DIÁRIOS DO UMBIGO

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A tarde envelhece num mar de vendaval cortado pelo sol quente que aconselha aos festivaleiros uma prolongada exposição à relva. O segundo dia avizinha-se mais cheio que o anterior e logo às 17h a multidão já é considerável e amontoa-se junto ao palco principal para ouvir a Banda do Mar que nos mostra como as palavras cantadas em Português do Brasil soam melhor.

Rumo ao palco ATP para ver a libanesa Yasmine Hamdam que nos envolve na sua pop do médio oriente com a electrónica no sitio certo, hipnótica, voz potente, a sedução de Yasmine vem de todos os poros mas ela não faz por isso, envergando uma vestimenta que serviria também para ver o resto dos concertos ao meu lado. Eu tentei.

Yasmine faria uma aparição mais logo mas por agora é rumar ao palco principal para ver a avó Patti. Passando pelo palco Super Bock dá para ouvir um pouco dos Giant Sand, banda com músicos de todos os cantos do mundo, onde o vocalista, muito conversador, nos oferece uma espécie de balada porque "o sol se está a por". Mas ainda nem são sete da tarde. Este senhor está com um jet lag do demónio ou então precisa de outro Jack Daniels. Eu fico-me pelo gin.

Patti Smith fez parte da revolução punk nova-iorquina e conheceu-os todos: Hendrix, Morrison, Joplin, o CBGB's no seu auge. O primeiro álbum Horses é disso memória, a poesia urgente e as guitarras rasgadas a pedir revolução, o namoro com a música Jamaicana, bem representada pela bandeira Rastafari presa num dos amplificadores em palco.

Como ouvir Patti Smith hoje?, numa era onde a revolução se faz atrás de reivindicações bacocas e pouca acção; humanos escondem-se atrás de alter-egos e selfies e lixo electrónico e abraçam o consumismo e o capitalismo sem negar, embora toda a gente tenha uma opinião. As palavras caem no vazio porque a revolução já não vai acontecer, vivemos inertes numa aceitação sem limites dos perigos desta sociedade que nos atira guloseimas e aceitamos sem pestanejar. Afogam-se as mágoas em fado e futebol e fica tudo bem.

Contudo, se Horses pudesse servir hoje para acordar certamente que Patti deixou bem a sua mensagem assente nos milhares de pessoas que se amontoavam ao cair da tarde. Público visivelmente mais velho que sabe as letras de cor, olhando a avó Patti com atenção. Não deixo de sentir um certo espírito de revolta a fervilhar o sangue mas os festivais já não são um ponto de comunhão ou de tertúlia, são uma feira das vaidades, mesmo que o Primavera Sound se esforce por ser a antítese disso (e com relativo sucesso).

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Não é de estranhar, portanto, que José Gonzales a seguir não soe da mesma forma. Primeiro apresenta-se sozinho com a sua guitarra acústica em intimidades agudas, depois com uma banda que encena uma folk própria que até podia cair bem mas não me entusiasmou.

O mesmo não se passou com Electric Wizard, banda de durões que escolhe as vertentes mais expansivas do Metal para navegar. Quando uma banda tem um vocalista que exibe uma t-shirt que diz "Legalize Drugs and Murder" e atrás dele o video desenha cenas de snuff e tortura sabes que não vais sair daqui ileso. Competentes e muito seguros das suas guitarras, arrebitam o início da noite da melhor forma.

Mas o tempo é de rumar ao outro palco que não tinha visitado ainda, Pitchfork, para ouvir um velho conhecido, Mark Kozelek com os seus Sun Kil Moon.

Estava na dúvida do que se iria seguir, porque toda a gente sabe como o temperamento de Kozelek é faiscante, mas se há sítio onde ele se sente bem é em Portugal. A sua editora chama-se Caldo Verde Records e como nos lembrou no ínicio do concerto diz que está gordo porque já comeu 25 taças da nossa sopa. Maravilha.

A carreira de Kozelek é particular e intensa, depois dos Red House Painters começou os Sun Kil Moon e nos últimos anos tem editado álbuns quase anualmente. O ano passado Benji foi um portento de confissões e relatos da sua infância, mortes, amores, sexo oral e vários vícios tal como só Kozelek consegue declamar. Foi isso que cantou em palco, acompanhado por dois bateristas, canções tão anacrónicas e potentes como Richard Ramirez Died Today of Natural Causes (acompanhada por um elemento dos Blind Zero) ou a intimista Carissa.

Kozelek teve ainda tempo de chamar ao palco a minha amiga, perdão, amiga dele Yasmine, por quem salivei horas antes, para cantar uma música que ela não conhecia mas onde se safou muito bem. O Caldo Verde estava minado.

A intensidade do confessionário de Benji é interpretada por Kozelek com admiração, nunca parando no mesmo sitio em cima do palco, e suga-nos para a sua vida sem pedir licença.

Tempo ainda para tocar algo do seu último álbum, a música The Possum e brincar com uma estória recente "What's the name of the band that's entering into my set? Just kidding!". Eu bem procurei as t-shirts dele no recinto mas não encontrei.

Belle & Sebastian é uma estória completamente diferente. Os britânicos também têm vários anos de carreira e várias peripécias pelo meio mas sempre se mantiveram fieis à sua pop  luxuosa, divertida, com as letras bem afiadas numa herança decididamente Smithsiana.

Protagonizaram um dos momentos deste dia, a par de Sun Kil Moon e a enchente ao palco Super Bock disso foi prova. Pop assim dá gosto, mesmo que as músicas mais recentes não tenham a mesma chama do cancioneiro anterior.

Antony é um ser de outro planeta, toda a gente sabe. A dedicação que a sua música precisa faz com que todos os outros palcos se calem para ela cantar. A orquestra em palco interpreta vários temas da sua carreira, mesmo o sucesso com os Hercules & Love Affair, sempre com a melancolia e cinemática que a caracterizam. A liturgia é solene, e há mesmo quem durma ao meu lado, mas a dedicação é extrema apesar disso. Imagino-me sentado mais perto do palco a deixar a intensidade da musica de Antony percorrer-me os poros. Não será certamente um festival o sítio certo para esta música barroca, mas o sítio certo da música de Antony é certamente cá dentro.

E depois de Antony? Ora há três bandas em simultâneo. O que escolher? O hip-hop dos Run the Jewels ou o inconformismo de Ariel Pink? Ou a lembrança do passado dos JUNGLE?

Ora eu com escolhas não me dou muito bem. Decidi não escolher nada e deixar as críticas para os que fazem essas coisas. Amanhã é outro dia.

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