uma possível extinção de uma cultura popular portuguesa. O temor parecia provir da ideia de que um pensamento industrialista viria a dominar tudo, aniquilando, desse modo, uma forma de realidade primitiva portuguesa, que constituiria um passaporte para uma eficaz diferenciação face aos outros países. O que estava em causa, com esta contaminação modernista niveladora, era o desaparecimento de um viver português, mais rural, detentor de uma “sabedoria ancestral e verdadeiro depositário da tradição” (Ana Vasconcelos).

Essa sabedoria ancestral, segundo o antropólogo António Medeiros, atraiu elites de “poetas, fotógrafos, pintores, etnógrafos” para o país rural, que cedo se empenharam a estilizar e a intelectualizar essas formas de cultura. As questões prendiam-se, para a também antropóloga Vera Marques Vieira, com a imagem do país extramuros, e por esse motivo, nas grandes feiras internacionais, houve empenho por parte dos portugueses em mostrar um país forte a nível iconográfico, procurando deitar por terra uma ideia já enraizada de que o país era pobre, triste, e sem remédio.

Volvidas algumas décadas, e após um período de alheamento e entorpecimento face à arte popular – não confundir com a arte das massas, ou “popular art”, dado o termo arte popular, em português, estar mais próximo do termo inglês folk art – as camadas mais instruídas, nomeadamente os designers, os ambientalistas, os artistas e os arquitetos, começaram a estar atentos, novamente, aos artefactos e objetos utilitários oriundos das pequenas comunidades rurais. Os designers, por exemplo, observaram qualidades nesta cultura material ancestral e tradicional que poderiam conter soluções para alguns problemas de ordem ambiental, agora numa condição de urgência. O artesanato, como sabemos, ambientalmente, não causa tanto impacto como os objetos produzidos em série. A efetiva destruição dos ecossistemas muito por conta de uma cultura reducionista e globalizadora da indústria, embutida nos princípios da ULM, da crença cega no novo e na inovação, provocou um descrédito nos designers quanto à idoneidade dos avanços tecnológicos. Seriam todos para benefício das sociedades? Ou responderiam somente a exigências de carácter economicista?

Na verdade, os materiais usados pelos artesãos encontram-se mais próximos do environmentally friendly. Vejamos um caso português: o projeto Loulé Criativo, projeto da Câmara Municipal de Loulé, tem motivado os seus artesãos, nomeadamente as artesãs da empreita, a retomar a sua atividade, uma atividade tradicional de cestaria portuguesa, que usa a planta palma como material de base para a criação de objetos.

O projeto Loulé Criativo, consciente da importância da arte popular e do artesanato para o fortalecimento da identidade da região e do país, ajudou a criar na cidade de Loulé uma rede de oficinas de artesãos, maioritariamente situados nas pequenas ruelas da parte antiga da cidade, constituindo inclusive uma atração para as camadas turísticas.

Se uma cidade ou região não conservar o que lhe é autóctone, e se o que tiver de oferecer ao visitante não diferir muito do lugar de onde ele provém, como pode almejar a uma indústria turística forte? Como pode desejar que o turista demonstre interesse e queira voltar?

A rede de artesãos em Loulé mantém a tradição viva, e é um exemplo de que as pessoas precisam da tradição, da memória, e de identidade, para se manterem vivas,

Nas suas ruas ouvem-se os caldeireiros a moldar o cobre, com pancadas ritmadas, ou as artesãs da Casa da Empreita, a entretecerem as folhas de palma, já secas, e a transformá-las em tramas de finas formas, como cestos ou candeeiros. O projeto Loulé Design Lab, formado pela Loulé Criativo, e composto por designers e artistas residentes, ajudaram a moldar essas formas da empreita. Henrique Ralheta, diretor da Loulé Design Lab, orientou o trabalho dos designers junto dos artesãos. Em pares, designers e artesãos trabalharam em conjunto, os designers com as suas ideias e desenhos, os artesãos com os seus saberes manuais, aprendidos desde tenra idade. O resultado foram peças que reúnem uma fusão de tradição com ideias inovadoras, resultantes do trabalho realizado entre os dois, designer e artesão, e em constante aprendizagem e diálogo. Este trabalho resultou numa exposição realizada pela Loulé Criativo.

Na exposição podemos ver a palma trabalhada pelas artesãs Maria Odete Rocha, Maria Valentina Silva, Maria Cremilde Lourenço, Inácia Coelho, Maria Almerinda Miguel, Lurdes Malveira Costa, Maria Odete Dias, Maria Duartina Mendes, Ludovina Bota, Alzira Maria Neves, Maria Margarida Cortez Ferreira e o seu esposo Jorge dos Santos. Os designers que deram sugestões às artesãs, e que ajudaram a dar forma à empreita foram Fernando Madeira, Eurico Brito, Sílvia Rodrigues, Sandra Louro, Catarina Guerreiro, Sofia Correia, Verónica Guerreiro, Ana Hermenegildo, Sandra Neto, Paulo Tomé, João Carrilho, Pedro Ramalhete, Ana Rita Contente. A experiência dos designers em parceria com os artesãos estendeu-se também em outras atividades artesanais como o trabalho em cobre. Os designers que colaboraram com os caldeireiros foram: Christopher Whitelaw, em parceria com o caldeireiro Jurgen Cramer, a designer Andreia Pintassilgo em parceria com o artesão David Ganhão Cabrita, ou a designer Ana Rita Contente com Analide Carmo. Há ainda lugar para ceramistas e artistas como Bernardette Martins, Ortiz Manoli, José Machado Pires e Razvan Crestin.

 

1 Medeiros, António, No meio das memórias de Sarah Affonso: O Minho, in Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho, Fundação Calouste Gulbenkian, Julho 2019, p. 5.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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