MÚSICA

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Numa época que se cita Beckett com uma voracidade e tesura, como em tempos se dava uso aos conselhos dietéticos das Selecções Reader's Digest, deixemo-nos levar por esta vaga e arriscar afirmar que serão dias felizes os que se viverão em Braga de 28 a 30 de Outubro.

Aproveitando a muita aguardada 6ª edição do Semibreve, decidimos conversar com o seu programador, Luís Fernandes. Mais do que uma antevisão musical, exercício inútil face à qualidade das propostas apresentadas, tentámos perceber o que esteve na génese do Semibreve, como este se inter-relaciona com os agentes da cidade, como Braga se apropriou e como a partir dele se pensam desenhar estratégias de desenvolvimento urbano alicerçada nas actividades culturais. Se se procura uma boa definição de trabalho em rede, sem dúvida nenhuma que o Semibreve deverá ser caso de estudo obrigatório.

O Semibreve estabelece uma ligação muito forte entre artes digitais e as áreas relacionadas com a investigação científica e tecnológica. Desde quando começou esta relação e o que se pretende alcançar com ela?

Esta relação começou com o Festival, não é nova. Desde 2011, que uma das premissas é precisamente fazer uma ponte entre a investigação académica que se faz na Universidade do Minho e a vertente performativa, ou seja mostrar num contexto do Festival alguns trabalhos académicos feitos nesta área. Isso foi uma premissa inicial. Na génese do Festival sempre considerámos boa ideia haver trabalho não só na parte artística, mas também poder mostrar o trabalho académico que se faz na área da informática, na programação, das ciências computacionais e também a nível empresarial. Há um grande número de empresas tecnológicas, embora somente parte delas estejam ligadas à cultura. Há uma componente tecnológica muito evidente.

Uma das preocupações da investigação aplicada é dar origem a produtos. Por mera curiosidade, houve já algum que tenha nascido desta colaboração?

Não particularmente, porque o que nós apresentamos no Semibreve são instalações artísticas, com pouca transferibilidade para algo mais tangível enquanto produto. Mas por exemplo, há uma empresa em Braga e que é uma das líderes mundiais em superfícies de toque que faz material para a Samsung. Por causa da relação que nós estabelecemos decidiram apoiar o nosso prémio Semibreve Award e embora não tenha sido implementada, sê-lo-á em breve, a partir de um suporte tecnológico desenvolvido por eles (touchscreen). É um exemplo do que poderá vir a ser um cruzamento concreto entre indústria, investigação e arte.

Outra das preocupações do Semibreve é a relação que estabelecem entre essas instalações e o contexto urbano em que se inserem. Aonde as podemos ver?

Elas ficam concentradas em dois locais. Inicialmente colocávamos todas as instalações no Theatro Circo, mas como o Festival ganhou uma certa dimensão e mais espaços associados, começámos a expandir para outros locais. Neste momento, todas as que são de cariz académico ficam espalhadas por todo o edifício do gnration, e as que são programadas por nós, porque quando se fala em instalações académicas nós não temos um cunho ou se quiseres um crivo tão marcado, porque na verdade o que interessa é promover o trabalho dos estudantes, mas e simultaneamente, temos instalações que são programadas por nós e essas ficam no Theatro Circo. Neste caso, é uma instalação de título Quinteto dos Quiet Ensemble e a outra chamada Growing Verse de Junya Oikawa que foi a vencedora do Semibreve Award. Portanto, estarão duas no Theatro Circo e mais seis, julgo, no gnration.

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Junya Oikawa

Uma vez que estamos a falar do gnration e do Theatro Circo, há também uma preocupação vossa em fazer alguns concertos aproveitando espaços da cidade de Braga. Este ano uma capela.

Desde a segunda edição, salvo erro, sempre tentámos criar de uma forma muito informal um momento de programação num sábado à tarde, e que acabou por ser um concerto muito pequeno na Casa Rolão.

A Casa Rolão é uma casa centenária aqui em Braga que serve de base de operações para o Festival. A partir de 2013, 2014 em diante começámos a fazer concertos. Como correu muito bem e era algo que as pessoas pediam, para além de que temos um público que não é exclusivamente de Braga, vem de fora propositadamente para o Semibreve, daí sentirmos a necessidade de criar um programa para o público que não é daqui e que pode, desta forma, ocupar o Sábado à tarde. Como sempre correu bastante bem e com base na vontade que já temos há muito tempo, que é a de explorar as centenas de igrejas que existem na cidade, surgiu a ideia de organizar um concerto numa igreja que a nível arquitectónico é soberba. Assim que tivemos a certeza do espaço começámos a programar tendo em conta o seu carácter específico. É a primeira vez que o Semibreve organiza um concerto numa capela, foi pensado propositadamente para ser naquela capela em particular e acaba por tornar um pouco mais séria esta programação de Sábado à tarde, que já fazíamos, mas de uma forma mais descomprometida. Este ano temos grande expectativas para o concerto da Christina Vantzou na Capela Imaculada do Seminário Menor.

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Christina Vantzou

Mantendo-nos nesta relação entre o Semibreve e os diferente agentes culturais da cidade, qual é a relação entre o Semibreve e o gnration?

Antes demais é um festival que nem é do Theatro Circo, nem é do gnration, é um festival independente apoiado pelo município de Braga. Assim sendo, a nossa missão é tirar partido de todos os espaços, que façam sentido obviamente e que estejam no leque dos espaços camarários para valorizar o festival. O Theatro Circo é sem dúvida o espaço mais nobre do Semibreve e é uma das razões pela qual o Festival funciona tão bem. A discrepância entre o que é o Theatro e a música que lá apresentamos faz todo o sentido. O gnration veio colmatar uma lacuna que existia antes que era a impossibilidade de programar concertos e outro tipo de eventos que não fossem para auditórios, para uma audiência sentada.

No que toca a esta área da electrónica abriu um conjunto de possibilidades extremamente interessante a nível de programação. Muita da electrónica mais interessante que se faz hoje em dia não pode ser vista num teatro, tem de ser sentida com as pessoas de pé, com um bom sistema de som e, sobretudo, mudando a abordagem. Isso trouxe alguma variedade de oferta ao festival e isso notou-se já o ano passado, com um aumento do número da venda de bilhetes bastante significativo, o que se verificou também este ano. O gnration, neste aspecto, foi fundamental, uma vez que é o único sítio onde se podem realizar este tipo de actividades programáticas.

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gnration

Festivais como o Semibreve são fonte primária, digamos assim, para a promoção de encontros entre artistas nacionais e estrangeiros, ou na forma de residência artística e/ou através de encomendas específicas. Como tem sido no Semibreve?

No Semibreve a vontade de fazer projectos de raiz já é antiga e só não foi feita antes por razões orçamentais. Há dois anos encomendámos o primeiro concerto especial, que depois acabou por não acontecer por uma infelicidade, que era da Karen Gwyer com uma artista visual portuguesa a Maria Mónica. A Karen Gwyer teve de cancelar o concerto dois dias antes do festival ter início. No ano seguinte, conseguimos "compensar" através de um concerto encomendado ao Rodelius, com músicos nacionais e com a Maria Mónica responsável pelos visuais. Foi um concerto que correu muito bem, que foi muito bonito e em que houve a hipótese de repetir no Maria Matos. Esse foi o primeiro concerto encomendado com mais escala, digamos assim.

Este ano temos o da Christina Vantzou que tocará com o Ensemble Harawi, que é um ensemble de Braga, e que também se torna num momento especial, porque só vai ser tocado cá. Para além disso tivemos, o ano passado, um concerto encomendado ao Heatsick, que partiu de uma residência artística feita no gnration durante uma semana, tendo sido muito diferente do que ele faz normalmente. Esse, foi sem dúvida, um momento especial. Este ano não sendo uma encomenda nossa, mas que acabou por calhar bem, vamos ter uma estreia mundial, do Ron Morelli + Florence To que vão apresentar um espectáculo audiovisual novo.

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Florence To

Este tipo de Festivais tem um impacto bastante forte em cidades médias como Braga ou Viseu, por exemplo, mais até do que em cidades da dimensão de Lisboa ou Porto. Como é que Braga tem acolhido o Semibreve e como este tem gerado impacto nos agentes culturais da cidade?

O Semibreve causou um impacto muito grande na cidade, desde 2011. Em primeiro lugar, só havia um festival em Portugal com características similares, na Madeira, e que é o Madeiradig, e ainda assim é um festival relativamente parecido com o Semibreve em termos de programação, mas é muito diferente do que é o Semibreve. Nesse sentido, estávamos a colmatar uma lacuna que existia no país, embora houvesse teatros e promotores a fazer este trabalho de uma forma exemplar, como o Maria Matos por exemplo ou a própria ZDB, menos vezes mas também, havia uma falha num evento em forma de festival. Já tinha havido uns anos antes, mas que entretanto deixou de se realizar. Isso fez com que viesse a Braga muita gente com vontade de ter um festival desta natureza. Causou um grande impacto em Braga, não só nos habitantes locais, mas também em pessoas de outras cidades nacionais e fora do país. E como foi um festival com um cariz internacional muito forte, aliás poderia estar em qualquer parte do mundo, deixou uma marca de qualidade muito grande e até um certo orgulho de quem vive cá. Isso levou a Câmara Municipal a envolver-se, os agentes culturais, os seus habitantes que abraçaram o Semibreve como algo de importante para Braga. Fez com que o festival assumisse outra importância ao longo dos anos. Mais, Braga está a preparar uma candidatura à UNESCO no âmbito da Cidades Criativas na área dos Media Arte, e apesar de haver bastantes eixos nos quais a candidatura se apoia, o Semibreve é sem dúvida um dos mais fortes, e se não houvesse Semibreve, muito provavelmente não estaríamos a pensar nessa candidatura. Na verdade, e apesar disto nunca ser uma coisa tangível sente-se esta influência, este orgulho no que é o Semibreve. Há uma influência do Semibreve a vários níveis na cidade.

Centrando-nos um pouco mais no Semibreve e nas suas origens, já tiveste a oportunidade de referir que o mesmo veio colmatar algumas das lacunas existentes no âmbito dos festivais da música electrónica no nosso país. Mas que outras ideias estiveram subjacentes à sua criação?

Na verdade foram três critérios. O primeiro foi o que já referi. Sentimos que havia uma lacuna a colmatar, apesar de haver festivais que trabalhavam de uma forma muito efectiva, mas não necessariamente nesta área, por exemplo o OUT.FEST ou o Amplifest que por vezes toca nesta área. Mesmo antes havia alguns festivais a fazer isto bem, como por exemplo o Festival M, e mesmo em Braga durante anos houve um festival parecido, nesta área, mas que por uma razão ou por outra deixaram de se realizar. A segunda razão prende-se com o facto de Braga ser uma espécie de melting pot de tudo o que é indústria tecnológica e investigação associada, daí sentirmos que poderia haver um link para outras áreas e que o Semibreve poderia servir de polo aglutinador. Em terceiro lugar, porque nós antes de nos tonarmos organizadores éramos fãs deste tipo de música. Para nós foi ouro sobre azul, porque tínhamos o sonho de fazer uma coisa destas, com a música de que gostávamos e uma oportunidade única para o fazermos. Como se diz por aqui, juntou-se a fome à vontade de comer.

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Theatro Circo

Como tens visto a evolução do Semibreve?

O Semibreve tem crescido, mas sem nunca ter tido passos de gigante de uma edição para a outra. É uma coisa muito progressiva, muito sustentada. Também é nosso objectivo que o Festival não cresça de mais, se não corre o risco de perder o interesse que tem suscitado até agora. Ele é interessante porque tem uma escala pequena, e é uma experiência que eu diria quase familiar, uma experiência muito intimista. Sentimos que desde que o gnration entrou na equação, nesta nova variante de programação houve um salto do ponto de vista do interesse no público sobretudo, porque a nível de imprensa nacional e internacional esse interesse tem-se mantido. É difícil identificar quais os factores que levaram o Festival a crescer de ano para ano. Claro que para nós organizadores é fantástico ver esta procura toda e saber que dois meses antes, sem termos a programação completamente fechada, os passes esgotam. É um sinal de confiança. Melhor não poderia ser.

Mais do que te pedir meia dúzia de sugestões, tarefa ingrata face à qualidade da programação, gostaríamos de saber quais os critérios que estiveram subjacente às escolhas dos nomes para a presente edição.

Eu diria que há três linhas de orientação. Uma delas tem a ver com o facto de queremos que as propostas que apresentamos sejam estreias em Portugal ou artistas que são relevantes, mas que não são conhecidos do público, ou seja apostas novas, e nunca repetir artistas que tenham passado por cá. Nunca repetimos um artista em seis edições. Obviamente que isto pode começar a tornar-se um problema porque a dada altura nós teremos que repetir, mas até agora nunca o fizemos. O outro é tentar misturar artistas com uma carreira mais longa com outros cuja carreira está a começar. Este ano em particular há uma muito maior preponderância pelos artistas que estão em início de carreira que por aqueles com carreira já firmadas, ao contrário de outras edições. Este ano só me lembro do Tyondai Braxton, da Laurel Halo e do Moritz von Oswald, são os únicos com uma carreira mais firmada, de resto são tudo apostas muito recentes e de artistas que estão a aparecer. A terceira razão, que penso tê-la misturado um pouco na primeira, é saber que relevância tem determinado artista neste momento específico, porque que é que o devemos ouvir agora, mesmo que provavelmente daqui a uns anos não faça sentido ouvi-lo. No nosso caso tivemos a oportunidade de ter artistas que na altura não eram muito conhecidos e que acabaram por explodir ou que acabaram a colaborar com grandes artistas, lembro-me por exemplo do Jon Hopkins que esteve aqui em 2011, que ninguém conhecia e que hoje é impensável trazer ao Semibreve pelo cachet incomportável. Mas quem diz isso, fala também do The Haxan Cloak, que passado um ano de sair do Semibreve estava a produzir a Bjork. É sempre complicado explicar estas coisas da escolha editorial, porque na verdade parte muito da nossa sensibilidade e da nossa percepção sobre aquilo que faz ou não sentido, isto também porque não usamos nenhuma temática para cada edição ao contrário de outros festivais, talvez num futuro o possamos fazer até para balizar um bocado o nosso trabalho, mas de momento pensamos que há coisas mais urgentes a fazer, que são mostrar o que é novo, o que é fresco, promover estreias em Portugal e que o todo faça sentido. Não é só uma questão de juntar cromos, os cromos têm que fazer sentido na sua globalidade.

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Tyondai Braxton

Os festivais como o Semibreve apresentam propostas muito inovadoras e de certa maneira arrojadas no que respeita à utilização das novas tecnologias visuais. Há algum projecto que queiras destacar nesta área?

Nós tentamos que esse elemento não condicione a programação, no entanto damos muito ênfase à componente visual nos concertos. Tentamos potenciar a utilização desses meios sobretudo no Theatro Circo, que tem todas as condições para isso e onde faz todo o sentido. Mas, sem nunca pôr em causa a qualidade da programação só porque é preciso ter um espectáculo audiovisual forte. Sob esse ponto de vista já tivemos espectáculos incríveis como Alva Noto, com um espectáculo muito forte do ponto de vista visual, Ryoichi Kurokawa, o Ryoji Ikeda, há muitos que poderia referir. Esta ano, só um concerto é que não apresenta uma componente audiovisual, que é o de Rashad Becker + Moritz von Oswald. Os que este ano poderão ser mais marcantes do ponto de vista visual serão o do Paul Jebanasam & Tarik Barri e eventualmente a Kara-Lis Coverdale + MFO, apesar de ser de certa maneira uma incógnita, uma vez que se trata de uma parceria recente, que só foi apresentada uma vez no festival Unsound, mas tenho expectativas altas também.

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Tarik Barri

Há uma preocupação em atrair um público muito jovem, pelo menos no trabalho desenvolvido no âmbito do gnration. Isso também acontece no Semibreve?

Um evento como o Semibreve é muito curto, muito pontual, pelo que as actividades a desenvolver nunca assumem as características das desenvolvidas no gnration, mas desde o ano passado que criamos as Visitas de Escola, visitas não só às instalações, mas aos trabalhos que acaba por envolver a comunidade de uma forma efectiva e funcionou muito bem. Tanto assim é que este ano tivemos que organizar as mesmas com muito mais antecedência. No fundo trata-se de uma tentativa de envolver a comunidade escolar com este tipo de trabalhos.

Será somente uma coincidência no tempo, Semibreve, OUT.FEST, Jardins Efémeros, ou há uma maior apetência por parte do público e promotores para este tipo de festivais?

Uma boa pergunta sem dúvida. Mas todos os festivais que mencionaste são diferentes entre eles, apesar de se tocarem. Poderei estar enganado, mas penso que não faz muito sentido replicar fórmulas existentes quando falamos de festivais de nicho, quando falamos de festivais generalistas, de massas é claro que a lógica é replicar – funciona, vende. Neste caso, não me parece tão fácil ou tão provável que isso aconteça. Por exemplo, não estou a ver um Semibreve noutro local. Poderia ser um bom sinal, na medida em que as pessoas começaram a ver que as coisas funcionavam tão bem que poderia ser replicável, mas sendo Portugal um país tão pequeno não me parece que isso venha acontecer num curto período de tempo.

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Capela Imaculada do Seminário Menor

* Este texto não é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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