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Imagem de capa: Sem família (say it in modern greek).

Ana Vidigal volta a expor na galeria Baginski e desta vez a artista questiona o Tempo através da sua prática, técnica e processos.

A colagem é o motor desse questionamento, técnica que usa há décadas, mas é o meio de um percurso indagatório que se inicia na recoleção: de materiais, de suportes vários, imagens, poemas… É com base neste ato – quase de respigador compulsivo – que a obra começa a surgir. Relações entre figuras, textos e objetos dão expressão a uma inquietação interior que a colagem vem cristalizar.

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Morrer na praia

As técnicas que cimentam esses vínculos, que criam novos corpos, novas narrativas e interpretações, não são escamoteadas; antes pelo contrário, são evidenciadas. As suturas mostram-se com clareza: os agrafos estão lá e alinhados, as tachas doiram em imagens reconhecíveis como o Bambi, abraçadeiras de nylon seguram dois elementos que ameaçam separar-se.

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Há manhãs que cantam

Numa época cacofónica, dispersa e atomizada como a nossa, é curioso a artista fazer da colagem e da recoleção processos de sistematização e elucidação. De facto, não existe técnica mais expressiva e clarificadora de uma contemporaneidade de tempos, mensagens e volições políticas tão díspares como a colagem.

Na obra Só a poesia nos pode salvar. Há lugar para mim? (Bambi a fugir de lá) parece haver a busca de um espaço com sentido. Há elementos que nos falam da morte: a pelúcia de um veado-criança, o esqueleto de um crânio de um veado adulto e de hastes proeminentes. À morte sucede a perda: frases são apagadas com corretor, a imagem do Bambi é suprimida, recortada, para expor um grande vazio na composição. O paradeiro da criatura é incerto; a elisão é trabalhada.

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vista da exposição

Em sem família (say it in modern greek) Ana Vidigal põe, ao que parece, uma Europa em estado de barricada: folhas de papel quase vazias representam países que se unem mútua e periclitantemente com fitas quase impercetíveis; frases rápidas em língua estrangeira oferecem de guia básico de salvação; tudo isto está assente numa tela pobre em preto e branco; no chão, sacos de areia amontoam-se e dão a outro plano do espaço a noção de caos atual. Tudo parece bastante precário neste quadro, como precária é a realidade que atravessamos. É uma peça de rotas, de percursos, numa geografia física precisa, mas de humanidade questionável. O olhar migra, de folha para folha, de lugar para lugar, de país para país, como o olhar de muitos que têm atravessado a Europa no desespero: os sem pátria e sem família.

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O fim está no meio

Outras peças reverberam mais temas geopolíticos, como os fluxos em África, do norte ao sul, ou a China de Mao Tsé-Tung, com ilustrações didáticas, daquele tempo que parecia tão mais simples, onírico, mas que acabou despedaçado. Os materiais juntados ora se mostram ora se escondem; neste jogo desassossegante, cabe ao espetador construir um discurso mental sobre o que observa.

O engajamento político é visível um pouco por todas as obras que constam na exposição. A artista não se furtou à compreensão da atualidade e di-lo de modo absolutamente lacónico: “Este é um tempo político. Que de repente nos caiu no colo”.

Entre a composição e a decomposição, Ana Vidigal procura encontrar, como muitos dos modernistas que recorreram à colagem, e “sem nunca suprimir inteiramente a alteridade [dos] elementos reunidos numa composição temporária” (Grupo Mu, 1973: 34-35 citado por Perloff, 1993: 103), uma ordem para atualidade fragmentada.

Ana Vidigal, na Galeria Baginski, até 9 de junho.

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