FOTOGRAFIA

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Três olhares em torno da Arte Lusófona

Convido-vos a visitar a exposição, cujo vencedor será conhecido brevemente. Qualquer dos três candidatos (Ângela Ferreira, n.1958); Ayrson Heráclito (n.1968, Brasil) e Edson Chagas (n.1977, Angola) ao Prémio de Fotografia apresenta uma proposta muito forte, sendo a escolha portanto particularmente difícil. Denota-se um equilíbrio entre os diferentes projectos, tanto no plano formal como temático, como anota Pedro Lapa, Presidente do Júri, havendo uma unidade na leitura de conjunto mostra embora não tenha sido deliberado. "Nos trabalhos é declarada uma relação com as culturas africanas ocidentais, através da sua memória e/ou da sua vivência do presente". Simples ajustamentos e pormenores na vertente expositiva ou dados curriculares poderão fazer a diferença entre eles. Cada um dos três projectos ocupa um lugar singular, onde cada enredo discursivo, através da imagem, traz a sua linha de pensamento. O poder da imagem traz uma expressividade própria, traduzida na concepção da obra, tanto no suporte de fotografia como no do vídeo. As obras apresentadas foram assim concebidas por trabalhos inéditos; contudo, o critério inicial da selecção dos artistas baseou-se em mostras anteriores.

"Interessou-me a percepção do que as pessoas têm do espaço" (E. C)

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Edson Chagas, Desacelera o Mambo. Celebrating Life by Slowing Down Perception, 2015

No domínio fotográfico propriamente dito são as obras de E. Chagas e de A. Heráclito, este em formato díptico, que produzem imagens de maior intensidade numa conjugação perfeita entre a fotografia e o vídeo. O artista de Angola na obra Desacelera o Mambo fotografa a praia das tabelas, nome por que é conhecido em Luanda, procurando espaços de que as pessoas se apropriam. "Chegaram a perguntar-me o que estava a fotografar. Aqui não há nada!" afirmavam as pessoas. Mas o artista vê precisamente a tabela como uma escultura. O autor produz imagens esteticamente surpreendentes, num contraste acentuado entre a luz intensa vinda da areia e a escuridão absoluta. Ao longe, avista-se no horizonte sombrio, um homem negro, destacando a sua figura em movimento pelo simples pormenor de estar vestido com um calção branco. As fotografias foram tiradas entre a noite e a madrugada, levantando a problemática da duração do tempo. Este autor e o do Brasil introduzem o elemento som, criando um ambiente imprescindível para a leitura de ambos os projectos, tornando-se no primeiro caso arrebatador, ecoando em todas as salas; enquanto no segundo, ouve-se o constante Sacudimento da Casa da Torre na Bahia e da Maison des Esclaves em Gorée através de folhas de árvore contra os cantos e as paredes, pretendendo limpar e afugentar o território dos fantasmas. Esta criação é profundamente performativa, consiste numa autêntica dança feita pelos homens encarregues dessa tarefa.

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Ayrson Heráclito, Sacudimento da Maison des Esclaves, 2015

A proposta da artista portuguesa A. Ferreira, com um percurso firmado e personalizado, apresenta para além da componente fotográfica e vídeo, uma instalação A Tendency to Forget um dos elementos que mais se evidencia numa estrutura em MDF, vigas de pinho e ferro com apontamentos a vermelho, com o seu estilo habitual. É uma construção aberta, tipo Maison Tropicale de forma que o espectador possa participar activamente, subindo ao piso superior por uma escada em caracol. Após estar sentado, este poderá usufruir da própria escultura, envolvendo-se nela em toda a sua plenitude e seguir de perto o filme, sobre o estudo dos Macondes de Moçambique realizado por Margot Dias – mulher de Jorge Dias, Fundador do Museu de Etnologia.

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Ângela Ferreira, A Tendency to Forget, 2015

A sua obra exposta não se esgota na componente fotográfica (que é muito reveladora nos outros dois candidatos). Bem sabemos que na prática artística no domínio da Fotografia actual é assente numa definição mais abrangente. Ângela apresenta assim um conjunto com uma dimensão diferente dos outros artistas, funcionando como um todo, imbuído de uma visão lógica de conjunto com um discurso claramente político e social. A artista trata da temática do período colonial, reflectindo sobre a inexistência de um discurso pós-colonial em Portugal, que é recorrente na sua área de trabalho, recorrendo a certos factos históricos. Existe uma relação estreita com a arquitectura e nesta mostra é clarificador tanto através das fotografias que figuram dois edifícios em Belém com características marcantes, o Ministério da Defesa e o Museu de Etnologia, como no vídeo, rodeado de espaços urbanos de cidades africanas. Como explica: "Os edifícios podem ser lidos como textos políticos, e é isso que procuro fazer."

À partida o Júri está de parabéns porque premiou o percurso de artistas lusófonos, de inegável qualidade descobrindo pontos de contacto com diferentes conteúdos programáticos onde se definem novas tendências.

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