FOTOGRAFIA

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Ilustração: António Néu.

Qualquer um quer a vida que o Pedro tem.

É uma cara bonita, tem corpo invejável, veste-se bem.

Frequenta os restaurantes do momento, cozinha gourmet em casa e dança nos clubs mais cool da cidade.

Viaja que se farta, conhece lugares incríveis e apanha sol em praias paradisíacas. Não se sabe se é modelo, RP ou blogger. Mas parece ter uma profissão moderna, daquelas em que se passeia muito e se conhecem pessoas novas todos os dias.

Canta bem, toca guitarra, dá uns toques no piano e fala várias línguas fluentemente.

Tem amigos que não o largam, amigos para a vida, uma família de sonho e uma namorada fiel.

Faz rir as pessoas à sua volta, tem graça e remata sempre com o seu humor muito especial.

Tem uma agenda social que não o deixa parar para descansar. Quando descansa, é com os pés à lareira de uma casa rústica ou numa piscina tão transparente como a vida que partilha nas redes sociais.

Parece feliz. Toda a gente o admira e elogia pelos seus inúmeros talentos. Os números falam por si: likes, comentários e partilhas enchem-lhe o Facebook e o ego.

Mas na verdade, duvido que alguém queira ter uma vida como a do Pedro.

Vive sozinho, na escuridão da sua sombra. Sobrevive na falsa luz dos flashes, aprisionado no cardinal das hashtags, mascara o preto e branco dos seus dias com filtros lomográficos. O Photoshop corrige-lhe os erros que considera fatais e desleixa-se com os que realmente importam.

Os amigos vão escasseando, a sua auto-estima está em crise e em vez de um lar, tem um quarto onde se isola de quem se isola também.

Está desempregado e o seu físico, aparentemente atlético, não é mais que magreza, filha da decadência em que se afunda. Grava playbacks das canções que embalam a sua amargura. Viaja na web e rouba fotografias de lugares que não são seus.

Rodeia-se de conhecidos encantados com o seu sorriso efémero, que desliza nos ecrãs. Esquecem-no rapidamente, como quem apaga a memória daquilo que mora na web longínqua. São encontros tão fugazes como a bateria dos telefones.

Procura em auto-retratos digitais a imagem de si que não encontra na vida real.

Perde-se em lugares barulhentos em busca de alguém que o ame e que lhe ofereça silêncio.

Tecla palavras bonitas que gostaria de ouvir da boca de alguém. Encarna uma vida que não tem. Vive num mundo que não existe, mas que exige a si próprio. Sorri para as câmaras, chora em frente ao espelho.

E é assim que vai existindo aos olhos do mundo, enclausurado entre uma barra azul de 10 polegadas e um obturador frontal.

Pedro é só mais um dos filhos do nosso tempo. Fruto do narcisismo tecnológico, nascido à distância, educado por notificações e lembretes, a implorar que o notem, a gritar que existe.

Não sabe o que é um retrato tirado num estúdio de fotografia, não conhece o cheiro a químicos dos produtos, os fundos espalhafatosos e nunca sentiu a expectativa do resultado da fotografia que servirá a moldura da avó ou o quadradinho do passaporte. Só conhece as selfies, não se conhece a si.

A selfie é mais que o auto-retrato contemporâneo. É uma falsa cura para a busca de identidade, um reconhecimento distorcido que os indivíduos têm de si – quanto mais se olham, menos se reconhecem – uma espécie de masturbação que não satisfaz.

Mesmo rodeados de mil amigos, a selfie prova que estamos cada vez mais isolados uns dos outros, seja pela autonomia que ganhámos em mecanizar uma fotografia, seja pelo descomprometimento que as fotos de grupo têm vindo a adquirir. Toda a gente imortaliza momentos banais com toda a gente, que revistos na posteridade, têm pouco ou nenhum valor. Já não são só uma questão estética a la Van Gogh, muito menos uma representação do estado de espírito ao estilo de Frida Khalo. Quando o corpo humano nos começou a limitar o horizonte pelo tamanho do nosso braço, apareceu o selfiestick para o substituir como extensão do nosso corpo quando este já não se basta.

As selfies fizeram com que se perdesse a seletividade na escolha dos momentos e de certa forma, a genuinidade no seu usufruto. Interrompemo-nos constantemente na tentativa de encaixotar momentos em álbuns virtuais, talvez pela urgência que temos em não esquecer nada. Queremos viver tudo. Queremos guardar tudo. A todo o custo.

São uma vontade desesperada de nos aproximarmos uns dos outros num mundo pequenino que não pára de crescer.

O egoísmo das selfies despreza a noção que a nossa memória são mais que gigabytes, que os nossos amigos são menos que os 1200 seguidores que nos policiam o quotidiano, que valemos mais que os likes que nos fazem e comentários que nos bajulam. Quando mais nos procuramos, mais nos perdemos afundados no nosso reflexo.

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