FOTOGRAFIA

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Martin Parr nasceu em 1952 no Surrey, em Inglaterra. O interesse pela fotografia começou cedo, influenciado pelo avô, um fotógrafo amador que lhe ofereceu a primeira máquina. Nos anos 70, ainda enquanto estudante no Manchester Polytechnic, Parr começou a explorar o terreno da fotografia documental. Os primeiros trabalhos que fez depois de terminar o curso continuaram nesse sentido, com o registo das comunidades rurais do Yorkshire e do norte da Irlanda.

Os objectos de estudo mudaram ao longo dos anos, mas o universo britânico manteve-se como principal fonte de inspiração e ponto de partida para o fotógrafo. Os seus temas favoritos – o entretenimento, o turismo, a comida – convergem para o mesmo fim: explorar as idiossincrasias da sociedade ocidental, expondo as suas bizarrias, o lado menos bonito, os detalhes inusitados. Como a mancha no vestido (rasca) de uma inglesa de classe média, com uma barriga proeminente, fotografada em Ascott.

No livro Parr by Parr, o fotógrafo explica que “aquilo que estou constantemente a explorar é a diferença entre a mitologia de um lugar e a sua realidade”. Dentro da mesma linha de uma das suas maiores influências, o fotógrafo americano Garry Winogrand, esta busca não é centrada na narrativa, mas sim no enquadramento. O fotógrafo não é um contador de histórias, é um antropólogo. Não procura dar significado a um instante, pretende sim captar um instante que possa ter significado. Sai-se para a rua com a câmara e um olhar isento de objetivos. Com sorte, chega-se a casa com qualquer coisa que valha a pena mostrar. Tal como diz o próprio Parr, “quando se consegue, sabe-se, mas não se sabe como o conseguir à partida”. É um processo de observação contínua, de tentativa e erro, de muitas fotos deitadas para o lixo.

Se o início da carreira é marcado pelo preto-e-branco, a década de 80 vê chegar a cor. Desde aí, o trabalho de Martin Parr é reconhecido pelas paletas saturadas e pelas superfícies mate, quase plastificadas, obtidas num jogo entre o tipo de filme escolhido (antes de passar ao formato digital) e o uso de um anel de flash durante o dia. Para além da justificação técnica – o uso do flash uniformiza a imagem, destaca os objetos e permite fotografar de forma rápida, sem preocupações com luz e sombra – há também a construção de uma estética que é tão irónica como inteligente. Parr criou um look fast-food para fotos que pretendem cristalizar a sociedade de plástico.

Este lado aparentemente superficial do trabalho de Martin Parr pode ser enganador no que diz respeito à sua importância. Se calhar, mais do que todas as outras, as fotografias de comida sofrem deste mal. No entanto, são tão relevantes para o contexto geral da obra quanto as imagens dos trabalhadores “blue collar” nas praias de Brighton.

Os alimentos que consumimos hoje em dia são bastante coloridos, o que os torna atrativos, independentemente da sua qualidade. A cor é uma espécie de patine que uniformiza o aspeto da comida, seja ela maravilhosa ou nojenta. No fundo, é como se fosse um filtro do Instagram, aplicação que é constantemente inundada com fotos de almoços, jantares e brunches. O que comemos tornou-se um sinal exterior da vida próspera que é suposto estarmos a viver no mundo ocidental. Mas, como todos sabemos, a realidade (da comida e da nossa vida) pode ser drasticamente diferente do que é apresentado nas redes sociais. “Quando vais ao supermercado, a comida dentro das embalagens nunca tem o mesmo aspecto da foto que está cá fora, pois não? É esta mentira básica que nos é vendida todos os dias”, diz numa pequena entrevista feita a propósito da exposição Food(& other series) na galeria Kamel Mennour (Paris, 2014/2015).

Martin Parr dedica-se a fotografar comida um pouco por todo o mundo desde os anos 90. Em 1995, lançou o livro British Food, dedicado à gastronomia do seu país natal, famosa pela falta de apelo ao palato e aos olhos. Fotografa a comida na mesa, no supermercado, nos mercados, dentro e fora das embalagens, bonita como um prato de Gordon Ramsay ou repelente como o vómito da miúda do Exorcista. Tem uma apetência especial pelos registos de junk food, por ser a comida à qual a maioria das pessoas tem acesso facilitado. Antes da difusão do gourmet, era a face mais significativa do que Parr tenta explorar com este trabalho: a culpa por fazer parte do mecanismo que move esta sociedade descartável e cada vez mais egoísta. “Sentamo-nos no Ocidente e achamos que a fotografia com consciência tem que ser sobre a Sida em África ou a guerra no Iraque. E não é bem assim. O problema principal é a crescente riqueza do mundo ocidental. A minha ganância, a sua, a dos espetadores deste programa”, diz Martin Parr num documentário para o canal holandês VPRO.

Pelo caminho, nasceu um interesse paralelo pelo vídeo, que já deu origem a alguns documentários. Os temas derivam sempre do seu trabalho como fotógrafo. Em Think of England, por exemplo, Parr andou pelas ruas a perguntar o que é ser inglês. Nestas conversas informais, filma como fotografa: sempre o mais perto possível das pessoas. É o fotógrafo das lentes macros, dos close ups, dos detalhes. O fotógrafo que vai sempre reduzindo o enquadramento para chegar à essência das coisas.

Em 2016 relizaram-se duas exposições de Martin Parr: uma em Wakefield, onde mostrou o trabalho que fez na comunidade local, e outra no Guildhall, onde esteve patente a obra acumulada nos últimos dois anos sobre a cidade de Londres. Em Lisboa esteve patente na Galeria Barbados a primeira exposição de Parr no nosso país – A Place in the sun é o nome da mostra que terminou a 11 de Novembro de 2015.

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