DIÁRIOS DO UMBIGO

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Fotografias: Nuno Gervásio.

Agarra-te pelos colarinhos. Uma e outra vez à velocidade lenta de quem pergunta – mal me quer, bem me quer? Sente-se o prazer mórbido daquele exercício. Lança-te como carta para cima do tapete verde. Não és o trunfo. O máximo que podes aspirar é sair do baralho. Não consegues, não queres. Avanças, tens de chegar à frente. Movimentos que te são desconhecidos, um chamamento obsessivo, um empurrão para o caos. Sem concessões – The Bug. Isto é só o início. Kevin Martin em frente aos pratos e mesa de mistura. Homem de múltiplas colaborações com gente do calibre de Godflesh, John Zorn, Kevin Shields ou remistura para temas de Grace Jones, Primal Scream, Einsturzende Neubauten. Só ele, e já estás todo desfeito. Isto não é para meninos, não é para quem cheira a leitinho. Estás pior que Tyler Durdene e a tua Marla não só te vai encontrar num momento bem estranho como nem vai reconhecer o corpo onde habitas. Haverá ponto de fuga? Impossível. Da penumbra, não se sabe de onde surgem, Flodwdan & Manga. Os ritmos obsessivos repetem-se, amplificados pelas duas vozes guturais e por ordens que jamais ousarás dizer – Não! Continuas. Sabes que o que virá a seguir ainda vai ser pior. Isto sabe tão bem. O fim anuncia-se, mas não é desejado. Alto risco e ainda bem. Terminar um Festival desta forma não está ao alcance de todos, mas somente de quem arrisca. Aposta ganha. Um dos pontos altos deste ano do Milhões de Festa.

Milhões 5.1

Dois dias antes Satomi Matsuzaki e seus amiguinhos da Costa Oeste, ou seja Deerhoof, tinham povoado os céus de Barcelos com seres flutuantes e vindos de um universo mais verdejante e multicolorido, bem mais diga-se, que o universo negro de The Bug. As construções pop – indie – noise vão-se sobrepondo a um ritmo semi alucinado, em que cada linha de guitarra aponta para uma direcção, as vozes noutra e a bateria para os antípodas levando a pensar na impossibilidade das mesmas se encontrarem nalgum ponto ou serem capazes de se estruturar num edifício que não esteja prestes a entrar em colapso. Somos figuras geométricas em várias dimensões - 2D, 3D ora mais angulosas ora mais abstractas. Vamos desconstruindo-nos e reconstruindo-nos ao som de cada nota. As nossas pernas acompanham, ou pelo menos tentam, as de Satomi Matsuzaki. A nossa cabeça fica do tamanho de uma melancia alegre ao som de cada simpático “Thank you”. Como foi possível que na segunda vinda a Portugal só tenham estado quatro pessoas a assistir? Felizes eles e felizes milhares de nós agora. Depois disto podemos estender-nos no jardim do centro da cidade à procura do Ás de Copas que alucinados não nos chamarão, como muito “marados da tola”, mas alegres.

É um pássaro? É um avião? Até agora não se sabe. Longos minutos até se identificarem os objetos que teimosamente sobrevoavam o recinto, numa coordenação a lembrar um bando treinado segundo a velha metodologia da escola de ginástica romena. Ainda não se sabe o que sensivelmente a meio do concerto de Peaking Lights (Acid Test) abrilhantou uma actuação que se foi construindo com o passar do tempo. A começar em câmara lenta, as velocidades vão sendo lançadas sem quase se dar conta. No final, o caminhar até ao bar faz-se com os braços no ar e a cabeça em suave menear.

Milhões 4.3

Linhas, e mais linhas, milhões delas para destacar os vários momentos altos. Uma injustiça reduzir a uma lista a espacialidade de Michael Rother, o momento à capella das THEESatisfaction, não há computador que trame tão boa ginga, a feitiçaria sonora dos HYY & The Macumbas, o poder sónico da parede chamada Hey Colossus, para o turbilhão dos The Cosmic Dead, o comboinho, já uma tradição, com os sons orientais de The Paradise Bangkok Molam Inter. Exercício fastidioso, ingrato e que só desmerece os momentos que por lá se viveram.

Linhas, linhas que se reduzem a notas de rodapé, para os momentos menos conseguidos – Cairo Liberation Front, o tempo do neo-colonialismo já lá vai, para os recursos desperdiçados dos Bad Guys, por muito mais cordas que se acrescentem a intensidade não aumenta, Drunk in Hell, o saxofone não deve ser acessório e muito menos contribuir para uma cacofonia pouco consistente. A saudade da Casa Azul e de um momento final de tarde à la The Comet is Comming. Talvez uma pitada de África e espaço maior para o jazz e experimentalismo.

Milhões 5.2

Estás de rastos. A garganta é cacto no máximo do florescimento, a realidade quotidiana vai-te entrado sem pedir autorização. Comprar um bilhete de metro torna-se surreal, os empurrões para entrar na carruagem não fazem qualquer sentido. Puxas do carapuço, phones encostados às orelhas e Kill Them / Louder. Está na hora de contar os dias e ser arrancado para outra tareia da grossa.

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