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Foram vários os fatores que contribuíram para que no Modernismo os objetos artísticos ganhassem uma nova perspetiva sobre si mesmos e que, por consequência, se interrogassem sobre os temas que abordavam, os materiais que utilizavam e o fim que pretendiam.

A pintura caminhou, por sua vez, em direção à exaltação e transcendência (do conceito) da forma, o que fez com que se tornasse cada vez mais sensível, subjetiva, interpretativa e abstrata em todos os seus paradigmas associados. Desta resultou ainda o impulso para a destruição do conceito de beleza ou a inquietação para o desvendar da sua natureza intrínseca, em prol da criação de imagens que contivessem em si mesmas evidências de uma própria realidade. Realidade essa que deveria ser olhada, não obstante, sem nenhuma reminiscência histórica para que seja devidamente apreendida no contexto onde foi produzida e onde se insere atualmente.

No modernismo a obra de arte convida ainda o espetador a entrar num “mundo de uma outra dimensão”, sendo que aquilo que escapa à percepção comum é agora a personagem central de um enredo que constitui ele mesmo a obra de arte. A obra Grand Verre de Marcel Duchamp (terminada em 1915) é um belo exemplo da revolução artística à qual a arte foi submetida. Duchamp defendeu antes de mais que, o momento que se vivia relativamente à história (da arte) já não dava lugar de destaque à pintura a óleo e que a mesma (após 400 ou 500 anos de existência), não teria nenhuma razão de eternidade. O mesmo declarou ainda, em entrevista a Pierre Cabanne, que se os avanços do mundo e da técnica deram origem a outras fórmulas de expressão, seria preciso aproveitá-las, uma vez que, a partir deste momento o quadro (ou seja, a tela) deixou de ser unicamente um elemento de decoração e passou a existir por si mesmo como signo de uma cultura, época ou personalidade que cumpre simultaneamente funções distintas e individualizadas.

Esta obra merece uma importante atenção para a compreensão da arte produzida no século XX pois em primeira instância transforma o espaço bidimensional (natural da tela) em lugar de transparência (vidro), o que obriga por si só a uma deslocação do espetador ora pelo verso ora o reverso do “quadro” e para além disto, obriga a inclusão simultânea dos outros espetadores e do meio envolvente no enquadramento visual da obra.

Percebe-se então que, a conquista de Duchamp foi criar um lugar habituado simultaneamente pela obra e pelo seu espetador, onde estes dois existem um pelo outro e/ou um para o outro. Em Grand Verre espaço exterior estende-se além da superfície do suporte, o que gera por consequência um desafio ao espetador quando este se propõe a encontrar o início e o fim (de leitura) da obra. Por outro lado, é ainda importante ter em conta que a forma ou assunto da obra de arte encontra-se suspensa num espaço transparente (ou seja, no meio dos dois grandes vidros) que, em comunhão com a visibilidade do seu espaço expositivo e dos seus espetadores, o que pode também baralhar o seu público acerca daquilo que é “real” ou imaginário, sendo que vários teóricos a possam classificar mesmo como “espelho-armadilha” pois a mesma peça que fabrica em primeira mão uma realidade (poética) autónoma, fá-lo, concomitantemente dentro de um paralelismo absoluto com o concreto, numa espécie de competição dialética com a realidade.

Não obstante, note-se que a transparência vítrea é perfeitamente reveladora e assim a própria obra assume-se pelas palavras do artista no livro Engenheiro do Tempo Perdido “como uma janela que não se inibe de mostrar o que está para lá da matéria e da composição criada pelo artista”. O objectivo de Duchamp terá sido, sem dúvida, oferecer à arte uma nova função, sentido, importância e autonomia no mundo em que habita.

Esta mudança de paradigmas acabou por obrigar o artista moderno a ser mais criativo, dinâmico e sobretudo a adiantar-se ao inevitável processo de absorção e transformação ideológica de seu produto final e fez com que o espetador se revelasse parte integrante da obra não só através da forma física mas também, das relações e interpretações que teceria sobre a mesma.

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