ARTE

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Fotografia de capa: Douglas Fitch.

Ao invés de degustares a comida, brinca com ela, diverte-te e a partir daí compõe uma instalação artística, é este um dos pressupostos de Douglas Fitch, um artista, designer, cenógrafo, marionetista e performer nova-iorquino. Bem disposto por excelência, diria até uma bomba energética que nos deixa contagiar não só pela sua criatividade como pela sua vida artística. Já percorreu vários cantos do mundo e nele encontramos uma espécie de reencarnação do dadaísmo para quem o mais aborrecido objeto ganha uma nova identidade.

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Fotografia de Rodrigo Bettencourt da Câmara

O encontro deu-se na nossa redação, na Praça Luís de Camões, numa cidade que o deslumbra a cada vez que a visita. O "culpado" deste encontro é André de Quiroga, produtor e comissário do projeto Mar e Montanha que trouxe o artista a Portugal pela segunda vez, numa curadoria entre a arte e a gastronomia e cujo leitmotiv visa a promoção dos produtos algarvios, numa colaboração entre 20 cozinheiros e 20 artistas plásticos. Da primeira vez Douglas Fitch entrou na cozinha do chef Leonel Pereira em Almancil para que do encontro resultasse uma obra. Assim nasceu Still Life in Motion, um filme que junta fotografia, pintura e escultura e no qual as naturezas mortas ganham vida. Após alguma concentração o filme assume uma carga humorística e diverte-nos pela forma como está composto: os peixes parecem respirar, o porco abre os olhos e fixa o espetador, o pombo embebeda-se com o vinho e as maçãs movem-se na nossa direção. Como se de repente uma pintura do artista italiano Arcimboldo ganhasse vida.

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Fotografia de Rodrigo Bettencourt da Câmara

Desta vez Douglas Fitch voltou a Portugal para fazer uma exposição no Museu de Portimão da qual fazem parte o vídeo, bem como uma instalação visual à volta do mesmo em que os intervenientes saltam do ecrã para animar a sala.

Não conhecias o chef Leonel Pereira quando aceitaste participar no projeto Mar e Montanha. Como foi a experiência e como foi feita a tua pesquisa para o projeto? O livro A Cozinha Futurista de Marinetti foi uma influência para o vídeo?

Não. Sempre fui fascinado pelas naturezas mortas na pintura e sempre quis fazer um vídeo de animação com estas caraterísticas. Vinte anos depois surgiu a oportunidade e assim nasceu Still Life in Motion em colaboração com Cynthia McVay, a técnica de animação Marina Estela Graça (docente na Universidade do Algarve) e o chef Leonel Pereira.

O vídeo está agora em exibição no Museu de Portimão como resultado final do projeto e acabaste por compor uma instalação em torno do mesmo.

Sim, achei que seria pouco interessante expor apenas o vídeo e decidi fazer uma instalação que se assemelha a uma explosão das várias peças que utilizei para o video. O resultado é uma colagem resultante de todo o processo, como se de uma peça Dadá se tratasse.

Marcel Duchamp iria gostar?
(risos) Sem dúvida.

Gostaste de fazer parte de toda esta experiência em Portugal?

Sim. Não se compara a nenhum dos projetos que já fiz. Adoro estas pessoas, são as mais subversivas que já conheci e que me fazem pensar que tudo é possível. “It's all about great people and great food”.

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Fotografia de Douglas Fitch

Ao longo do teu percurso tens dado vida a objetos fazendo com que assumam uma nova forma, uma nova identidade. Os patos transformam-se em ananases...
Sim, é assim que eu sinto que deve ser. Nunca quis ser um artista político e continuo a não querer, mas se olhares pela perpetiva socialista de Marx, estes objetos estão integrados na crise de identidade pela qual o mundo está a passar. A identidade é o grande tema no atual mundo da arte. A política está a tornar-se Dadá na América.

A tua carreira faz a ponte entre várias áreas, da arquitetura, à fotografia, arte, gastronomia, ópera. Como decidiste fundir áreas tão diferentes e o que te levou a despertar o interesse pela gastronomia?
Eu nunca penso que estou a misturar diferentes áreas, para mim todas elas fazem parte de um mesmo instincto. Trata-se de uma questão conceptual em que logo após tento encontrar o media apropriado. A comida é apenas mais um media e vem do tempo que eu passava com a minha avó.

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Fotografia de Douglas Fitch

Fala-me sobre essa linda relação entre ti, a tua avó e o pão?
A minha avó vivia no Missouri e nós em Fargo na Dacota do Norte. Em Fargo não existiam padarias, era tudo industrial e como tal eu não conseguia encontrar pão fresco. A minha avó fazia-o em casa numa atividade que eu considerava quase mágica. Cheirava tão bem mal saia do forno... Pedi-lhe então que me ensinasse a fazer pão e adorei a experiência. Não é muito diferente de fazer escultura na atitude de fazer o molde e lhe dar forma. Passado uns anos decidi ir para Paris – a cidade onde todos queriam estar – e na altura pensava em ser um artista, performer ou arquiteto, sabia que queria fazer algo criativo. Interrompi a universidade e acabei por entrar numa escola de cozinha, a La Varenne, mais cara que Harvard (risos). Pensei: se aprender a cozinhar bem serei sempre bem vindo. Aprendi a cozinha tradicional francesa e percebi que a apresentação representa 30% do problema. Se não tiver um aspeto delicioso os olhos acabam por recolher a informação errada.

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Fotografia de Douglas Fitch

O arquiteto Gaetano Pesce foi uma grande influência no teu trabalho. Como o conheceste e como se tornou tão importante?
Após o curso de cozinha, decidi fazer um curso de pintura, não consegui e fui para arquitetura. Foi lá que conheci esta pessoa fantástica que me convidou para ir trabalhar com ele para Veneza. Foi a primeira pessoa a mostrar-me que existem várias possibilidades de viver uma vida criativa.

Quando a arte contemporânea encontra a gastronomia o resultado são os Orphic Feasts o teu projeto com a artista japonesa Mimi Oka, no qual trabalham há 20 anos. Como começaram esta aventura?
Conhecemo-nos na faculdade, em Harvard e começámos por fazer teatro juntos no Hasty Pudding Theater. 12 anos após me graduar e durante uma viagem com um amigo parámos em Los Angeles, onde me voltei a cruzar com a Mimi, que me disse estar de partida para o Japão. Passado pouco tempo viajei para Tóquio e voltei a cruzar-me com ela e pensei: isto é mesmo estranho e decidimos fazer algo criativo em conjunto. Tinhamos acabado de comprar o livro A Cozinha Futurista de Marinetti e pensámos desde logo em fazer comida futurista. Fizemos uma espécie de edifício ao género Frank O'Gehry mas comestível. Foi um projeto completamente louco e no qual passámos três dias e três noites a trabalhar na cozinha da Mimi. Os japoneses reagiram de uma forma estranha mas quando se aperceberam que o nosso edifício era comestível não hesitaram e todos quiseram comê-lo, foi fantástico. A partir daí não parámos e fizemos performances incríveis.

A exposição Still Life in Motion está patente no Museu de Portimão até 14 de maio.

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