DIÁRIOS DO UMBIGO

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O dia amanhece com um calor intenso e o cansaço não me atrapalha o paladar por isso é com uma boa francesinha no bucho que desço ao Parque da Cidade para o terceiro dia do Primavera Sound.

Talvez tenha sido do calor mas até ao momento não presenciei um concerto tão memorável quanto aqueles que vi o ano passado, se calhar estou a ficar velho para isto.

Manel Cruz abre as hostilidades no palco Super Bock, aquele que é provavelmente dos nossos maiores poetas. Fosse ele um tipo menos reservado seria o nosso Jorge Ben. A sombra dos Ornatos continua a pairar, apesar dos excelentes discos de Supernada e Pluto, que Manel revisita neste concerto. O foco é, contudo, as canções de Foge Foge Bandido, um registo muito mais intimista e menos orelhudo ou assombroso como os discos das bandas que liderou.

Contudo, ver e ouvir Manel Cruz lembra-me as saudades que as suas palavras e a sua voz nos fazem. Despe a t-shirt, atira águas para o público, canta os parabéns à Camila e teve direito a um encore improvisado, coisa nunca vista. O público quer mais mas apesar do engenho não será este o concerto que queríamos ver. Apetecem as guitarras desbravadas de Pluto ou os refrões êxtase de Ornatos Violeta. Manel, por favor, não fiques sozinho no teu quarto e faz qualquer coisa que a nossa música bem precisa.

Cabisbaixo, aproximo-me do palco ATP com um gin na mão para afogar as mágoas com um velho conhecido, Thurston Moore.

Ora depois de Sonic Youth não há mais nada, não me venham com cantigas. A zanga de Kim & Thurston foi provavelmente o fim anunciado do Rock & Roll, tal como profetizado por Don MacLean. Sem Kim, Thurston empresta o baixo a Debbie Googe e a bateria fica a cargo do companheiro Sónico Steve Shelley, que já ontem tinha tocado com Kozelek. Nada de verdadeiramente impressionante, apenas o fulgor suficiente para quase me obrigar a sair dali disparado e por o Daydream Nation bem alto.

Foxygen protagonizaram, até que enfim, um dos concertos do festival. O vocalista esperneia-se por tudo quanto é canto, acompanhado por três go-go-dancers de goelas bem afinadas, e logo ao início está no meio do público como se tivesse estudado as lições de Iggy Pop. Um final falso para a banda regressar com pompa e circunstancia, mesmo que a música não seja nada por aí além conseguem agitar o palco Super Bock com mestria.

Bom pressagio para ver e ouvir as avós Babes in Toyland, que ficam muito bem a seguir a Thurston Moore que inclusive estava no fosso do palco a curtir o concerto e a filmar com o seu telemóvel. Estava no fosso a fazer o meu dever de fotógrafo quando quase tropecei no mestre sónico e apeteceu-me trocar umas palavras mas achei que não tinha pinta suficiente para me meter com ele.

O trio enfrenta o seu punk activista com garra, mais que Patti Smith no dia anterior, puxando as rugas para o lado e atacando as guitarras e bateria com a garra de jovens de 18 anos. Portento clássico, estas três miúdas com idade para serem minhas mães abafam a maior parte das bandas de putos de hoje em dia. A voz suave da vocalista Kat Bjelland quando nos agradece contrasta com a sua voz de rockeira nata, aos gritos empunhando o poder feminino com toda a garra.

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Desço ao palco principal onde um rapaz dedilha a sua guitarra acústica com dedicação como se estivéssemos num qualquer festival à beira-mar. E estamos. Posiciono-me junto ao jardim zoológico, que uns chamam de zona VIP, mas como não tinha amendoins para atirar aos esfomeados, ver se eles tocavam o sino, vim me embora para jantar já que a noite estava quase a chegar.

Não há nenhuma banda como Einstürzende Neubauten, colectivo liderado pelo sempre elegante (mas agora anafado) líder Blixa Bargeld, com o seu arsenal sónico de metais e objectos recuperados sabe se lá de onde. Certo que um festival não é sítio para se ouvir Neubauten, onde o silêncio tem que fazer parte para depois ser violado por uns quilos de metal a cair por exemplo. Visualmente sempre estimulante, a poesia intensa e trágica da banda perde-se com o ruído dos Death Cab for Cutie no palco ao lado e é pena. Mas considerando que os Neubauten volta e meia estão por cá não é desculpa para não ver e ouvir uma das bandas mais essenciais de sempre.

Tudo culmina após ser interrompido por uns espanhois transvestidos que não sabem falar mais baixo e o concerto morreu para mim, com imensa pena. Também não faz mal, da próxima vez que regressarem lá estarei na esperança de ouvir uns clássicos se eles estiverem para aí virados.

Rumo ao palco principal a pensar no rider técnico dos Einstürzende Neubauten: dez quilos de metal, um tubo de PVC, partes de um motor de um BMW, guitarra, etc. Nada disto passa na segurança do aeroporto, seguramente.

Fui ao palco principal para ver os Ride mas estavam lá os Oasis por isso vim me embora. Voltei ao ATP para ver The KVB mas estava lá uma cópia barata de Joy Division.

Vou para o palco Pitchfork e está lá o Steve Albini com os seus Shellac.

Diga-se o que disser de Albini a verdade é que mais ninguém tem um som de guitarra como ele. Rasga-te os tímpanos como deve ser, límpida e distorcida ao mesmo tempo, filtrada por dois Marshall e uma técnica de som gira e muito competente na cabine de som. Certo que a atitude douchebag de Albini, com a guitarra à cintura como sempre, faz-te odiar e amar ao mesmo tempo, um bocado como a banda de Blixa. Pelo menos uma vez na vida tens que sentir a guitarra do Albini e depois disso todas as outras bandas soam-te a aspiradores em fim de vida.

Com os ouvidos bem limpos rumo ao palco Super Bock para ser bombardeado pelo arsenal sónico de Dan Deacon, a minha grande surpresa do dia. Baterista dos confins do inferno a dar tudo e um frontman muito comunicativo que se auxilia da electrónica e vocoder para começarmos a sentir saudades de sintetizadores. Impressionante muralha percussiva, agressiva QB, elegante e preciso jogo de luzes, foi um dos momentos da noite.

The New Pornographers tocavam à mesma hora e pude constatar que ainda soam a New Pornographers e que o som de Dan Deacon caia melhor à noite.

Volto ao palco principal com novo fulgor para ouvir dubnobasswithmyheadman dos Underworld, disco que eleva a Rave para estatuto de galeria de Arte. E que bem que soube ouvir todos aqueles clássicos com um espectáculo visual competente. Já apetecia um pezinho de dança, tal como aconteceu no ano passado com os !!!. Ao meu lado, no jardim zoológico, a fauna envergava camisola ao ombro como deve ser e a vipalhada estava toda divertida com "a música de discoteca".

O corpo não deu para mais, apetecia-me HEALTH para a ceia mas três dias de festival começam a pesar e não fosse a francesinha do almoço e já estaria no repouso há muito.

A reflexão final é menos entusiasmante que no ano anterior, apesar da impecável organização do Primavera Sound, do recinto magnífico e dos bons concertos que presenciei, mas faltou um pelo menos que tenha arrebatado como Charles Bradley o ano passado por exemplo. É um festival que apesar do cansaço vale sempre a pena regressar, regressar ao Parque e ao Porto, cidade eterna que te recebe sempre como deve ser. Não há outro festival com esta categoria em Portugal, sem marcas a impingirem-te bugigangas sem nexo, com um recinto imaculado e limpo, relva a perder de vista e, claro, as belas meninas de óculos escuros, lábios encarnados e flores no cabelo.

Para o ano lá estarei. É mais forte que eu. E os Shellac também, com certeza.

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