ARTE

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Fotografias: Aga Frajberg.

C. Frances Fallon é a criadora da mais loura das personagens da performance artística: Court. Court é o protótipo da rapariga wanna be Playmate no mundo de Hugh Hefner e mais concretamente uma crítica aberta às séries Girls Gone Wild, de Joe Francis.

C. Frances Fallon considera esta degradação da mulher abjecta e no percurso da sua juventude escreve vários ensaios sobre esta temática que a rodeava. A pesquisa deste tema levou-a a criar uma personagem única: Court, numa peça fenomenal e politicamente incorrecta ao extremo mas com muito humor e ainda assim realista o suficiente para nos preocupar com a tendência chauvinista.

Fallon é americana mas vive em Cracóvia (Polónia), considera-se hiperactiva para nossa sorte, pois arranjou tempo para uma entrevista com a Umbigo.

Como surgiu o conceito de You know this Girl?
As diversas cenas ocorreram-me em diferentes fases da minha vida. Quando tinha 24 anos tive a ideia de escrever um sketch de uma apresentação académica em línguas estrangeiras onde o estudante faz uma completa figura de parvo. Um autêntico desastre linguístico onde só a audiência se apercebe da situação. E não sei porquê, mas achava excelente a ideia de os slides serem sobre artes. Acabei por escolher espanhol, o que me permitiu incorporar as piadas sobre a temática dos emigrantes. Muito divertido e politicamente incorrecto. Depois comecei a coleccionar ideias para sketches com pessoas idiotas. E foi então que a personagem se desenvolveu até se transformar num show por inteiro.

Conta-nos um pouco sobre a tua ideia de produzir fotos com a tua vagina em grande plano.
A cena sobre a cirurgia plástica onde esta pessoa vulnerável se vê ao espelho ocorreu-me quando tinha 17 anos. Eu costumava ver-me ao espelho inúmeras vezes. Para escrever a cena, fui mesmo a um cirurgião plástico perguntar o que ele poderia fazer para tornar a minha vagina mais bonita (risos). A ideia de fazer em paralelo fotos da minha vagina (depilada) em variados temas surge daqui. Tive a sorte de trabalhar com talentosos fotógrafos de renome para o projecto.

Qual foi para ti a importância de teres feito a tua primeira digressão através do Buffalo Infringement Arts Festival?
O espectáculo estreou no Buffalo Infringement Arts Festival (EUA, NY) que não tem regras rígidas e não tem taxa de admissão. Eu tirei imenso partido deste festival. Só tínhamos que preencher um formulário e eles davam-nos um espaço para apresentar a performance e até um anúncio no jornal. O Infringement Art Festival surgiu em Montreal no Canadá como reacção ao Fringe (Escócia) que se institucionalizou com o tempo. Eu candidatei-me mesmo antes de acabar de escrever o texto! Só acabei quatro horas antes da primeira apresentação. A primeira vez foi muito dura. Tinha posto os videos no princípio e só depois me apercebi que se os dispusesse entre as cenas seria muito mais prático e lógico para o desenrolar da peça. Na primeira semana dei seis performances. Muitas das minhas deixas favoritas foram inventadas durante as primeiras apresentações. Depois do espectáculo anotava-as (risos). Nunca me esqueço deste grupo de pessoas de meia idade que vieram ver o meu espectáculo por engano (baralharam os horários) e gostaram tanto que vieram outra vez e trouxeram amigos. E este é o melhor dos elogios.

C.-Frances-Fallon1

De onde surgiu a ideia de catalizar as tuas ideias na personagem Court?
You Know This Girl é um gozo com este tipo de rapariga à procura de uma gratificação sexual fácil, e por extensão uma crítica aos homens que consomem este produto. No colégio, eu era uma cheerleader muito mundana que vestia muito cor-de-rosa. Lembro-me que uma vez estava sentada num banco a preparar-me para os exames e o vocabulário estava a preocupar-me imenso pelo que tinha o dicionário aberto e dentro o livro Slaughter House Five, um romance moderno obrigatório para a cadeira de inglês. A mulher do treinador passou por mim e apercebeu-se que tinha o livro dentro do dicionário, fez-me um olhar de como quem diz "estás a ler um romance porco". As pessoas faziam uma ideia de mim muito libertina, mas eu queria muito ir para a universidade, partir para outra cidade. A ideia obcecava-me. As minhas experiências ajudaram-me a moldar a personagem Court.

Mudaste de universidade no decorrer dos teus estudos de letras. Como foi a tua experiência na faculdade?
O ambiente da universidade desiludiu-me muito. Por exemplo, uma vez emprestei os meus apontamentos a uma rapariga e ela apreciou tanto a qualidade das minhas notas que propôs estudarmos juntas. Acabámos por partilhar um apartamento! Ela era lindíssima e muito inteligente. Aprendi muito com ela. Foi ela que me ensinou a pôr um eyeliner! Lembro-me que uma vez ela mandou calar um rapaz na aula que só fazia perguntas deslocadas ao professor. Mas fiquei extremamente chocada com uma fotografia que ela pendurou na parede. Na imagem ela está com os seios descobertos cheios de chantily a ser lambida por uma outra rapariga enquanto um grupo de gajos uivavam de prazer por detrás. "What the fuck?!" Estas cenas pseudo-homosexuais Girls gone Wild para excitar os homens... Há algo neste conceito que me deixa muito desconfortável. Eu considero-me sexualmente liberal, mas pendurar na parede uma foto que terias vergonha de mostrar à tua avó deixa-me perplexa. A admiração que tinha pela minha colega de universidade desceu em flecha.

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A degradação sexual está também patente na univesidade?
Frequentar a universidade nos Estados Unidos é uma experiência de testemunho da degradação sexual das mulheres. As imagens dos homens a gritarem naquela foto marcou para sempre o meu imaginário. Em geral estava desiludida. Era algo que se via muito. Havia tipos que se gabavam de nunca terem lido um livro e estarem numa universidade de letras. Como é possível? A maioria das pessoas adorariam ter mais tempo livre para ler e nós liamos para obter o diploma. Não podia ser muito mais fixe que isto! O pessoal que não lê não tem a mínima imaginação!

És uma escritora-performer, como sucedeu esta mudança na tua vida?
No terceiro ano, decidi cortar o cabelo o mais curto possível, para provar a mim mesma que não precisava de enveredar pela via da degradação sexual. E contra as minhas expectativas, a atitude dos professores e dos outros alunos mudou imenso. Eu não mudei, continuava com o meu sotaque de menina bem. Mas o cabelo curto abria portas. "I had dicks falling out of my pockets! yay". Pertencia a outra classe, não estava em competição com as outras raparigas. Eu expressava uma renovada confiança e isso agradava aos homens.

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