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Bruxelas com Fernand Léger

Inaugurou no passado dia 9 de fevereiro, no BOZAR (Palácio de Belas Artes de Bruxelas) uma exposição antológica do francês Fernand Léger (1881-1955), cujo percurso artístico se confunde com a própria História da Arte da primeira metade do Século XX.

A exposição organiza-se em 10 núcleos que percorrem o majestoso edifício Art Deco da autoria de Victor Horta (1861-1947) e que nos revelam um artista de vinculação inicial cubista, com uma fase de influência futurista e com uma última década em que é perfeitamente adepto do neorrealismo de tendência do pós II Guerra Mundial. A expografia segue a lógica de outras mostras com o mesmo tipo de registo, com uma seleção representativa de obras de arte, provenientes de várias coleções públicas e privadas, aliada a documentos de época, catálogos e com os textos de parede a combinarem o enquadramento do comissariado com citações do artista, sem artifícios narrativos ou reconceptualizações. Já me tinham parecido assim as últimas do Grand Palais, em Paris, nomeadamente a de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), em 2016, ou a de Alexander Calder (1898-1976) na Tate Modern, em Londres, também em 2016. Um registo de curadoria de teor documental e histórico, que permite o desfrute contemplativo da produção do artista, com o recurso a instrumentos e conteúdos de mediação claros e informativos. O dispositivo inicia-se, assim, com palavras do artista sobre um dos conceitos característicos dos modernismos de início do século XX que têm em Fernand Léger uma das suas figuras de referência:

“My aim is to try to lay down this notion: that there are no categories or hierarchies of Beauty – this is the worst possible error. Beauty is everywhere; perhaps more is the arrangement of your saucepans on the while walls of your kitchen than in your eighteenth-century living room or in the official museums.”

Beauty is Everywhere é o ponto de partida para a discussão do conceito de beleza que marca a obra do artista francês, que faz da pintura a chave do diálogo entre as artes do seu tempo. A exposição cobre cinco décadas de criatividade, revelando-nos como Léger foi capaz de reinventar a sua obra, analisando a sociedade do espetáculo que crescia ao seu redor.

Fernand Léger iniciou a sua formação artística aos 14 anos como aprendiz de um arquiteto normando. Em 1900 ruma a Paris e ingressa na Escola de Arte Decorativas, após ter sido recusado pela Escola de Belas-Artes. A partir de 1908 convive com artistas como o escultor lituano Jacques Lipchitz (1891-1973), o pintor francês Robert Delaunay (1885-1941) e o russo Marc Chagall (1887-1985). O grupo estava instalado num edifício conhecido como “Ruche” e entre todos estabeleceram-se relações de amizade que incluíam cumplicidades estéticas. Em 1911 conhece Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963) e entusiasma-se com o cubismo, abandonando as influências impressionistas que marcam os seus primeiros trabalhos. O cubismo, conceptual e estilisticamente, será a marca de Fernand Léger durante grande parte da sua carreira, como também é o género dominante da mostra em análise. Ao cubismo somará a admiração por objetos mecânicos, nomeadamente por tanques de guerra, aproximando-se do futurismo, e como consequência de ter sido recrutado para as trincheiras na I Guerra Mundial. A figura humana irá, gradualmente, aparecendo na sua obra, sobretudo a partir da década de 1920, em enquadramento industrial. Devido ao seu caráter experimentalista, coincidente com o espírito do tempo e com os trajetos de tantos outros artistas, experimentará o cinema e também a fotografia. Irá, inclusive, dirigir e produzir o filme O ballet mecânico (1924), de enquadramento dadaísta e pós-cubista.

A II Guerra Mundial leva-o ao exílio nos EUA, onde foi docente, por exemplo, da Universidade de Yale. Volta a França em 1945 e concebe os vitrais da Igreja do Sacré-Coeur de Audincourt (Doubs, França) cujos estudos são um dos ex-libris desta exposição de Bruxelas. No desenho, verificamos toda a excelência técnica de Fernanda Léger, da mesma forma que fica clara a importância dos estudos da cor e das formas para esta geração de modernistas. Léger concebeu, também nesta altura, o painel para o Palácio das Nações Unidas em Nova Iorque.

A consciência da guerra e dos seus horrores nunca foi merecedora da indiferença dos artistas, muito menos dos europeus e terá sido neste contexto que Fernand Léger se engaja e se filia em 1945 no Partido Comunista, passando a sua obra a adquirir um tom neorrealista, com enfoque nas classes trabalhadoras e no proletariado, exercendo, na combinação das suas várias tendências artísticas, especial influência no construtivismo russo. Por sua vez, os cartazes publicitários influenciam as suas últimas obras, onde é notória uma separação entre desenho e cor, com os contornos negros das figuras como marca plástica. Les Loisirs-Hommage à Louis David, de 1949, é uma das deslumbrantes obras desta fase final que podemos encontrar no BOZAR, em Bruxelas, até 3 de junho.

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre Mercado da Arte no pós 25 de Abril de 1974. Atualmente, é chief curator da shairart e professora de Arte Contemporânea, mantendo uma colaboração efetiva, em vários projetos de curadoria e de educação e mediação cultural, com a Fundação Bienal de Arte de Cerveira, entidade com a qual deu os primeiros passos em 2007.

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