DIÁRIOS DO UMBIGO

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Fotografias: Arlindo Camacho.

Ao percorrer os corredores do Pavilhão 30 do Hospital Júlio de Matos, sentimo-nos algures entre o fantasma que assombra as personagens e o editor que tenta juntar as cenas do filme apenas com base numa sinopse. É um percurso que se quer o mais solitário possível, para que os encontros com os outros fantasmas (também conhecidos como espectadores) sejam raros. Um é perfeito, dois é bom, dez é muito mais do que uma multidão neste espectáculo.

Depois de fechada a porta atrás de nós, somos encaminhados para a primeira sala, na qual rapidamente passamos a convidados (ou voyeurs) da festa do Dr. M, que celebra a sua nomeação para um prémio internacional de medicina. Até ao final da peça, é o único momento em que todas as personagens estão reunidas e aqui, no meio de uma dança, começam a desenhar-se os contornos que as ligam. Pedro, um dos médicos residentes do hospital, conhece Inês, a nova enfermeira, e os ciúmes de Constança (a mulher de Pedro) irão despoletar as acções que se seguem, influenciando o comportamento dos outros intervenientes.

Ao contrário do que se possa pensar, o Pavilhão 30 do Júlio de Matos não nos transtorna ou mete medo. Inquieta-nos com a carga natural de um edifício que mantém a sua traça original e onde estão impregnadas nas paredes milhares de histórias. E Morreram Felizes para Sempre sabe usar em seu proveito este cenário natural, fazendo com que as vivências das personagens se cruzem com o espaço e a realidade com a ficção.

E Morreram Felizes Para Sempre 1

A peça intercepta a história de amor entre D. Pedro e Inês de Castro, pedra basilar do sentir em português, com a invenção da lobotomia por Egas Moniz. O médico viria a ganhar o Nobel da Medicina em 1949 (ano em que se desenrola a acção) e foi nomeado para o mesmo durante um congresso no Hospital Júlio de Matos. Mas as sobreposições à realidade não ficam por aqui. Ao longo do percurso da peça, vemos também as cartas trocadas entre o Dr. M e uma figura que nunca aparece, mas que representa o médico americano Walter Freeman, responsável por dinamizar e desenvolver a técnica da lobotomia inventada por Egas Moniz.

Inicialmente, este procedimento era para ser usado apenas em casos muito graves de depressão. Freeman banalizou-o e inventou uma nova forma de o executar: através do canal lacrimal, inserir um picador de gelo directamente no cérebro do paciente. Na peça, Dr. W é o mentor do Enfermeiro Coelho que, a pedido do Dr. M e de Constança, acaba por ser o carrasco de Inês ao utilizar esta técnica para a neutralizar. Ou, noutra perspectiva, para matar o amor.

Na nota de intenções de E Morreram Felizes para Sempre é dito que este espectáculo é um anti-conto de fadas. Pega nas imagens românticas presentes na história de Pedro e Inês – as lágrimas de sangue, a morte por desgosto de Constança – e coloca-as no plano científico. "É ao cérebro que Egas Moniz dedicou a sua vida e obra. É por ele que as histórias se ligam". E, ao contrário do mito popular, está provado que é ele que comanda o amor e não o coração.

E Morreram Felizes Para Sempre 2

Aos visitantes de primeira viagem, é aconselhado não deambularem muito sozinhos e seguirem as personagens para terem uma visão global da acção. Haverá certamente a tendência natural de se manterem por perto de Pedro, Inês ou Dr. M. Mas a sensação de imersão é maior se nos deixarmos levar por quem encontramos pelo caminho – da enfermeira ao guarda, passando por um misterioso violinista. Ficarão salas secretas por descobrir, interacções por testemunhar, mas a experiência será mais completa mesmo assim.

Não tenham medo de entrar nas salas depois das personagens saírem (e enquanto lá estão), abrir armários, remexer em secretárias. Tudo é permitido. Deixem-se tocar pelos actores, mesmo que de raspão, aproximem-se para ver o minucioso guarda-roupa e a milimétrica expressão corporal de todo o elenco.

E, se possível, façam o favor de não correr pelos corredores. E Morreram Felizes para Sempre não tem uma meta, nem vencedores.

E Morreram Felizes para Sempre
Até 31 de Julho – Pavilhão 30 do Hospital Júlio de Matos, Lisboa
www.emorreramfelizesparasempre.com

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