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Paulo Brighenti em Três Estações Nocturnas, na Baginski Galeria/Projetos

Livros são papéis pintados com tinta. A pintura é tinta espalhada sobre a tela. É este o princípio básico do formalismo que reduzia a arte à sua materialidade: tinta, tela, ferro, pedra, grafite. A arte era, portanto, a livre exploração dos limites físicos e expressivos dos materiais, das pinceladas, da cor e da textura, atribuindo a lógica do plano à necessária lógica racional da pintura. De um modo geral, são estas as premissas que Clement Greenberg viria a cimentar como princípios de grande parte da arte modernista e que viriam a culminar com espantosa realização nas pinturas performativas de Pollock.

Contudo, o dogmatismo formalista, que circunscrevia a arte precisamente a essa racionalidade lógica, começou a ser fortemente contestado para se abandonar, durante a década de 70, em prol de uma maior liberdade criativa e uma abertura de visões e interpretações. Ainda que formalmente certa pintura nos remeta para o preceituário formalista, há sempre uma profundidade que rasga a planaridade e consubstancia volumetrias mentais, conceptuais e estéticas subjetivas. Até para os próprios pintores que exploram os materiais e sistemas internos da pintura, outorgar-se-lhes uma visão formalista pode ser simplificador. Há sempre mais qualquer coisa contida para lá da aparência da forma.

Em Três Estações Nocturnas Paulo Brighenti recupera esta ambiguidade e paradoxo do formalismo para o debater entre a narração sobre quem se apoia (Luís Veiga Leitão) e o prazer de pintar e explorar materiais. Se é certo que as obras expostas reportam para as composições formais e jogos desta disciplina, também é certo afirmar que o peso – o inominável peso – que sugerem são manifesto de uma dimensão intuída que vai para lá de uma análise meramente formal, objetiva. Porque o peso da criação, a contenção de um génio criativo numa massa agrilhoada que é o corpo, é algo que Brighenti tenta investigar socorrendo-se do poemário de Luís Veiga Leitão.

Este poeta e artista, lembre-se, privado da liberdade de expressão pelo repressivo Estado Novo, construiu mentalmente a obra Noite de Pedra e apenas a verteu para o papel quando libertado. Resistência, vazio, solidão, repetição, monotonia, são estados que trespassam as palavras sobre papel de Veiga Leitão e a tinta arrastada e pastosa das peças de Brighenti. O linho perde a fluidez de cortinado. A encáustica e a tinta a óleo firmam uma rigidez no pano. Flores brancas despontam em tintas sujas e escurecidas. Apenas a pasta amarela sobre os búzios oferece a hipótese remota de alegria e esperança; o mar ao fundo – truque ilusório dos sentidos.

Três Estações Noturnas entende-se melhor como um exercício de interpretação plástica das palavras de Veiga Leitão. Nem é extremamente formal, nem anti-formal. Não recusa a narrativa de em quem se firma, nem as literaliza para dar exclusivo corpo à matéria. É, talvez, o que se poderia designar de formalismo moderado, de acordo com o pensamento de Nick Zangwill. Mediante as composições pictóricas, Brighenti emula o sentimento estético que, entre outros, se leem nos seguintes versos:

 

“(…) deram-me uma tinta preta

(nuvem negra dum fogo posto)

e meteram-me no tinteiro…

Na tinta, afogo as mãos, o rosto,

o meu corpo inteiro:

 

 A força, o canto, a voz que encerra,

ninguém, ninguém pode afogar

– como as raízes da terra

e o fundo do mar.”

 

Luís Veiga Leitão, Incomunicabilidade, in Noite de Pedra, Porto, 1955

 

A exposição pode ser vista na Baginski Galeria/Projetos , Lisboa, até 10 de março.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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