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Sweet Home Europa ou a gangorra do mundo por João Pedro Mamede

O palco podia ser um campo de batalha, o centro de congressos de uma cimeira mundial, uma sala de reuniões empresarial, a caixa de email de uma organização internacional, o chão de uma cozinha familiar ou a cama partilhada por um qualquer casal.

A pisarem-no um homem – vários homens, uma mulher – várias mulheres, e o outro – todos os outros.

A uni-los e a separá-los o movimento perpétuo da gangorra que, entre lados opostos, garante o equilíbrio do mundo: o colono e o colonizador, o opressor e o oprimido, o autóctone e o emigrante ou o refugiado, o pescador e o agricultor, o pai e o filho, o homem e a mulher, o gato e o dono, o que pede e o que não quer dar.

O tempo é o da história universal, em ciclos que se repetem ad aeternum.

O lugar é qualquer um de onde os intervenientes dos seus países avistem o mesmo mar. Pelo título da obra que João Pedro Mamede aqui interpreta – Sweet Home Europa, de Davide Carevalli (2011) – estaríamos a falar do Mediterrâneo, mas não creio que seja relevante: Sweet Home Europa revela-nos a dificuldade de compreensão e comunicação que o homem ou a mulher têm com o outro, em qualquer domínio – política, cultura, amor – e o proveito que se tira disso na demagogia das negociações, na simulação de entendimentos ou na dissimulação da falta deles.

Quando o outro nos explica como todas as sextas-feiras de outono, no seu país, as mulheres enfiam uma abóbora no cu, não está apenas a fazer uma metáfora do processo de aculturação, mas também a testar o nosso nível de preconceito face ao que nos é alheio: no mundo de permanente trânsito e transferência que é o contemporâneo, João Pedro Mamede, João Vicente e Isabel Costa alertam-nos para a falta de capacidade e/ou de vontade que o homem tem na aceitação do outro e da linha ténue que os divide perante o medo do abismo que separa aquilo que se conhece daquilo que não se conhece.

Sobre um palco inclinado revestido de pregos – cenografia de Ângela Rocha – o movimento cíclico das cenas transmite-nos o desequilíbrio e a aridez da(s) história(s) repetida(s), sob diálogos que se repisam até não passarem de um eco que nos transmite a evidência de que tudo continua longe, tão longe, e ninguém te ouve. De onde vimos e para onde estamos a ir, afinal?

Integrado no programa Portugal em Vias de Extinção do Teatro Nacional D. Maria II, Sweet Home Europa fala-nos também de consciência coletiva e da importância das tradições passadas de geração em geração. Fala-nos daqueles que, ao partirem da terra natal, se transformam no outro para sempre e em qualquer parte: no lugar onde se instalaram e na terra de onde partiram.

Já João Pedro Mamede, enquanto ator e encenador, com apenas 26 anos, vai-se tornando no homem e no outro que ansiamos ver a encher o próximo palco, como tão bem ele sabe.

 

Home Sweet Europa estará em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II até 27 de março, com espetáculos às quartas-feiras, às 19h30, de quinta-feira a sábado, às 21h00, e aos domingos, às 16h30. Dia 6 de Abril dá início a digressão pelo resto do país, com espetáculos em Vila Real (06 de abril), Sardoal (14 de abril), Funchal (26 de maio) e Portimão (30 de junho).

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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