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em torno da ideia da construção da felicidade

Se ainda não teve a oportunidade de ver a instalação vídeo Terceiro Andar da cineasta italiana Luciana Fina sob a curadoria de Cíntia Gil e Davide Oberto, sugiro que vá vê-la, por ser magistral, encontra-se na Galeria da Gulbenkian até ao final de Janeiro de 2017. Trata-se de um trabalho inserido no Doclisboa, integrado no programa Passagens em projeção contínua de 27’. O projeto deste filme esteve como simples documentário no São Jorge e foi especialmente concebido para o espaço da Gulbenkian, funcionando em site specific, formato que é recorrente no trabalho desta artista.

A obra é formada por um duplo ecrã, com monitores colocados em planos diferentes, um mais recuado e, o outro mais próximo dos visitantes. O filme regista o diálogo geracional entre duas mulheres guineenses, pertencentes a uma família muçulmana imigrante em Portugal, de nome Baldé através da mãe Fatumata e uma filha Aissato, tema em voga dos nossos dias na Europa e no Mundo. A narrativa historiada é passada num circuito fechado, no interior de um prédio no Bairro das Colónias em Lisboa, onde a família e a artista habitam no 3º e 5º andares, realizada em suportes diferentes através do visual e sonoro.

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Para além das memórias sobre questões como o amor, a felicidade, as relações e os afetos, a problemática que mais interessa à realizadora prende-se com o mecanismo da tradução; sendo este o assunto crucial respeitante ao próprio conceito do sentido de tradução, sempre presente neste díptico. A filha traduz do inglês para português aquilo que a mãe vai dizendo em crioulo e ao converter, interpreta nos discursos, correspondências e ligações, trocando impressões que atravessam as memórias de infância e da vida de aldeia em África. Como é registado no filme: Que língua devemos usar, para contar as histórias que nos foram contadas? O papel da tradução recupera assim o seu sentido mais profundo numa atividade onde o afetivo e o político se tornam indissociáveis.

Às sete da tarde, do terceiro até ao quinto, ressoa pelo prédio o som do pilar da pimenta e da mandioca (L. Fina)

O som assume uma especial relevância, tanto se materializa através das vozes dos protagonistas, com as palavras em off, ou em on, como de outros efeitos sonoros provocados pelo triturar mediante um pilão de madeira trazido pela Fatumata de uma aldeia perto de Bissau. Pelas 19 horas, ressoa um som regular, sempre igual, como o bater do coração. Os aspetos sonoros contrastam com as imagens silenciosas, onde os rostos das figuras mudas se encontram fixos como na fotografia, fechados sobre si mesmos, como se estivessem a escutar as histórias narradas por si, ao lado do observador, fazendo-lhe companhia, num jogo visual soberbo. A dualidade surge nesta composição de uma forma clara, a começar pelo diálogo entre as personagens, a presença de duas figuras centrais através de um duplo ecrã e, por fim a problemática da tradução que pressupõe a passagem de uma língua para outra. O algarismo três também aparece com uma maestria singular numa triangulação bem desenhada: a começar pelo enfoque do 3º andar, título da mostra; a referência a uma linha geracional familiar da passagem do enredo das histórias, em três línguas: português; inglês e crioulo.

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Existe uma planta tropical de raízes aéreas, que atravessa todo o interior do edifício caindo como que simulando a queda sob o vão das escadas do edifício partindo do 5º andar para baixo como se de um corpo se tratasse e que surge no decorrer da ação do filme de forma permanente e que funciona como um elemento condutor de todo o trabalho. Deparamo-nos assim com um fio extenso que parece não terminar, podendo simbolizar a trama das ligações humanas e as marcas das linhas da memória que só o passado pode tornar vivo. O desenho da planta produz uma verticalidade que a câmara de filmar acompanha cuidadosamente, contrastando com o eixo definido pelos monitores e a geometria das molduras das janelas e portas, objetos que significam a passagem da abertura para o exterior. A malha urbana com pormenores arquitetónicos e decorativos é aliás uma das características que está sempre presente nesta autora, tirando partido, neste caso de estarmos na presença de uma construção dos anos 30 com os gradeamentos em ferro do corrimão e da varanda. A artista ensaia mais um gesto cinematográfico que interroga as formas narrativas e a matéria do cinema.

Ultimamente nas Artes Visuais, tem vindo a transpor as suas obras das salas de cinema para os espaços expositivos, como é este um exemplo disso mesmo. Nasceu em Itália e trabalha em Lisboa há mais de vinte anos, abraçando a área do cinema, após uma colaboração como programadora com a Cinemateca.

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