MÚSICA

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Fotografias: António Néu.

São mais de 20 furados (túneis) pelos quais atravessamos entre o aeroporto e a Ponta do Sol. Pelo caminho o motorista fala sobre os vários aspectos sociais da ilha. Apenas os mais abastados têm plantações de bananas e as pessoas regra geral não vivem da agricultura mas sim do turismo, cerca de 80%. Ao chegarmos à Estalagem Ponta do Sol o idílico bateu à porta com o despertar de um dia magnífico numa piscina acima do mar. Inquietos os telemóveis não param de fotografar, o difícil é escolher o ângulo. À beira da piscina a surpresa dos livros que substituem os tablets. Uma visão intelectual e promissora de que o papel continua soberano. O sol de Inverno tão comum na Madeira e que antevem o primeiro dia de um pequeno grande festival envolto em sonoridades complexas. Contamos os minutos para os primeiros acordes do Madeira Dig, organizado em conjunto com a APCA (Agência de Promoção da Cultura Atlântica), Estalagem Ponta do Sol e a produtora Digital in Berlin.

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Na Estalagem obras de arte cruzam-se com o design – como a cadeira Charles & Ray Eames – e com as paisagens arrebatadoras que se avistam de qualquer ângulo. No interior um vai vem de personagens interessantes, de músicos a jornalistas, de dj’s a programadores. Entre eles Michael Rosen, o co-produtor do festival que observamos frequentemente a correr de um lado para o outro numa atitude de relações públicas nato. “Toda a aura é oposta ao cenário típico de um festival de Verão” e Michael faz questão de exprimir a sua aversão a festivais. “Este é um conceito totalmente diferente como uma lotação máxima para 200 pessoas”.

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No ar fica a sonoridade alemã, língua predominante destes dias num micro festival que conta com duas actuações por noite na Casa das Mudas seguidas de um after sessions na Estalagem. “É uma óptima oportunidade para ouvir este tipo de música num evento que prima pela organização e pelo ambiente. É óptimo acordar, ver o oceano e à noite ir ouvir boa música para um museu. Música cool que se associa a pessoas cool num ambiente tão intimista” contou Carsten que chega da Alemanha, pela terceira vez, influenciado pelo amigo Thomas Bücker que já actuou neste festival de escolha criteriosa. A música pela música para verdadeiros apreciadores de música.

São muitas as emoções sobre o Madeira Dig e dificilmente se conseguem passar ao “papel”. É toda uma viagem sensorial e experimental a vários níveis, não só à encriptada selecção musical como ao ambiente pontuado por um público culto, cosmopolita, vanguardista e apreciador de experiências que podem por vezes ser extremas. Música conceptual, electrónica erudita degustada no auditório de um espaço dedicado à arte contemporânea. Nele surge uma assimilação, a de apreciar os diversos concertos da mesma forma como se aprecia arte contemporânea através das leituras que se vão fazendo relativamente ao abstracto. Na sala escura ecoam os primeiros sintetizadores que evoluem acompanhados de imagens próximas da vídeo-arte ou em performances fisicamente overwhelming (não consigo encontrar uma tradução próxima do que esta palavra representa). Passamos então a fruir destes concertos como peças de arte sonoras que poderiam perfeitamente estar expostas na sala de um museu. A performance teatral da norte-americana Haley Fohr com o projecto Circuit des Yeux apresentou o seu último álbum In Plain Speech e deixou o público embriagado com a sua aura feminina dotada de uma voz masculina a fazer lembrar Anthony and the Johnsons. “Não me vou esquecer deste concerto nos próximos cinco anos. Foi lindo e comovente”, disse o programador musical Dominique que vem da Alemanha para o Madeira Dig há dois anos consecutivos.

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Chegam na sua maioria do frio norte da Europa para o clima temperado com sabor a Verão. “Conheço pessoas óptimas, oiço música vanguardista que poderia estar em qualquer grande cidade europeia, mas está neste ambiente especial que é a ilha da Madeira”, acrescentou Dominique. Marta é uma das poucas portuguesas assíduas do festival, tendo vindo este ano pela sétima vez. Fica a sensação de já fazer parte da família. Agrada-lhe especialmente o facto de o festival ter uma dimensão pequena e de estar num sítio em que “fazem tudo por nós. Vão buscar-nos ao aeroporto, trazem-nos para o hotel, levam-nos à Casa das Mudas (Calheta), trazem-nos de volta e ainda fazem uma after party com direito a buffet. Não conheço nenhum festival no mundo que tenha este formato. Faço um reset com a rotina e passo uns dias absolutamente fabulosos em que só há coisas boas. É prazer a 100%”. Xana que veio este ano pela primeira vez confirma a sensação e acrescenta que “há uma simbiose perfeita entre o local, a relação com a natureza e a forma como nos relacionamos com o festival. Não vamos apenas assistir a concertos, há uma continuidade na relação que se estabelece com os músicos e com o público. Durante quatro dias partilhamos um misto de emoções. Sinto-me imersa num ambiente que é muito completo e com uma dimensão muito humana. Tenho a sensação de fazer parte de um momento da história da música”.

A segunda noite foi dedicada à editora vienense Mego que trouxe com ela quatro projectos, entre eles Chra e Klara Lewis. O seu responsável Peter Rehberg já visitou o Madeira Dig três vezes e desta vez para fazer um showcase comemorativo dos 20 anos da editora afirmando que “este é um dos meus lugares favoritos para tocar ou estar”. Segue-se uma viagem por texturas sonoras que no final derivaram para o techno industrial. Reservado, Thomas Brinkmann contou-nos que o seu concerto foi especial “de certa forma senti-me a entrar num dos enormes túneis da Madeira, atravessei-o e quando saí senti subitamente em Berlim”. Michele Lori vem de Milão, é conhecedor deste género musical e há anos que vários amigos frequentadores do festival o aconselharam a vir. Aproveitou para juntar o útil ao agradável, como muitos, tirar férias e ouvir boa música. “Eu trabalho com este estilo musical em Milão, já tinha visto Florian Hecker + Tina Frank e quis repetir a experiência”. E que experiência! Como protagonistas duas colunas num palco vazio, uma à frente, outra mais atrás, iniciam uma conversa a vários tons atravessando uma série de emoções, da serenidade à zanga passando pela diversão. Um diálogo em formato vídeo-arte numa representação gráfica abstracta dos sons. Sons mais suaves representados por imagens redondas, os agressivos, imagens pontiagudas. Ruídos caóticos e desconexos comunicam com a audiência. A raiva intensifica-se, torna-se visceral e é estabelecida uma relação de amor/ ódio com esta peça cujo ruído se vai tornando ensurdecedor e divertido em simultâneo. “Adorei a forma como a peça foi representada visualmente, a imagem e o som ligaram-se de forma perfeita e tinha um humor que gostei especialmente”, disse o músico inglês Steven que actuou de seguida na after party com o projecto Heatsick. “ Estou a adorar fazer parte deste contexto”, acrescentou.

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Floresta Encantada

No terceiro dia a adicionar ao alemão, no ar ouvia-se espanhol, italiano, francês e inglês que se preparavam para ouvir o projecto de Rashad Becker (Alemanha) & Eli Keszler (Estados Unidos). Num ritmo quase tribal as mãos de Eli dançavam frenéticas na bateria, no rosto estampada a convicção do que estava a fazer. Rashad acompanhava o ritmo desenfreado de uma bateria – que gritava por toda a sala – com um semblante sereno e convicto de quem lança para a audiência os sons certos que a acompanham. A intensidade é muita, os monstros aproximam-se, mas as mãos de Eli insistem em afastá-los desta imaginária floresta com todos os seus ruídos fantasmagóricos que nos assustam e fascinam simultaneamente. Chamar-lhe-ia uma espécie de expressionismo alemão aplicado à música. Da floresta passamos ao cosmos de A Winged Victory for the Sullen numa viagem que evoca nascimento e pureza. Um disco composto para banda sonora de uma peça de dança contemporânea onde sentimos os músicos tocar cada instrumento com a delicadeza de uma dança tranquila entre as várias notas musicais. No final, Adam, o músico que entrevistara na noite anterior, emocionado falou sobre o concerto desejando que todos os festivais fossem assim.

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Na manhã seguinte na Estalagem os músicos convivem com os convidados e a sopa de legumes é acompanhada de Tom Waits. Os funcionários, em sorriso permanente, não escondem o quão satisfeitos estão por receber este evento. Ao nosso lado almoçavam os A Winged Victory for the Sullen que após os concertos de Braga e Lisboa aterraram no Madeira Dig. Tranquilos falavam da ilha e da “wired” música que os havia fascinado. Do outro lado Thomas Brinkmann perguntava se alguém havia perdido um cartão. O simpático Dj e produtor japonês Ena que havia actuado na noite anterior no after session, junta-se ao grupo e fala sobre a sua vida artística em Tóquio, as vindas anuais à Europa e do seu set de música maioritariamente não editado em disco. “No meu trabalho diário faço música normal”, diz sorrindo.

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Na última noite o brilho foi para Selvhenter (Dinamarca) e Supersilent (Noruega) numa escolha que passa para a sonoridade punk e post rock. O contratempo de a baterista não poder estar presente fez com que a banda voltasse às origens pois "começámos com um trio" explicou a saxofonista acrescentando que tocariam de seguida o primeiro tema da banda, já com oito anos e com uma excelente performance do trombone de varas. What a jam session quase a fazer lembrar John Zorn, seguindo-se temas kraut rock, noise e até mesmo metal. Supersilent ao som de um jazz experimental contemporâneo fecharam em grande esta 12º edição do Madeira Dig. Um sonho de há vários anos de Rafael Biscoito, director do festival, dizendo que “para mim foi o concerto. Este ano felizmente reuniram-se as condições para os trazer e foi do melhor que já tive oportunidade de assistir neste festival”.

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Quanto a nós uma certeza. Para o ano iremos voltar para mais uma edição deste idílico périplo entre a música e a natureza!

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