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No meio do caminho tinha um osso, tinha um osso no meio do caminho – ou a aventura expedicionária de Pedro Valdez Cardoso

A história da arte contemporânea tem reconhecido uma tendência apropriacionista generalizada no domínio da prática artística, discorrendo – insistentemente, há que o dizer – sobre a incorporação do imaginário arqueológico, etnográfico, cartográfico, documental ou arquivístico. De facto, o artista contemporâneo tem explorado empenhada e apaixonadamente a zona fronteiriça entre a arte e a ciência, abraçando uma linguagem protocientífica – na tangência, a do interstício.

No meio do caminho tinha um osso, tinha um osso no meio do caminho – na Galeria Central da Fundação Portuguesa das Comunicações, em Lisboa – resulta desse tão frutífero encontro, recuperando o encantamento romântico – ainda oitocentista, de resto – em torno da aventura expedicionária no último território selvagem do planeta, esse mundo estranho, o lugar do desconhecido. Filipa Oliveira, que assina o texto da folha de sala, enquadra a exposição de Pedro Valdez Cardoso – um conjunto facilmente entendido “como uma única série” – no âmbito do seu fascínio pelo Ártico, que havia alimentado a curiosidade popular na viragem do século.

Trata-se aqui de um conjunto que, cruzando o desenho e a escultura, evoca “um passado mitológico e fictício” no sentido de uma reflexão sobre o panorama atual e, muito particularmente, sobre a problemática ambiental – ou, enfim, sobre a implicação da atividade humana na devastação do planeta. Acontece que esta narrativa, apresentada sob “uma lógica documental e museográfica”, não se remete a uma realidade distante efetivamente vivida. Diga-se, por isso, que esta exposição não se afigura como um eco do passado, mas antes como uma visão do futuro – assim a concebe a autora do texto, descrevendo “um desenho caótico” jogado entre a figura e a grelha, o mapa de uma terra que nunca foi, o esqueleto de uma espécie por catalogar, um ser fantástico, talvez um híbrido. Ora, em todo o caso, o artista oferece uma visão parcial e algo deteriorada – riscando, rasgando ou recortando uma ou outra secção do mapa e comprometendo, deste modo, a sua suposta função.

Pedro Valdez Cardoso “suspende o tempo e a verdade histórica, geográfica e antropológica”, recusando o rigor do procedimento científico, mas assumindo a imagética e o discurso que habitualmente se lhe associamos – sobre a mais quotidiana superfície, como seja o pano da loiça. Eis que, neste contexto, o mapa não veicula a certeza, não concretiza a verdade. Isto é dizer que o mapeamento não constitui necessariamente um exercício de poder. Com efeito, é-lhe anulado o tom imperativo: este mapa existe para lá da dimensão universal e da ambição totalizante. Importa notar, ainda assim, a permanência do dispositivo matricial. Afinal, toda e qualquer operação o evoca, mesmo quando o transgride. É a partir da grelha que se projeta toda e qualquer forma de errância, pois que atua como o elemento regulador não apenas da criação, mas também da destruição. É a partir da grelha, desse quadro probabilístico já inescapável, que o desenho se desdobra indeterminadamente – pelo não mapeado, esse lugar do outro, o “território dos dragões”.

Carolina Machado (Lisboa, 1993). Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (2011-2015). Pós-Graduada em Curadoria de Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2016-2017). Mestranda em Estética e Estudos Artísticos – Arte e Culturas Políticas pela mesma instituição (2017-2019). Estagiária da Coleção da Caixa Geral de Depósitos na Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest (2017-2018). Autora na Umbigo Magazine (2018-).

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