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Um elogio às artes decorativas

A exposição Flower Ornament, de Jorge Santos, constitui um raro elogio a um género artístico que já conheceu dias e reputação melhores: as artes decorativas, que, no passado, enchiam oficinas e posteriormente palácios e casas senhoriais. As madeiras eram talhadas, a folha de ouro aplicada, as pratas gravadas, os panos de armar cosidos durante dias a fio, à bruxuleante luz de velas. Seriam estes saberes, este conhecimento do labor preciso e minucioso, esquecidos pela industrialização acelerada dos últimos séculos, não fossem escolas como a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS), numa existência híbrida entre museu e escola, a manter muitas das técnicas ancestrais legadas pelos mestres da antiguidade.

Jorge Santos recorda este léxico escamoteado pelo tempo e mostra uma série de obras que colocam em diálogo a arte contemporânea com as artes antigas que integram a FRESS. O resultado é semelhante a um relevo suave, contemporâneo de outras obras presentes no vasto espólio da fundação.

De facto, esta exposição não poderia ter lugar de repouso mais acertado que este museu. O verdadeiro significado de contemporâneo afigura-se aqui com indubitável clareza: contemporâneo não é o presente, não é o “agora”; a arte contemporânea não é a arte do presente, é antes a arte que estabelece uma dialética entre tempos distintos e os aproxima, que revela ao olhar uma coexistência temporal entre motivos aparentemente distantes de várias épocas. Jorge Santos devolve-nos, portanto, aquele tempo olvidado em que o ornamento era belo e desejado nas pequenas coisas úteis, num confronto direto entre o tempo das obras da coleção da fundação e a atualidade.

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O dourado metalizado com que estas impressões cegas foram pintadas, repousa sobre o azul da parede e ofusca o olhar e dá o requinte presente, por exemplo, na Sala Nobre. Um pouco por todo o palácio encontra-se esta conjugação de tons que Yves Klein tão bem trabalhou.

A arte de bem adornar requer uma sensibilidade rara a que nem todos conseguem aceder. O que está impresso são arranjos florais. Nada há como uma jarra de flores sobre uma cómoda, na mesinha de centro, ao lado do quadro, para dar vida ao lar; um certo gosto burguês vem à memória e a associação não será inocente. Joana Consiglieri, autora do texto expositivo, nota que “as flores emergem de uma intimidade oculta”. E a repetição seriada deste motivo torna a ação num “ritual sagrado”. O espetador tem o privilégio de aceder à ritualização (expandida pela cor dourada) da relíquia da natureza que é a flor e que a arte e a poesia têm vindo a eternizar.

Mas se os motivos florais são reconhecíveis, também a ausência é notória. Só o contorno se mostra para criar um vazio. Este vazio, por seu lado, é manifesto de uma beleza caduca, a anunciação lenta de uma morte. As flores expiram com o tempo a sua beleza. Arrancar uma flor à natureza é transportar um pedaço do seu assombro para um lugar privado. E isso acarreta uma perda. Deste modo, a exposição Flower Ornament não deixa de narrar também uma certa perenidade de instantes belos, mas fugazes e que Jorge Santos cristaliza nas suas obras.

Flower Ornament, de Jorge Santos, na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, até 30 de junho.

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