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O novo ciclo na vida do Museu Gulbenkian

A fusão dos Serviços da Fundação Calouste Gulbenkian na área museológica e expositiva que originou o fim do CAM não passou despercebida no seio das artes plásticas e visuais. Trata-se de uma alteração de fundo e não apenas uma forma cosmética abrindo um novo ciclo na vida da Gulbenkian como refere o seu próprio presidente, Dr. Santos Silva.

A saída do diretor do museu João Castel-Branco que estava desde 1988 e o ano da comemoração do 60º aniversário da instituição deram lugar à ideia de unir os núcleos de arte antiga e moderna num único organismo dirigido sob a alçada de uma mesma pessoa. A historiadora de arte britânica, Penelope Curtis, responsável de 2010 a Junho de 2015 pela Tate Britain, foi a escolhida de um concurso internacional para fazer esta integração, assumindo a direção dos dois pólos museológicos, como primeiro sinal da grande transformação que irá verificar-se gradualmente. “É uma grande decisão e levará tempo a que as pessoas se habituem a ela”, afirmou P. Curtis. O antigo Museu e o CAM passaram a ter assim uma única designação equiparando o seu estatuto – Museu Calouste Gulbenkian. O que se diferenciará serão as coleções: os pólos da Coleção do Fundador e da Moderna mantendo o seu acervo e promovendo um diálogo mais aberto, criando uma sinergia entre os dois núcleos. “É um desafio juntar os dois museus e torná-los um só”. A este respeito, penso que existe um equívoco porque o CAM construído há trinta anos, nunca foi um museu, nem foi concebido como tal. “Desejo manter tudo o que é bom no museu, e ao mesmo tempo trabalhar para que ele aproveite o seu potencial, especialmente na relação com o CAM”. A intenção é juntar as duas coleções de arte antiga e moderna, num único nome. Uma mudança de fundo na própria organização que constitui o acervo da instituição.

Apesar da sua transformação, os diferentes núcleos do museu “manterão a sua identidade, quer do ponto de vista das coleções museológicas quer das suas atividades”, e não perderão “as suas valências”. Contudo a extinção do CAM não é inocente porque se trata de uma autêntica revolução na Gulbenkian.

Duas Coleções a falar uma com a outra

A tendência expositiva visa promover mostras coletivas, seguindo uma temática, fazendo cruzamentos entre o universo antigo e o moderno/contemporâneo em vez de serem centradas num único artista, no sentido de refrescar as coleções. “Quero mostrar a coleção de forma mais estética e permitindo à arte que fale por si”. Neste quadro expositivo, essas mostras trazem à luz do dia novas ideias e formas diferentes de olhar para a arte. Quanto à afluência do público deverá manter-se algum desequilíbrio entre os dois pólos; a não ser que se deturpe a existência de uma área contemporânea num campo restrito que traz sempre ao nível da sua usufruição. “O meu desejo é juntar o antigo e o novo numa perspetiva mais abrangente. Para transformar algo é preciso manter o diálogo entre a tradição e a inovação”. No âmbito da reorganização, a Coleção de Arte Moderna, por ser muito significativa, terá uma maior visibilidade, passando a ter uma exposição permanente. Questionada sobre o fim da designação do CAM, a responsável comentou que “será uma habituação mais fácil para o exterior e menos para as equipas internas, que estão habituadas a nomeá-lo assim”. Certamente que o CAM ficará na memória durante muitos anos, tendo persistido até hoje e resistido durante mais de trinta anos. No campo da história das artes visuais, dificilmente os períodos históricos das duas coleções são conciliáveis. Especialmente, a partir do discurso concetual de Duchamp, a arte contemporânea seguiu um rumo único, na criação de trabalhos onde as situações e ambientes se tornam desafiantes e incómodos, não se coadunando com o discurso antigo. Trata-se de universos distintos, com valores estéticos diferentes, se não mesmo fraturantes em certos momentos onde o exercício do ver e olhar dificilmente poderão permanecer juntos coexistindo num mesmo espaço. A partir do final do Séc. XX e início de XXI, no plano da visualidade, a relação com a imagem de per si é de difícil interação. As duas coleções têm na realidade dois mundos que são separáveis, devendo viver amistosamente mas em espaços distintos, podendo prejudicar ambos os pólos. Se o museu fosse criado de raiz, talvez a tarefa de Curtis estivesse mais facilitada até porque tem tido experiências na criação de novos museus, na fase inicial. “Sempre gostei e tive a sorte de estar no início dos projetos”.

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.

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