JOALHARIA

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Fotografia de capa: Lake Constance with borders, 2017 | Materiais: aço, esmalte | 50x68x8 mm.

Silvia Walz nasceu na Alemanha. Há muitos anos já, vive em Vilanova i la Geltrú, na Catalunha, província de Barcelona.

Dá-nos a conhecer uma carreira artística em pleno processo, através da joalharia. Encontramos uma variedade de argumentos dentro de cada peça, unidos num discurso complexo. Tomado o seu trabalho como um todo, existe uma sensibilidade feminina? Em peças mais antigas do que as aqui apresentadas, há referências diretas e indiretas às mulheres, bem como certas alusões ao que antes eram artesanatos que costumávamos considerar femininos, como bordados, costuras, tecidos e, até mesmo, pintura. Tudo isto emerge transformado por sensibilidade e por um raciocínio intencional e emancipado de convenções, de modo que nos perguntamos o que tenta dizer, sobre o que argumenta. Como toda a arte contemporânea, as suas peças exigem um exercício intelectual da nossa parte, a fim de entender as suas intenções criativas e comunicativas. No entanto, esta tentativa de compreensão nunca deve ser um ponto final. Tem que ser sempre uma interpretação provisória, que preceda outras peças que hão de surgir e que, num processo simétrico ao dela, represente um trabalho de interpretação feito pelo público que somos nós mesmos.

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Geometria of the Light, 2016 | Polarização 2. Materiais: aço, esmalte | 80x55x10 mm

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Geometria of the Light, 2016 | Polarização 2. Materiais: aço, esmalte | 80x55x10 mm

Foucault propõe-nos que refletir sobre heterotopias. Diferentes das utopias – que estão ligadas a locais que são essencialmente irrealistas, embora possam também ter sido lugares que se ligaram a um espaço social real, como se fossem analogias diretas ou invertidas – as heterotopias, em oposição a isto, são lugares reais. Talvez em algum outro momento fossem utopias, mas efetivamente tornaram-se feitos reais. Heterotopias são espaços-outros, como diz Foucault. São lugares onde várias experiências humanas se reúnem contemporaneamente e, embora parecem incompatíveis, produzem modos de vida ou efeitos múltiplos ou mistos. São espaços onde a alteridade e a identidade estão entrelaçadas, onde a heterogeneidade, a diferença e expressões da pluralidade residem. Trabalham ao máximo quando há algum tipo de "rutura absoluta com o tempo tradicional", quando o tempo também se acumula neles, simetricamente.(1)

Este tempo não é nem um retorno ao zero, ao nada, nem ao tempo da história, como se fosse uma ruína morta do passado. É, diria eu, um tempo-outro. Sendo ambos presentes e múltiplos, mantêm memórias, ideias e sentimentos vivos. Incluem vestígios, embora não como restos estagnados, mas como um tempo reciclado, feito de sensações tangíveis. Este tempo está ativo e em diálogo como o presente. É um tempo de vida que se pode tornar em matéria artística. É pensado, acumulado e sincronizado com as experiências, a fim de expressar intenções e escolhas individuais.

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Porta-skies with shadow 1, 2016 | Materiais: aço, esmalte | 50x65x8mm

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Porta-skies with shadow 2, 2016 | Materiais: aço, esmalte | 50x65x8mm

Uma a uma, as peças de Silvia Walz são vestígios de um tempo-outro. Em cada uma delas há um discurso característico entre memórias mais ou menos velhas e vestígios de olhares num cenário mediterrânico, que nasceu no Norte da Europa, mas decidiu ter a sua vida própria no sul europeu. Há uma multiplicidade nelas que, intrigantemente, deve ser considerada porque se torna significativa. Por outro lado, se olharmos retrospetivamente, as suas peças tomadas como um todo são também vestígios de uma história de vida, igualmente vivida como um tempo-outro, num lugar que transformou num espaço-outro. Desta forma, mostra a evolução do seu trabalho como um processo artístico, sem um final à vista. Com curiosidade, busca incessantemente a heterogeneidade. Também nos permite pensar que se cada peça tem uma singularidade, então, igualmente há passos e momentos diferentes na descoberta, na experiência estética reflexiva.

Os materiais e técnicas tornam-se vestígios tangíveis e, portanto, vivos, neste mesmo tempo-outro, contribuindo para o seu processo criativo. Se cada técnica também tem uma história, uma trajetória, então, com as suas próprias regras, Silvia Walz explora essas convenções, desafiando-as. Fazendo conjunções, experimentando, inventa até se tornarem expressivas, a ponto de serem material artístico tangível capaz de enfatizar o que nos quer dizer por meio de uma poesia múltipla.

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Lake Constance with borders 2, 2017 | Materiais: aço, esmalte | 50x68x8 mm

(1) Foucault, Michel, 1984, Des espaces autres. Hétérotopies, Architecture, Mouvement, Continuité, n°5, (conferência no Cercle d'Études Architecturales, Outubro, 1967), 46-49.

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