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O Caminho das Noites e dos Ouvidos

Entre belos caminhos e muitos caminhantes, eis o Vodafone Mexefest. Com muitos circuitos e diferentes opções musicais, é um festival de temperamento invulgar e obducto por uma espécie de jogo entre a eleição de horários e espaços. Apresenta-nos bandas híbridas e um pouco heterogéneas, fora de um circuito maioritariamente mainstream. Presenteiam-nos com uma boa variedade qualitativa musical, em contrapartida, ocupam-nos com a sua distribuição caótica de horários e salas, isto faz com que o Mexefest seja, também ele, sincronicamente eufórico e veemente e um pouco atrapalhado.

Entre os muitos roteiros possíveis, começa da melhor forma com a música dos Dead Combo, que nos coloca numa viagem subjectiva e marcante a cada nota que sai da melancólica guitarra e que nos deixa traços de emoção e beleza imaginária. E é daqui que partimos, de forma muito agradável, para uma noite de novidades musicais electrizantes.

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A primeira noite começa com um concerto dos portugueses Cave Story, banda esta formada por três elementos, liderada pelo vocalista Gonçalo Formiga. Apresentam-nos uma música entre o post-punk e o indie rock, desfilaram com toda a energia e satisfação pela sala Super Bock. Já o espaço, deixou muito a desejar, não era o melhor espaço, nem era de grandes dimensões nem com boa qualidade acústica.

Fazemos um pequeno salto, para La Priest. Um concerto um pouco surreal e solitário, one man show, com o álbum Inji que encheu algum público com a sua música hipnotizante e peculiar. Também lançava uma espécie de desconforto ou incapacidade de empatia com o público, numa vertente bem egocêntrica que deixou em alguns uma vontade dançante e assim foi pela noite fora.

Já na Estação do Rossio, estavam os Akua Naru, num ambiente bastante intimista e memorável. Traziam na bagagem fãs do jazz e também do hip-hop, num concerto bastante emotivo, com a hipnotizante performance da norte-americana Akua. A banda marca muitos pontos neste concerto. Absolutamente fantásticos, viviam a música com alma, sentida por eles e pelo público ao seu redor.

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Já no Coliseu, deu-se início ao concerto de Chairlift entre o electro-pop e o silêncio dos sintetizadores, gerou-se um concerto um pouco estranho, que também trazia um público não muito receptivo e também ele um pouco externo ao que acontecia em palco. Ouvia-se bastante ruído e falta de preparação com os novos instrumentos, o público foi certamente abafado pela voz de Caroline Polacheck e pela falta de harmonia instrumental que se ouvia nuns maus 50%. Foi uma completa desilusão para quem esperava uma das suas performances habituais.

De volta ao Tivoli com Ducktails, que trazem-nos uma calma e relaxamento, muito fora do ambiente apreçado do Mexefest. A música é um pouco aérea, pausada, e descontraída, já pedia uma esplanada e um por do sol e a volta dos pensamentos introspectivos. Foi uma boa pausa à pressa apreçada de um festival que se premeia pela velocidade a que as tuas pernas andam e com o que os teus ouvidos retêm, música ainda não processada.

No final da noite o tão esperado Benjamin Clementine, levou a um Coliseu cheio, e a uma grande expectativa de um público de coração na mão. Concerto que trouxe a magia de volta ao coliseu, em plena harmonia entre o público e os músicos, bastante tocante com um público completamente enfeitiçado pela voz emotiva de Benjamin.

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Música bastante intimista que mesmo assim encheu o público, e o Coliseu, pela sua grande capacidade vocal e emocional. Voz arrepiante, magnificente que não deixou ninguém indiferente. Com um piano e voz que atingiu todo o coliseu e alastrou sentimentalismo nas faces do seu público comovido. O baterista também ele muito marcante, completamente conectado com o seu público, mostrava de forma exemplar uma proficiência inatingível. E é aqui que entendemos que a música chega-nos de forma pura e arrebatadora, e que nos leva para outros universos sub-humanos, do sentimentalismo irreal. Vemos um público completamente rendido, devorado pela melancolia melódica de Benjamin, e assim terminamos o primeiro dia de Mexefest, com um dos concertos mais marcantes do festival.

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O segundo dia começa na sala Super Bock com a banda portuguesa, Flamingos. Mais uma vez a sala não tinha as melhores condições acústicas, e por isso Flamingos entraram com algumas falhas técnicas. Penso que seja uma banda bastante recente, talvez ainda um pouco crua, com um certo desconforto e ainda sem grande empatia com o seu público, mas que mesmo assim uma banda bastante engraçada e que sentia aquilo que cantava ou tocava.

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Enquanto que no Coliseu actuava Ariel Pink, entre o extravagante/estranho e a excêntrica performance, já bastante comum bem conhecida pela sua audiência. Encontrava-se dois comportamentos no público, que ficava entre a inteira recepção da sua estranheza e a rejeição completa da sua anormalidade. O público dividia-se entre curiosos e amantes.

Com uma breve passagem nos Holly Nothing no Cinema São Jorge, que traziam um emaranhado electrónico, entre sintetizadores e projecções confusas, que se misturavam entre a música e imagens que não iam muito ao encontro do ambiente em si. Algum público foi levado na viagem da sua música electrónica, outros ficaram sem descolar, imóveis por dentro e por fora.

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Já no Tivoli encontrava-se Nicolas Godin. Uma sala bastante vazia, que se encontrava curiosa e atenta ao que se passava no belo palco. Inicialmente não havia qualquer conexão entre público e banda, mas que mais tarde se veio a reverter. Mesmo assim foi um concerto bastante invulgar e descontraído, sem grandes surpresas ou emoções.

Mais tarde surge Peaches, já habituados a algo que extravasa a normalidade, deixa-nos electrificados e energizados. Entre o seu electro-pop e o punk, traz-nos um público igualmente heterogéneo, estranho ou mesmo híbrido. Dá um concerto bastante desprendido, sem preconceitos mas também bastante ousado para os mais conservadores. Entre o crowdsurfing e alguma performance mais libertina e desinibida deixa o público à vontade para se expressar, alguns mais chocados, outros mais curiosos e alguns até maravilhados. Fica, para alguns, uma ideia de excesso de extravagância e para outros uma performance no seu melhor.

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Damos o salto para o Coliseu, com um dos concertos mais esperados, Patrick Watson.
Coliseu ao rubro, complemente cheio de ouvidos curiosos que aguardam a sua entrada. Dá-se a abertura do concerto e já de início, cativaram o público que tanto os aguardava. Concerto bastante intimista, com a voz de Patrick absolutamente tocante e ilustre, comoveu quase a totalidade do público. A importância de cada nota e de cada sentimento que fica no ouvido e no coração, leva-nos numa atmosfera circular de sentimentos melancólicos entre o amor e a dor. Os silêncios que são sempre tão essenciais na música de Patrick, transportam o público para momentos reflexivos e de absorção emocional que ficaram entre toda aquela grande audiência que sentia mais que a voz e mais que as notas. Mais que tudo a sua voz trazia algum sentimento saudosista arrepiante, que balançava entre a plateia de pessoas sentadas e em pé que por lá deambulava. Fez-se uma conexão imediata entre a banda e o público, com uma espécie de sintonia perfeita, bastante rara. A sua performance bastante memorável que fica num coração apertado entre as notas instrumentais e a sua voz surpreendente. A performance do guitarrista, Joe Grass, também ela absolutamente marcante e comovente. Concerto bastante espontâneo e emocional tanto para o público como para os músicos, marca o fim de mais um ano de Vodafone Mexefest que não nos deixa desiludidos.

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