MÚSICA

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A um DJ pede-se-lhe tudo ou quase desde que não sejam músicas. Bom ouvido, selecção musical irrepreensível, uma postura que entusiasme e uma grande visão, porque não é só de hits que se faz a história, mas de descobrir tendências. 20/20 tal como num piloto de aviões, em que o sentido é apurado para ver mais longe. MAGAZINO 20/20 – vinte anos de histórias, e muitas, 20 horas de música ininterruptas, já esta Sexta-feira, e de festa a condizer. Em torno de uma mesa, lugar predilecto para o desfiar da conversa, vamos conhecer o trajecto singular de Magazino.

O que mudou desde o período que começaste?

A grande diferença começa nas cabines que estão mais bem preparadas. Em relação ao público, há vinte anos, eram mais sedentos da novidade, movimentavam-se mais. Se tocasse fora de Lisboa, por exemplo em Tomar ou em Coimbra, iam muitas pessoas de propósito para lá. Antes não era fácil ouvir música electrónica, hoje ouve-se praticamente em qualquer sítio.

E nessa altura, como fazias a promoção?

Sobretudo através de flyers, a Dance Club, o Blitz também fazia alguma referência aos eventos e posters espalhados por aí. Na altura não havia net, e os telemóveis estavam limitados a uma meia dúzia de empresários, os comuns dos mortais não os tinha. Por exemplo, os contractos para ir tocar eram feitos por fax. Outra particularidade dessa época era as excursões. Lembro-me de ter ido à Figueira da Foz e alugar um autocarro. Outra vez, logo no início, em que fui tocar à Ericeira e ir numa caravana de 15 a 20 carros, todos cheios. Muitas vezes o regresso era o mais difícil. Tudo era novidade, o ectasy era novidade. Também era tudo uma festa, saíamos já animados, quando voltávamos continuávamos animados. Parava só em Setúbal e mesmo assim.

E quando começas a ter a necessidade de ser acompanhado por um roadie, por um manager?

Durante os 2 primeiros anos, em que fui residente, não havia essa necessidade. Depois tive a felicidade de conhecer o Beto Perino, que foi meu manager durante 7 anos. Na altura ele trabalhava na agência X-Club. Entretanto fundou outra agência e queria que a mesma fosse maioritariamente constituída por novos DJs. Ele viu-me numa festa, ficou com o meu contacto e contratou-me.

Neste momento é tudo mais profissional. Tenho uma agência que trata de tudo o que é booking, viagens, hotéis, promoção. Tenho também uma pessoa que me acompanha em todos os gigs. Hoje em dia só tenho de me preocupar em chegar ao sítio, abrir a mala dos discos e tocar. É o ideal. Só estou focado na música e não me tenho de distrair com outros aspectos que são trabalhosos e que te distraem do essencial.

Antigamente para ser bom DJ bastava ser bom tecnicamente. Hoje em dia não é suficiente – tens de ser bom promotor, gerir bem as redes sociais, tentar fazer música, ter muita atitude na cabine, não dá para ser só o tipo que enfia a cabeça na mesa, tem de se ter carisma. Não falo de bater palmas e ter o braço no ar, às vezes basta um olhar, body talk, ter uma excelente rede de contactos, um bom manager porque por muito valor que se tenha, será muito difícil dar o salto.

Como é que se dá o salto de ouvir música para começar a passá-la?

Primeiro, com a tia de um amigo, tinha eu 13 anos e comecei a ir a uma discoteca que era o Seagull, na Arrábida, com a varanda literalmente sobre o mar. Aquilo causava um fascínio sobre mim – o fumo e a música clássica como abertura. Ali começou a gerar-se o bichinho. Mas onde começou mesmo, foi com 15 anos num concurso de Miss Escola. No intervalo das passagens era o momento para os playbacks, eu fiz um das Doce. Nós durante a semana tínhamos de preparar os ensaios dos tais playbacks. Durante estes ensaios apercebia-me do que o DJ fazia na cabine, e aquilo suscitou curiosidade. Tinha um gira-discos do meu tio, o meu pai tinha uma aparelhagem e comprei uma mesa de mistura, com muito custo. A partir daí comecei a misturar.

Como te mantinhas a par das novidades e te abastecias de música?

Em Setúbal havia a Bimotor, como não tinha muita expressão vinha à de Lisboa e a outras lojas – uma que era a Ilegal e a Question of Time, em Campo de Ourique. Lembro-me de chegar às lojas, e a procura ser tanta, que tínhamos de tirar uma senha e ficar na fila à espera, tipo finanças. Madrugava para chegar a tempo de ter uma senha decente, pois se fosses o décimo da fila já não se apanhava quase nada. Não dormia. Eu e mais um amigo, apanhávamos o autocarro, não tinha carta, e depois era esperar para escolher os melhores discos. Nalgumas manhãs já não havia nada de jeito, os melhores tinham ido.

Mesmo hoje em dia, com a loja de discos que nós temos, a Bloop, e em que recebemos encomendas todas as semanas, separamos alguns discos. Já sabemos à partida que há um DJ que vai gostar mais de um disco e que encaixa no perfil dele.

E agora como sacias o teu apetite pela novidade?

Tento ser o mais intemporal possível. Tanto toco discos dos anos 90, 00’s como de hoje, como de 2016. Compro vinil e também recebo muita música de amigos tanto estrangeiros como de cá. Eu trabalho todo o dia com música, seja em casa, no escritório, no estúdio ou no fim-de-semana onde vou tocar; ou seja, a música é all day long.

A quem podes dizer, ao fim de 20 anos, aquele gajo deu-me a mão quando mais precisava?

Sem dúvida o Beto Perino. Passei de um DJ de Setúbal, do Pinhal Novo, de Palmela e arredores para ser um DJ de Lisboa, mas que corria todo o país. Primeiro no Paradise Garage e depois daí foi um passo.

20.20 porquê uma celebração a começar às 10 horas da manhã de Sexta-feira (11.12), no Station Club (Cais do Sodré)?

Para celebrar 20 anos de carreira tínhamos de pensar nalguma coisa em especial. Assim, lembrei-me que especial seria tocar 20 horas. E vai ser especial porque o máximo que toquei foram 10. 20 anos – 20 horas, mas também porque o Director Criativo da Bloop, o Gil Correia, lembrou-se, que 20.20 é a visão perfeita, por exemplo nos pilotos de avião.

O 20.20 vai ter transmissão em streaming desde o início feita pela Red Bull. Assim, pode ser acompanhada durante o dia, não só lá, mas por exemplo em casa. Depois à noite contamos ter muito mais gente. Durante as 20 horas, só em vinil, vou ter uma hora dedicada a música feita por mim, outra dedicada a um dos DJ's que mais me inspirou a nível de produção o Brad Johnson, outra só a músicos portugueses, e as últimas 3, das 03 às 06 da manhã, vai ser o Grand Finale, só com uma câmara ligada. E aí sim vai haver surpresas.

MAGAZINO 20.20

11.12 . STATION CLUB . 10h às 06h

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