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Memória de uma "Cidade Gráfica" a desaparecer no MUDE fora de portas

A exposição apelativa Cidade Gráfica, Letreiros e Reclames de Lisboa no Século XX que está a decorrer no antigo Convento da Trindade, em pleno Chiado merece sem dúvida uma visita, no período em que o edifício do Museu se encontra em obras de reabilitação. Interessou ao MUDE olhar para a Cidade, na perspetiva da publicidade e da cultura urbana para permitir a fruição de uma memória cultural.

A mostra é formada por 70 peças, de várias épocas, com a curadoria dos designers gráficos: Rita Múrias e Paulo Barata, fundadores do Projeto Letreiro Galeria que nasceu em 2014. É precisamente este projeto com uma coleção já extensa que serviu de base a esta exposição que reúne para além dos letreiros, formatos de suportes de plantas; documentos dos Arquivos da Câmara e da Gulbenkian mostrando planos de uma Lisboa desaparecida com reproduções e fotografias de uma época bem como filmes elucidativos de um tempo antigo.

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A exposição assenta na pesquisa, identificação e preservação destes artefactos que marcaram toda uma geração de exemplares fantásticos. Os comissários trabalham numa tese sobre este tema e ambicionam a criação de um Museu, à semelhança do já existente em Berlim e que os inspirou; andando a recolher esses objetos ainda existentes nas ruas. O processo consiste em localizar os letreiros abandonados e desativados, após esse exercício de pesquisa, tentam encontrar o proprietário da loja comercial a fim de terem a autorização para os retirar e resgatar. "Tirávamos fotos e depois esses objetos desapareciam", relatam eles.

«Os nossos maiores concorrentes são o lixo e as lojas vintage» P. Barata

Quando iniciaram o registo fotográfico nas fachadas, concluíram que de uma semana para a outra, os letreiros já lá não estavam, tinham desaparecido. Os colecionadores contudo assumem que pelo caminho tem havido perdas irreparáveis. A maioria destas peças numa espécie de legendas da paisagem urbana, concentrava-se na Baixa de Lisboa e na Av. da Liberdade. As peças localizadas nos tetos dos edifícios que simbolizavam "a expressão de uma cidade cosmopolita e moderna" como explica B. Coutinho foram os primeiros a serem retirados há algum tempo, por razões de segurança.

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O desafio que a diretora lançou aos curadores foi o de inserir a mostra num contexto histórico. Sobre esta matéria, quando iniciaram a investigação desconheciam a riqueza do arquivo. "A partir dos anos 50 do Séc. XX, Lisboa tinha uma identidade e uma qualidade gráfica diferente de dia e de noite. A cidade não se faz só de arquitetura e urbanismo, mas muito do seu grafismo", observa B. Coutinho. O primeiro letreiro a chegar às mãos dos investigadores foi o da sapataria A Elite que tem um episódio interessante a dar a conhecer, por se tratar de um trabalho do Arq. Raul Tojal. Entretanto, descobriram que o autor da peça se tinha enganado quanto ao nome da sapataria, o que redundou numa extensa troca de correspondência com o proprietário.

Este evento ocorre num momento oportuno dado que a Cidade está numa transformação profunda no plano do desenho urbanístico, nunca antes verificada, e por outro, constata-se o desaparecimento abruto das lojas tradicionais históricas no Centro da Cidade. Ao ponto de ter havido a necessidade de criar um programa específico na área do Património Cultural para a possível conservação e proteção desse tipo de lojas com história numa estética muito própria, numa tentativa de salvar as restantes. "Quando se entra na exposição há um momento de design industrial muito intenso num ambiente propiciante. As pessoas sentem que já estiveram ali, há como que um regressar às suas memórias", afirma R. Múrias.

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Um dos objetivos desta ação é permitir manter a memória de uma cidade que já existiu e que está a desaparecer. Uma das ideias base é criar um afeto renovado, surgindo assim um interesse em fazer renascer estes objetos vivos, a fim de não caírem no esquecimento que também podem ser apreciados como esculturas com uma vertente decorativa muito forte. Quanto à metodologia, as famílias de letras foram um ponto de partida para a arrumação dos letreiros: a itálica; a manuscrita e a maiúscula e através deles, o MUDE pode avaliar através dos letreiros, a evolução da tipografia. Será uma forma de sensibilizar o público acerca de um importante património histórico-cultural urbano dos últimos 50 anos que está vivo e que ainda é possível preservar. A exposição está organizada por tipologias e materiais, sendo a aplicação do néon o dominante e o mais chamativo. A partir desse momento, com os reclames luminosos a cidade deixou de dormir onde a noite se transformava em dia. A iluminação noturna criou uma nova lógica de valências, trazendo a era da Modernidade.

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