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"A praxis não é a linearidade, há meandros e tudo acontece"

É num palácio devoluto onde o chão é irregular e as paredes são porosas que se faz a arte de fazer arte. Um lugar com história onde cada recanto tem alma e se impõe em contraponto ao conceito white cube. É neste palácio – onde nasceu Marquês de Pombal – que trimestral ou semestralmente assistimos a uma criteriosa escolha de artistas que lá se deslocam, interpretam salas e nelas depositam formalmente o seu olhar perante o espaço, passando muitas vezes ele próprio a fazer parte integrante da obra.

Ao som da música clássica que emanava das paredes do Conservatório de Música, falámos sobre os quase seis anos de actividade do Carpe Diem.

O Carpe Diem tornou-se mais complexo, já não só faz exposições, como produz edições, como tem uma galeria – a Sala Verde, que recebe projectos de galerias comerciais – e uma cafetaria. Num espaço que existe acima de tudo devido aos seus conteúdos, ao fim de seis anos valorizam o grande apoio por parte da comunidade artística e o mais recente projecto dos múltiplos surgido em 2010.

Trata-se de edições resultantes da experiência dos artistas no palácio, que passam dois ou três meses no edifício e após a exposição montada – na inauguração – produzem uma nova imagem que é doada ao Carpe Diem. A ideia avançou em 2010 com uma exposição de Rodrigo Oliveira e neste momento já têm 120 edições. Ou seja, cada vez que há uma exposição o artista faz o donativo de uma imagem que passa a fazer parte da Colecção Carpe Diem.

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Concorreram a uma bolsa da DGArtes de apoio à internacionalização, ganharam e começaram por fazer um tour por sete cidades. Foi lá que encontraram parceiros que receberam a exposição das edições. “Regressei recentemente da Argentina e levei comigo 50 edições que são normalmente exibidas em vários espaços, desde galerias de arte a ateliers de arquitectura, a casas privadas. Uma boa forma de dar a conhecer os artistas portuguesas lá fora” explica Lourenço Egreja, director artístico do Carpe Diem. Já expuseram em Barcelona, La Coruña, Madrid, Bruxelas, Londres, Berlim, Nova Iorque, Washington, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Buenos Aires e Estocolmo. Em Londres e Nova Iorque fizeram a exposição numa casa privada e em Estocolmo numa livraria de arte. Posteriormente as peças são vendidas. Existem 30 edições para venda mais três provas de artista, duas para o criador e uma para o Carpe Diem. “Temos uma dupla de colecionadores no Brasil que tem a colecção toda e cederam as peças emolduradas para a exposição que fizemos no Brasil. Existe também um português que comprou tudo mas prefere manter-se anónimo”, conta Carolina Vicente, responsável pela gestão financeira e de projectos.

Escolhem sempre artistas diferentes que acompanham com uma apresentação e catálogo. A receptividade tem sido muito boa uma vez que nos outros países já existe uma tradição no campo das edições. Tendo em conta que muitas das peças expostas no Carpe Diem são resultantes de residências artísticas e são efémeras, conseguiram desta forma fazer uma edição do trabalho de cada artista que expõe como forma de dar continuidade à sua intervenção. A receptividade está a ser óptima e “são raras as pessoas que só têm um múltiplo. Voltam uns meses depois e compram outro. O José Pedro Croft fez seis imagens havendo cinco de cada, todas elas certificadas e estando quase esgotado”, conta Lourenço.

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A curadoria do Carpe Diem está totalmente a cargo de Lourenço Egreja, embora exista também a Luísa Santos que faz as curadorias fora do Palácio. Inauguraram já em Torres Vedras, Sines, Setúbal e Faro. “Prefiro o discurso de que existe uma curadoria Carpe Diem”, diz Lourenço. E como é essa curadoria? “É contemporânea, baseada na sustentabilidade e um pouco off no sentido da experimentação. O que nós queremos fazer com os artistas é experiências dentro de uma lógica que consideramos arte. A adequação a um edifício que não foi planeado para ter exposições e sim um centro do poder de Sebastião José Carvalho e Melo. Demos uma nova identidade a este edifício e é nela que surge o programa de curadoria com paredes tortas com um sistema eléctrico fraco, com salas devolutas e intempéries”. Desta curadoria fazem parte as residências artísticas que têm corrido bem e resultam da interacção do artista com o espaço expositivo. O artista vai ao Palácio diariamente, na chamada disciplina do atelier de Picasso, e vai trabalhando o projecto numa residência que se vai adaptando. “Há peças que são uma surpresa total, até para o artista, pois há muitos que trabalham na incerteza. Há paredes em que o estuque está a cair e há que jogar com as interferências e os projectos vão mudando. Isso para nós é fascinante como forma do processo de trabalho. A praxis não é a linearidade, há meandros e tudo acontece” explica Lourenço.

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Aniversário

Este ano vai haver muita programação para o dia de aniversário que acontece a 30 de Maio. Foram convidados pelo Festival PhotoEspaña a ser a sede em Lisboa e o tema é fotografia latino-americana. “Temos nove fotógrafos na colecção, vamos expô-la e convidámos quatro artistas a fazer um projecto específico que estará exposto no Palácio. Na Sala Verde – que acolhe projectos expositivos internacionais  de galerias e entidades de arte – uma galeria espanhola vai trazer dois artistas que irão fazer um site specific na sala. Numa forma do Carpe Diem promover artistas emergentes – algo patente na génese do projecto – terá lugar a residência do projecto Chapa Azul. São duas raparigas do Porto que conduzem uma carrinha que nela transporta um atelier de gravuras portátil. Fazem serigrafia, litografia e impressão a linóleo. Vão chegar antes e montar um atelier onde estarão a fazer gravura ao longo do dia do aniversário”, explica Pilar Montes, coordenadora de projectos.

A título de balanço, ao longo de seis anos todos os projectos têm altos e baixos. Neste caso os baixos prendem-se com a eterna questão da sustentabilidade. “Trabalhamos diariamente, temos o apoio da DGArtes que permite ao Carpe Diem estar vivo, mas existem as contingências pois o orçamento muitas vezes só chega nove meses depois. Um dos pontos altos é tomarmos consciência de que temos uma colecção que é mostrada internacionalmente. Colocamos as peças numa caixinha e vamos. Para as alfândegas nunca vão como arte e sim como posters porque a ideia é subverter a questão. Porque é que haveremos de enviar um múltiplo para o Brasil e ele ser taxado a 43%? Na Europa comunitária não existe qualquer problema”, conta Lourenço.

O futuro é agora e o Carpe Diem, não é só um espaço expositivo, mas sim um lugar de cultura contemporânea onde a música, edições de obra gráfica, instalações, conferências, masterclasses, residências e as artes plásticas acontecem, e bem!

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