MÚSICA

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Fotografias: Magda Gouveia.

Romper com as estruturas existentes, recompô-las, estar atento aos fenómenos emergentes e saber valorizá-los, promover encontros de diversa natureza é exercício contínuo e o melhor antídoto para alguns anacronismos recorrentes. A Rita Maia é talhada a energia infinita, capaz de aproximar lugares, de diálogos permanentes, de causas, que partindo da música, defendem valores universais. E com ela, depois da entrevista com os Ghost Hunt, continuamos a dar destaque ao Lisboa Dance Festival.

Antes de começar a falar da tua participação na edição deste ano no Lisboa Dance Festival gostaríamos que nos falasses um pouco sobre a curadoria de que és responsável – Migrant Sounds?

O Migrant Sounds é uma noite com uma periodicidade bimensal, no Musicbox e é o resultado de uma vontade de pôr raízes na minha cidade, uma vez que já estou fora há 14 anos, mas mantenho a vontade de fazer uma coisa mais regular, no fundo, que se possa construir algo. Uma coisa é eu vir cá tocar de vez em quando ao Lux, como nos últimos anos, outra é esta hipótese de estar em contacto com os artistas locais. Mantenho esse contacto online, mas é completamente diferente. Gosto de os poder juntar, falar com eles, ver o que estão a fazer. Manter esta regularidade é como que montar uma estrutura para desenvolver outras coisas. A primeira edição (Migrant Sounds feat. Dj Satélite + Rita Maia + João Gomes) que marquei foi somente com pessoas de Lisboa, mais um soft lounge digamos. A segunda, contou com o Thris Tian, fundador da Boiler Room, programas no Channel 4 e de outros projectos e fizemos um back to back (b2b) de 3 horas, em que ele tem umas referências e eu outras. A ideia era fazer uma espécie de conversa musical, entre a música portuguesa, o grime, o house de Chicago, etc. Essa gravação já está disponível online na Worldwide FM, onde colaboramos os dois.

Além disso, a necessidade de ter de montar o Migrant Sound força-me a procurar o que vai acontecendo localmente. Ou seja, fazer o projecto no sentido de desenvolver a pesquisa de um certo tema, estabelecer uma ligação entre o cá (Lisboa) e o lá (Londres).

Estando há 14 anos fora do país, como vês o que se vai passando em Lisboa e se de certa forma é possível estabelecer-se uma comparação com o que se passa em Londres.

Acompanho este processo, de maior atenção dada à música electrónica, digamos assim, desde o início, uma vez que comecei a tocar cá há 15 anos. Desde que fui para Londres já tive noites de música lusófona, levei muitos artistas a tocar em Londres, mantenho contacto frequente com esses artistas, sobretudo aqueles que produzem música com influências muito variadas e que normalmente vêm dos subúrbios da cidade. Eu vivi nesses sítios e também fiz projectos de música como assistente social nessas periferias. Ajudei a criar estúdios, sistemas de som, concertos em comunidades e desde essa altura que acompanho a evolução deste fenómeno. Nessa época, a música electrónica que vinha das comunidades era sobretudo o Kuduro com origem em Angola, mas nos últimos 10 anos desenvolveu-se um estilo local que quanto a mim ainda está a meio. Tenho acompanhado sempre e tenho até servido um pouco como uma intérprete no sentido de apresentar os artistas de cá em Londres. Não quero perder este contacto.

Como vês o trabalho da Príncipe?

Quando começaram com a label, a Príncipe entrou em contacto comigo para passarem a música deles na rádio em Londres, já que ninguém a conhecia fora de alguns sítios específicos em Lisboa, e tenho-o feito desde essa altura. O trabalho deles é bastante interessante, uma vez que a música já existia, pelo menos, dez anos antes do surgimento da editora, mas eles tiveram a capacidade de pegar nos miúdos, muitos deles bastante novos, e levá-los a focarem a sua atenção no processo de composição em vez de serem somente beats para serem tocados ao vivo em DJ set. Eles fazem um trabalho que hoje em dia faz mesmo falta, ou seja não se limitam ao lançamento da música, têm o cuidado de acompanhar o processo dos diferentes artistas, desde o início. Valorizo bastante o trabalho deles.

E a velha questão da internacionalização dos músicos nacionais?

Neste momento vê-se, mais do que nunca, músicos a tocar um pouco por tudo quanto é sítio. Nos anos 90 tivemos o caso dos Underground Sound of Lisbon que chegaram a ser nº1 no Reino Unido, que é obviamente um feito brutal. Mas nessa altura eram muito poucos. Agora, a grande diferença é que há uma comunidade artística muito maior que está a fazer este trabalho, ainda que num mundo bem underground. A nível criativo é importante não pensar na indústria somente no que está estabelecido cá em Portugal. Devemos ter a consciência que são os artistas que determinam as regras e não as estruturas. Se as estruturas não se encaixam naquilo que tu fazes, então é preciso olhar para outra estrutura, construir outras estruturas e olhar para o que existe no resto do mundo. Não só há espaço para isso, como vejo bastante interesse lá fora no que é feito cá, muitas vezes até mais do que cá.

Alargando o foco das estruturas condicionantes de que falas, que impacto pensas que o Brexit terá na comunidade artística do Reino Unido?

O Reino Unido já passou por tanta coisa, por exemplo a crise dos anos 80 com a Thatcher e curiosamente a música que se produziu naquela época é incrível. Obviamente que influenciará a nível pessoal, uma vez que ninguém sabe muito bem o que se irá passar. A preocupação é que se mantenha a diversidade que existe em Londres e que faz com que Inglaterra seja um dos países que exporta mais música e cultura a nível mundial. Não sei se irei lá estar daqui a dois anos, por enquanto é tudo um bocado confuso, mas de certeza absoluta que fazemos o que fazemos e iremos continuar a fazê-lo. Além disso, estes momentos de crise, de tensão podem ser óptimos momentos para arranjar maneiras diversas de fazer as coisas. Ainda há pouco, eu e o Thris Tian, estivemos a falar sobre isso, e ele como inglês estava a dizer que também convém começar a olhar para outros sítios fora da Europa. Ele já começa a tocar em África, Japão, Estados Unidos.

Centrando-nos na programação do Lisbon Dance Festival, e mesmo correndo o risco da pergunta ser extremamente redutora, o que destacarias na edição deste ano?

Gosto bastante do line-up. Não destacaria nenhum músico em particular, mas antes a diversidade de propostas que apresenta e gostei do desafio que me fizeram, de tocar com o Satelite em b2b, as conferências, gosto também dos estrangeiros que foram convidados como a Jessy Lanza, a Tokimonsta. Olhando como um todo, o programa é bastante apetecível.

Vais também participar num das conversas subordinada ao tema Girl Power. Pensas que ainda é premente abordar este tema no momento em que vivemos. Notas que ainda há descriminação?

Não colocaria a questão dessa forma, ou seja penso que qualquer que seja a conversa deve estar aberta a ambos os sexos. As performances e as conversas não devem estar separadas do mundo da música, não sou muito partidária de haver este tipo de separação. Faço parte de um grupo, a SHESAID.SO, que é uma plataforma, a partir de Londres, de mulheres na música a nível mundial. É uma plataforma de entre ajuda, de partilha de oportunidades, que serve no fundo como um exemplo para as mulheres mais novas, aos quais eu daria também valor se estivesse a começar agora. A maneira como vemos as coisas não passa pela separação de género, mas por criar oportunidades no sentido de mudar a indústria, o meio.

* Este texto não é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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