FOTOGRAFIA

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Embora seja frequentemente associado à moda, o trabalho de Annie Leibovitz ultrapassa esse rótulo. É verdade que tem criado algumas das imagens mais marcantes da indústria desde que começou a fotografar para a Vanity Fair na década de 80. Também é verdade que, muitas vezes, as roupas assumem um protagonismo incontornável e que Leibovitz as fotografa e respeita – as cores, o cair dos materiais, o corte das peças – como poucos. Mas, também não será menos verdade, que grande parte dessas fotografias partem de uma curiosidade mais próxima do fotojornalismo do que da fotografia de moda.

Não será por acaso que três das suas maiores influências são Richard Avedon, Robert Frank e Cartier-Bresson. Todos eles são fotógrafos de pessoas. Avedon nos retratos, Frank no captar do dia-a-dia profundamente americano e Cartier-Bresson no fotojornalistmo puro e duro. Embora assumindo formas diferentes, todos (incluindo Leibovitz) usam a câmara como instrumento de exploração do outro.

Poderá aqui dizer-se que qualquer fotógrafo que capta o elemento humano é um fotógrafo de pessoas. Mas há uma diferença entre registar e conseguir definir numa imagem a essência da pessoa que está à frente da câmara.

No caso de Annie Leibovitz, talvez estes contornos se tenham definido cedo. Todo o seu background está enraizado numa forte componente humanística. Por um lado, as influências artísticas da mãe, uma professora de dança moderna. Por outro, a hipótese de viver em vários pontos do globo devido à profissão do pai, um tenente-coronel do exército dos EUA.

Pelo meio, um curso de pintura no San Francisco Art Institute e o hábito de fotografar que nunca a largou desde o momento em que tirou as suas primeiras fotos nas Filipinas (durante a guerra do Vietname, a família Leibovitz viveu ai algum tempo).

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Do curso de arte, passou por vários trabalhos até começar a fotografar para a recém-criada Rolling Stone, em 1970. Três anos depois, ocupou o lugar de fotógrafa principal e aí se manteve durante a década seguinte.

Deste seu período na Rolling Stone, fica-nos na memória a imagem icónica de John Lennon e Yoko Ono, captada apenas cinco horas antes de Lennon ser assassinado: ele, completamente nú, abraçado a ela, completamente vestida. Numa foto, Leibovitz cristalizou a dinâmica física e emocional entre os dois. Muitos anos mais tarde, viria a repetir esta mesma fórmula com Johnny Deep e Kate Moss para a Vanity Fair.

Se na Rolling Stone deixou marcas, aqui não foi diferente. Apostamos que grande parte das imagens que retém de actores e músicos foram criadas por ela ao serviço da Vanity Fair: Demi Moore nua e grávida, Whoopi Goldberg numa banheira de leite, o elenco dos Sopranos dispostos à mesa como na Última Ceia de Cristo, Tom Ford impecavelmente vestido, acompanhado de Keira Knightley e Scarlett Johansson imaculadamente nuas.

A roupa em oposição à pele é um fascínio constante repetido no seu trabalho. Para além dos exemplos já referidos, conseguimo-nos lembrar de pelo menos mais um: James Gandolfini aka Tony Soprano, de fato e gravata, como uma rapariga nua ao colo.

É uma imagética com uma forte dimensão sexual, mas também é usada por Leibovitz para exprimir uma ideia de fragilidade, entrega ou poder. É, mais uma vez, a condição humana esquematizada numa fotografia, um “truque” que Annie Leibovitz domina sem cair no reino do “sentimentalóide”. As imagens são sempre polidas, sofisticadas e sedutoras, mas nunca perdem o carácter íntimo. É um equilíbrio difícil de conseguir e de descrever, mas é o que torna as fotos de Leibovitz inconfundivelmente suas.

"Eu não tenho duas vidas. Isto é apenas uma vida. As fotos pessoais e as de trabalho fazem todas parte do mesmo". Foi assim que Annie Leibovitz explicou as imagens reunidas em Annie Leibovitz: A Photographer’s Life 1990-2005.

Ao longo de 15 anos, Leibovitz pegou numa Leica de 35mm e fotografou a sua vida a preto e branco. São imagens de uma verdade crua, despida de artifícios, que acompanham momentos tão íntimos como a morte do pai e de Susan Sontag (sua companheira durante mais de 20 anos) ambos vítimas de cancro. Há uma foto da mãe, da irmã e da sobrinha de Leibovitz a chorar, enroladas na cama onde o pai tinha morrido horas antes, várias de Sontag no hospital, muitas do nascimento das três filhas.

Intervaladas com estas imagens, estão os retratos que nos são familiares do seu trabalho público e as fotografias de paisagens. Não são o foco do livro, mas sim respirações necessárias numa história que é muito preenchida e intensa.

Depois de folhear Annie Leibovitz: A Photographer’s Life 1990-2005 vem-nos à memória uma foto que não consta desta compilação: um retrato da própria Leibovitiz, tirado por John Loengard (fotógrafo da revista Life) enquanto esta fotografava o bailarino David Parsons no topo do Chrysler Building. A foto mostra Leibovitiz em pé, em cima de uma gárgula do 61º piso do edifício, a receber uma máquina fotográfica da mão do assistente com o mesmo à vontade que teria no chão. Os pés estão assentes numa superfície sólida, mas essa superfície está assente no ar.

É uma metáfora para a vida em sentido lato e uma imagem perfeita para definir o que se vê neste livro: uma existência marcada por acontecimentos iguais aos nossos – vida, morte, alegria e tristeza - mas com uma quarta dimensão que lhe confere um carácter excepcional. Não é qualquer um que sobe ao topo do Chrysler Building desta forma ou está frente a frente com Patti Smith, mas Annie Leibovitz consegue que isso pareça banal: "it's just part of the job". E o trabalho é parte da vida e a vida alimenta o trabalho, num ciclo tão orgânico quanto a imagem depurada da própria Annie Leibovitiz.

Talvez por isso, faça todo o sentido ter lado a lado este livro e outro, lançado no início de 2014. É uma edição de luxo da Taschen, limitada a 9000 exemplares numerados e assinados. Custa a módica quantia de €2000 e está disponível com quatro capas diferentes – Keith Haring, Patti Smith, Whoopi Goldberg ou David Bryne. Vem acompanhado por um livro de ensaios sobre o trabalho de Leibovitiz e um suporte para o livro da autoria de Marc Newson.

Aqui não há fotos pessoais, mas há o trabalho mais documental realizado para a Rolling Stone durante os anos 70 e uma foto do helicóptero de Richard Nixon a levantar voo da Casa Branca depois de ter renunciado à presidência dos EUA. Pelo meio, os retratos de actores, músicos, artistas plásticos, escritores, atletas, etc, que tirou para a Vanity Fair e para a Vogue. Um verdadeiro "who's who" do panorama artístico, social e político das últimas quatro décadas.

O livro chama-se simplesmente Annie Leibovitz, relembrando-nos que este documento histórico é fruto do trabalho de apenas uma mulher – tão banal como nós, mas excepcional como poucos.

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