Fotografias: Vera Marmelo.
Danger bird. De todo improvável começar crónica de concerto de Shabazz Palaces com clássico de Neil Young. Mas, e não é preciso esforço desmesurado para atentar nas duas primeiras estrofes – “Danger bird, he flies alone | And he rides the wind”. Nesta Quinta-Feira, neste dia 23 de Abril de 2015 viajámos todos segundo o vento. Dois dias antes do nosso 25 de Abril – a liberdade. Duas horas e trinta minutos de concerto, para mantermos a esperança, a vontade de construir caminho. Somos pássaros e queremos flutuar no ar. Apagaram-se as luzes, sensivelmente a meio, ou para ser mais precisos aproximadamente uma hora e meia após o início, e aí vamos nós – “I can fly fly fly away. | Watch me fly above the city | Like a shadow on the sky. Fly, fly, fly”. Viajamos na rua da Barroca, em Lisboa, em Lisboa e muito mais além.
Uns meses antes no Musicbox na apresentação do mais recente álbum Lese Majesty, o aclamado segundo trabalho e com críticas tão convictamente favoráveis nas diferentes publicações da especialidade a não deixar margem para dúvida, impunha-se uma pergunta – porquê repetir? Os graves coincidiram, naquela noite de 01 Novembro, com o estômago, a potência encrustada em cada entranha. Haveria algum sentido? Racionalmente nenhum. Mas por que não repetir? Poderia ser melhor? Dificilmente. Mas foi-o. E se tal aconteceu deve-se a elemento tão esquecido ultimamente – a surpresa. Há bandas que constroem a sua imagem com as actuações ao vivo, Shabazz Palaces é uma delas. Shabazz Palaces e a repetição, uma devoção recente, uma obsessão. Cada ritmo prensado, cada batida espremida. Longe das categorizações fazem a ligação entre o hip-hop, electrónica com tintes mais soul, sem nunca esquecer, com dose inumerável de diferentes instrumentos, os ritmos africanos. As vocalizações de Ishmael Butler e Tendai Maraire sempre presentes a marcar cada cadência e como recordatório para o corpo entrar em pulsões mais ou menos contidas a tentar acompanhar a rítmica impressa por ambos. Pauh, Pauh de cada vez e sempre direcionado para o público, uma tentativa de confirmar a que níveis se encontravam os espectadores na sua embriaguez sonora. Duas horas e meia, porque não cansa repetir, com uma energia contagiante, com as já constantes e bem conhecidas coreografias entre ambos. Houve submersão e muita, mas muita atitude. São simultaneamente electrizantes e hipnotizantes. E nós aí com eles.
A vida não tem sido fácil para os noctívagos, alguma vez o foi? Depois de quase três horas de concerto de Kraftwerk, no Domingo anterior, agora mais duas horas e meia a entrar para os lugares cimeiros dos concertos do ano. Para nós, que lá estivemos, e para a ZDB que acrescenta espessura à programação quando aposta na diversidade – as noites Waterfalls, Gatekeeper & D’Eon, Mykki Blanco no Espaço Negócio para só citar alguns exemplos. E apaguem as luzes – nunca se sabe o que está reservado.


































