MÚSICA

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Fotografias: Festival Forte.

Há um fascínio incontido quando se fala de um castelo. Deixando os manuais de história de parte, pejados de conquistas e reconquistas, e substituindo-os pelos livros coloridos e aos quadradinhos o universo torna-se fantasioso, de corações florescentes, de seres imaginários e do inevitável triunfo do bem sobre o mal. Em Montemor-o-Velho há um que, na última semana de agosto, se distingue. Um trabalho de anos por parte da Soniculture que transforma cada pedra da muralha noutro pedaço de história, pelo menos no que na música eletrónica contemporânea diz respeito. Guiados pelo encantamento dos míticos Cabaret Voltaire e ainda tendo bem presente o último concerto de Ben Frost no Maria Matos convidámos a Irina Sales Grade (Production Manager do Festival Forte) para uma conversa. Descobrimos outros universos sem nunca nos termos levantado da cadeira.

Uma das grandes novidades do cartaz desta edição do Festival Forte e também a mais inesperada é a presença dos Cabaret Voltaire.

A linha de programação do festival, na grande maioria das escolhas, é da responsabilidade do seu diretor o Ilídio Chaves. O facto dos Cabaret Voltaire terem sido criados em 1973, e um pouco à semelhança do que aconteceu o ano passado com os Front 242, decorre da nossa intenção de mostrar ao público que estas novas tendências da música eletrónica contemporânea têm uma origem, há um caminho que é percorrido. Além disso, os Cabaret Voltaire voltaram aos palcos em 2004, se não me engano, no Berlin Atonal. Desta vez vão apresentar um novo espetáculo e para nós faz todo o sentido, porque inserido num conceito de trazer um bocado das origens e de perceber como chegámos aqui. E no que respeita à história da banda acompanhar a sua transformação.

A primeira noite do Forte é dedicada à Mute Records, todos estes artistas como o Ben Frost, o Apparat o próprio Daniel Miller, fundador da Mute e que colaborou com os Cabaret Voltaire, foi-se tudo conjugando no sentido de concretizar esta ideia que tínhamos desde o início, que correu muito bem o ano passado e que queríamos recuperar para esta edição, a de resgatar um certo caminho na música eletrónica. Além disso, conseguiu-se agregar os artistas da Mute, que não sendo um showcase da editora, acaba por ser um retrato bastante fiel do trabalho que têm vindo a desenvolver.

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Para lá dos Cabaret Voltaire destacaríamos o nome de Ben Frost. É a tentativa do Forte em afirmar esta componente autoral?

Sim. Os projetos são escolhidos sobretudo pela sua dimensão audiovisual, no caso do Ben Frost, pelo carácter autoral da proposta, na medida em que apresenta uma linguagem exclusiva, uma linguagem muito própria, e que procuramos não só nele, mas em todos os artistas que estão no cartaz. A heterogeneidade, sem dúvida, mas também a capacidade de terem uma identidade que é pensada para cada momento do Festival. No caso de Ben Frost trata-se de um espetáculo de abertura, sendo que o Robert Henke o ano passado abriu o Festival num espetáculo inacreditável com quatro lasers que cobriu todas as muralhas do castelo, aproveitadas até à última pedra. A partir daqui gerou-se um ambiente de arranque que deu o tom ao Festival. Este ano, também nesta lógica de marcar a abertura e dar o tom para os restantes dias, a escolha recaiu em Ben Frost. Quando as luzes se acendem naquele castelo há uma mudança total, o ambiente transfigura-se e nós queremos realçar este aspeto através do nome que escolhemos para o primeiro dia.

Que outros nomes destacarias, mesmo assumindo escolhas mais pessoais?

Tenho muita curiosidade em ver Trade (Blawan & Surgeon), fazem muito poucas atuações ao vivo, sendo um espetáculo completamente analógico e improvisado. É muito difícil conciliar as agendas dos dois, como tal pode ser um dos pontos altos a não perder. Não posso deixar de falar outra vez do Daniel Miller, por ser o fundador da Mute e sobretudo por serem três horas de uma coisa que ninguém sabe muito bem o que pode esperar, uma vez que possui uma cultura musical gigantesca. Apparat, por ser da Mute, e será seguramente um Dj set incrível. Destacaria a dupla de Sebastian Mullaert & Ulf Eriksson que vem acrescentar uns tons mais psicadélicos, com sonoridades mais ambientais e que nos irão conduzir a uma viagem um pouco diferente do resto do alinhamento. RRose, que esteve na edição passada, em que destaco a transformação inacreditável e respetivas sonoridades muito marcadas. A maior parte dos espetáculos serão ao vivo, sendo que o formato Dj set é mais para o fecho de cada dia.

Gostava de destacar a última noite também. No Sábado o castelo abre às 22 horas e vamos continuar non stop até às 21 horas de Domingo, 23 horas seguidas. Ou seja, são 4 dias de festival e não 3 – 25, 26, 27 e 28 de Agosto.

Outra marca do Forte é haver uma relação muito próxima com alguns DJ’s nomeadamente o Ben Klock.

O Ben Klock já trabalha com a Soniculture desde praticamente 2007, se não me engano. É um artista que define as novas sonoridades germânicas, além de que é uma figura proeminente da Ostgut e do Berghain e é uma inspiração para a nova geração de DJ’s como por exemplo o Kobosil que iniciou a carreira com 19 anos e que temos o prazer de acolher.

Não sabemos o que esperar de uma atuação do Ben Klock, a liberdade criativa é máxima e da responsabilidade dele, mas é sempre nossa intenção dar um formato grande a cada Dj. Três horas tanto para ele, como para o Rødhåd ou o Marcel Dettmann terem espaço para poderem voar, fazerem uma viagem nova, e com isso experimentar novas produções. Em três horas esse espaço para experimentação é muito maior.

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Outra das preocupações, presumo, será juntar artistas nacionais com estrangeiros. Quais os destaques a nível nacional?

Vamos ter sete artistas nacionais. Temos o Manu e o Shcuro, que tocam na sexta. No sábado apresentar-se-ão os restantes – Apart, que já esteve o ano passado no after do Forte, mas que este ano estará no palco principal e que terá edições brevemente, o David Rodrigues é um grande amigo da Soniculture, e já toca no Forte desde o primeiro ano, o Rui Vargas, um assíduo do festival, amigo e apoiante desde a primeira hora, e o Vil, que tem vindo a crescer imenso e que não só já tem um EP, como está para breve mais um trabalho dele, e, por fim, o Amolador, muito ligado ao Gare Club (Porto). Sete nomes num contingente de aproximadamente 27, não só é um bom número, como representam uma excelente mistura entre os nomes mais novos, como os mais conceituados.

Falar do Forte é referir não só Montemor-o-Velho como o próprio castelo. Como surge esta ligação?

A motivação principal para o Ilídio foi a Tecnolândia em Montemor, com o Plasticman a tocar à chuva e as estórias dos guarda-chuvas. Uma das principais motivações foi esta grande rave. A boa disposição e as boas energias não se esgotaram nesse ano. Por outro lado, há uma geração muito ligada a Coimbra, não só estudaram lá, como acabaram por ficar. Há a beleza do espaço e o facto do castelo ser património nacional, que por si só se torna um desafio. Fazer um festival sem poder pendurar nada nas muralhas, com todas as condicionantes associadas, para além disso apresenta uma dimensão que permite tornar viável um festival deste género, não só pela facilidade de acessos, mas também por haver uma zona de pista, um jardim e uma igreja no meio. A própria vila tem todas as infraestruturas, temos o apoio do Turismo do Centro, que permitiu que estivessem reunidas todas as condições para a realização de um festival com toda a serenidade, não necessariamente musical, mas que permite ao público desfrutar dos diferentes momentos com calma. Acresce ainda a escala da própria vila, ideal para um festival pequeno, capacidade máxima para cinco mil pessoas por dia; e ainda uma programação que pretendemos cuidada. O resultado é um todo coerente.

Nota-se um certo sentido cenográfico no Forte. Como se trabalha este aspeto?

Da mesma forma que temos o cuidado em escolher os artistas, temos a preocupação em escolher os serviços que oferecemos ao público. A exigência na qualidade é transversal, tentando sempre oferecer o máximo de conforto e qualidade. Há também o cuidado em não nos centrarmos exclusivamente no castelo, por exemplo o intuito de facilitar o estacionamento, a entrada e circulação das pessoas se fazer com o mínimo de incómodo e que as mesmas possam usufruir, também, do comércio local, promovendo a dinamização do mesmo, e o contacto entre quem visita e é visitado, dando origem à própria transformação da vila.

Todo o espetáculo de vídeo e luzes que é estudado para o espaço e que todos os anos temos vindo a inovar. Tudo somado transforma o Forte no que eu chamo de pérola. É uma perolazinha preciosa o que fomos capazes de construir ali. Há esta conjugação entre as paredes do castelo, a música e o ambiente que as pessoas criam que dificilmente é replicável noutro espaço. O festival e o monumento são indissociáveis, transformam-se num só corpo. É esta transformação que o Forte tem conseguido no castelo e por isso também a CM de Montemor-o-Velho já lançou uma nova atividade cultural que se chama o Castelo Sempre e que me leva a supor que estamos todos a fazer um bom trabalho a este nível. Trabalhar o património como um órgão vivo. Nós tivemos que nos adaptar às condições que o castelo nos dá, técnica e fisicamente, como o castelo de certa forma se adaptou a nós, como tal não faz sentido pensar o festival noutro lugar. Esta energia que captámos do espaço leva-nos a um único caminho – continuar.

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Há também uma vontade de internacionalização do Forte, tendo ido a Berlim há uns meses. Como correu?

Foi um convite/ideia que cresceu em conjunto com a nossa assessoria de imprensa internacional, que também é uma agência, que fala a mesma linguagem que nós, e que nos tem vindo a unir ao longo dos anos. Juntamente com eles e com a Be-At Tv, passámos da ideia inicial de um Live Streaming e cresceu para um – Bora lá fazer um evento em Berlim. Num clube com espaço exterior óptimo, durante o final da tarde. O Expander, que podemos dizer é o nosso mentor, foi representar não só a Soniculture como o Forte. A ele juntaram-se o Ancient Methods, um dos nomes grandes da edição deste ano, e o Subjected, que atuou no ano passado.

Este evento acabou por reforçar a nossa intenção de conferir um cariz internacional ainda mais forte ao festival, sendo que a adesão de franceses, alemães, britânicos e espanhóis ronda os 75%. Este tipo de ações podem não ter repercussões no momento imediato, mas nos anos seguintes geram frutos.

Estão pensados outros eventos do género?

Sendo o Forte organizado pela Soniculture e tendo esta uma mensalidade no Lux e que faz programação no Gare Club, com 14 anos e eventos por todo o país, para além de agenciarmos um conjunto de artistas, não faz muito sentido replicar, por exemplo, o modelo de warm-ups.

Outra das características são as edições do Forte.

Todos os anos as fazemos. A Soniculture não só tem edição própria, como pedimos aos artistas que participam no festival que façam remisturas, estas são sempre editadas em vinil e no formato EP. O ano passado chamava-se o Volta Forte, que era a “máxima” de 2015. Este ano ainda não tem nome, mas seguindo a lógica das edições anteriores vamos ter um nome internacional a fazer uma das remisturas e o Apart, o Vil e o Shcuro a participar no EP. Este trabalho tem a distribuição da Kompakt.

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Quais as recordações que os artistas guardam do Forte?

Inacreditáveis. Por exemplo a Ellen Allien foi perentória no apoio ao Forte. Recebemos também bastantes emails de agradecimento não só pelo apoio, mas também pela forma como os acolhemos e pelas condições técnicas que oferecemos. Outro exemplo foram os Front242 – falei com o técnico de som deles e confidenciou-me que foi a primeira vez que tinham tido tudo o que pediram. Outro aspeto que nos deixa muito satisfeitos é o facto de sermos contactados por diversas agências europeias para terem os seus artistas no Forte. No local nota-se que a energia do castelo apodera-se dos artistas e como entendem o espírito do festival e gostam do que está ali a acontecer há muita vontade dos próprios em divulgar e partilhar essas experiências ao máximo.

E as tuas?

Na primeira edição caí um pouco de para-quedas, foi muita coisa ao mesmo tempo. Lembro-me que o momento em que consegui relaxar foi quando o Michael Mayer encerrou o Forte às 9h da manhã, quando o limitador cortou o som, mas ele virou a munição para o público e ainda teve tempo para tocar o Love is in the air. A memória que mais me fica dessa edição é ver todas as manhãs os sorrisos das pessoas a sair do castelo, a boa disposição, a boa energia. O ano passado foi uma experiência muito diferente porque estava na coordenação geral do festival e para mim o momento mais forte foi quando dei o Ok para abrirem as portas – as luzes acendem-se, o castelo está vazio, está cada um no seu sítio, está tudo pronto, e de repente, para aí 10 segundos, olho e — nós fizemos isto e está tudo incrível. Quando começas a ver as pessoas a chegar, há um nervoso miudinho que corre e aí sabes que vais ter três dias, quatro dias de aceleração total que mal dá para ver os concertos. Aquele frenesim antes de abrir a porta, aqueles segundos em que está uma grua no meio da pista e tens que a tirar de qualquer maneira e ela de repente desaparece. Há uma magia no Forte.

Como prevês que sejam os próximos anos do Forte?

Vai depender muito das pessoas, pois não fazemos nada sozinhos. Há aqui todo um trabalho de saber ouvir, entender o que esperam de nós e conseguirmo-nos adaptar, isto por um lado. Por outro, não nos limitamos a responder ao que o público quer. Tencionamos trazer novidades e surpreender. Penso também que é um festival que irá ter mais procura antecipadamente, o que possibilita que trabalhemos noutras franjas da música eletrónica.

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