MÚSICA

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Porque a música nos ferve nas veias

O que se passou ontem no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, foi muito para além de qualquer edição do Boiler Room, não só a nível musical mas sobretudo no espectro social que a música tem.

Sabemos que através da música e do clubbing muita coisa se altera no que respeita a valores sociais e comportamentais. Sabemos que tem este efeito agregador, e que de uma forma muito orgânica, derruba barreiras e dilui fronteiras, as físicas e as de pensamento também. Sabemos que a música apesar de ser a linguagem de um sítio, é uma língua global. É o mundo de cada um, a alargar o nosso mundo.

E foi isso que aconteceu desta última edição do Boiler Room, patrocinada pelo whisky escocês Ballantines, sob o mote “Stay True”. Vimos músicos fiéis às suas raízes e origens, a tocar para uma plateia largamente diversificada. “Stay True” transporta-nos para a ideia de lealdade em relação ao que fazemos e todos os DJ’s que comandaram ontem a pista do Mercado de Sta Clara, tomam isso em conta como forma de viver a vida e a música.

Falamos de músicos angolanos, cabo verdianos, sul africanos, peruanos, portugueses com uma paixão em comum – o kuduro.

E qual é a magia do kuduro? “É por ser a música mais pura” diz Lilocox, um dos músicos do coletivo Príncipe Discos que nos pôs a saltar num b2b com Maboku. Desde as batidas secas de kuduro, passando pelo zoukbeat, um piscar de olhos ao drum n bass, o calor dos “sonidos amazónicos” da cumbia, toda esta fusão fez subir a temperatura neste Boiler Room.

Marky, Nervoso, Firmeza, Batida representam a música que chegou dos subúrbios à capital e que a pouco e pouco vai ganhando expressão em grandes clubs e no público mais jovem.

Cabe-nos agradecer a festas como o Boiler Room por nos ajudarem a dar pequenos grandes passos em direção à democratização da música, dos espaços, dos eventos e sobretudo por promover a partilha de experiências, conhecimentos e sonoridades que vêm de fora.

O Boiler Room fez-nos viajar um bocadinho até África, onde a música se ouve com o corpo inteiro, e os Buraka Som Sistema foram os pioneiros neste pulsar de batidas. Sim, o nosso coração bateu depressa a ouvir o Black Diamond ou o Komba. Ontem, voltou a bater numa das últimas atuações ao vivo da banda da Amadora.

10 anos depois, ainda parece que foi ontem.

Yah!, crescemos com eles mas está na altura de dizer adeus e a Hangover vai ser complicada para todos.

Quisemos aproveitar o calor do Boiler Room para saber um pouco mais de tudo o que nos ensinaram e o que ainda estará para vir.

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Minutos antes do concerto de Buraka Som Sistema,  falámos com Kalaf Ângelo:

Nós aprendemos convosco a "abanar a anca" sem pudor nenhum e, de certa forma, a conhecer melhor a música. E o público, o que é que vos ensinou a vocês?

Obviamente que sem o apoio do público não teríamos chegado onde chegámos. Para nós era importante fazer música que refletisse de forma muito clara aquilo que a geração pós-75 vivia. Quando começámos, vivia-se aquela ideia de que tudo o que era bom era importado, vinha de fora. Havia poucos projetos locais que conseguissem conectar as pessoas mais jovens e nós conseguimos fazer isso. Conseguimos fazer uma música que chegasse a essas gerações e que não tivesse barreiras, que não fosse rotulada como música africana ou música portuguesa. É só música, é a nossa música, independentemente se há um africano ao microfone, um português na produção. É a música que nós ouvíamos, a música que a cidade consumia, e era uma música que precisava de estar presente nas nossas vidas de forma equilibrada.

Se a música tem esse poder de derrubar fronteiras, em que medida é que Lisboa é um ponto estratégico nesse sentido?

Eu realmente acho que Lisboa tem uma localização geográfica privilegiada. Está exatamente no meio – a seis horas de Nova Iorque, a sete horas de Luanda, a duas horas de Londres, a três horas de Berlim… É uma cidade muito interessante nesse aspeto. Para além disso, o facto de ser um país pequeno, traz também vantagens por ser um país acostumado a olhar para fora, a ver o mundo. Pelo menos foi assim que eu cresci: a ver as coisas, a olhar o mundo e ir além das fronteiras. Isso é uma característica dos lugares pequenos, que nos obrigam a abrir para o mundo.

O fim dos Buraka é certamente um momento de viragem nas vossas vidas. Mas o que eu quero saber é quando é que vocês sentiram que tinha acontecido um momento de viragem enquanto Buraka. Ou seja, quando é que sentiram que o que faziam deixou de estar só confinado ao espaço musical e começou a tocar no social?

A edição do Black Diamond foi muito importante porque pela primeira vez, estávamos a ouvir música do universo, cantada em português, a chegar à Pitchfork, à Fader e a todas essas publicações que nunca tinham publicado nada sobre nenhum artista português. Ou seja, obviamente há bastante música portuguesa no mundo, mas quanto à música eletrónica não havia muita coisa e para nós, este disco abriu-nos essa possibilidade e depois disso, começámos a ver resultados como os Batida, a Príncipe Discos com o Marfox, Niggafox. Já não é novidade quando o nome Portugal soa, as pessoas têm uma referência sobre este tipo de música. Antes de nós, nunca nenhuma banda de música eletrónica tinha tocado no Coachella. Agora sempre que vemos outro projeto português, angolano, cabo-verdiano a ir longe e além fronteiras, isso enche-nos de orgulho. É quase aquela sensação de missão cumprida. Embora este caminho ainda não esteja terminado… ainda há muito por fazer neste sentido.

O que é que sentiram ao ler os comentários, já saudosos, do público?

Eu entendo, obviamente. Ninguém quer terminar nada. Tudo tem um fim e as pessoas, geralmente, recebem com alguma deceção este tipo de notícias. Mas eu acho que há tanta coisa boa a ser cozinhada e a situação para a qual nós caminhamos vai no sentido de colocar mais música em cima dos palcos, embora estejamos fora deles. Essa nossa vontade de curar festivais, essa nossa vontade de explorar outras cenas, outros músicos, outras culturas, que ainda não são visíveis nem tiveram a atenção dos mass media. Este tipo de coisas só acontece quando há tempo para o fazer. No meu caso, para escrever, preciso de silêncio e de retiro. E acredito que aquilo que vamos oferecer às pessoas “assim que as luzes se apagarem”, será muito mais interessante e pode abrir espaço para voltar a fazer outros discos, com outro ânimo, outra vontade. Por isso tenho a certeza que teremos muito para dar de volta.

4ª vez no Boiler Room. Qual é a diferença entre tocar aqui e nos outros palcos?

Nós, sem dúvida, temos uma relação bastante próxima com o Boiler Room. Eu cheguei a ir a Dalston, em Londres a uma das primeiras edições do BR, numa garagem minúscula. Era entusiasmante, era bonito, e importante. Havia músicos a tocar para músicos, connoisseurs a comunicar com connoisseurs. Vias por exemplo Four Tet ou Jamie XX a tocarem coisas que geralmente não tocam nos locais onde são contratados para ir tocar. Esta liberdade, esta frescura que o Boiler Room trouxe à musica de dança e à música eletrónica no geral foi super importante. Daí chegar e ver isto neste ponto, só prova que uma boa ideia com o empenho e a energia necessárias, chega longe. E mais importante do que isso é a prova de que isto veio democratizar este processo. Hoje o Boiler Room é um adjetivo, tipo “vamos fazer uma coisa à la Boiler Room”, já está no léxico da indústria da música.

Dia 1 de Julho vamos despedir-nos, vão dar o último concerto, no Globaile. Quais são os planos para essa grande noite ? E depois disso, quais são os vossos planos individuais?

Sim, dia 1 de Julho é o nosso último concerto e, para fechar em grande, tivemos a ideia de curar o festival e vamos convidar artistas interessantes da cena do dance music global. Queremos fazer de Lisboa a capital da música eletrónica de cariz global do mundo. E queremos tentar fazer a maior festa possível!

Quanto aos planos individuais a longo prazo: fazer mais música. Eu estou a escrever livros, o Branko está a produzir um programa de televisão… enfim, vamos continuar a criar. Nada termina, tudo se transforma.

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