MODA E BELEZA

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Fotografia: Cristovão.

Sofia sempre gostou de fazer desfiles que tivessem uma história para contar. Sempre gostou de fazer bonecos e de interpretar personagens, à semelhança do seu desempenho no último desfile de Filipe Faísca na ModaLisboa: uma verdadeira performance.

Vou começar por te questionar acerca do desfile do Filipe Faísca. Deste início ao desfile de forma performática, algo que te caracteriza neste mundo da moda. Como eram os desfiles em 2002 (altura em que a Umbigo surgiu) e quais as principais diferenças que notas?
Quando o Filipe me convidou, disse que queria mulheres com atitude e que soubessem desfilar. Eu acho que em 2002 as mulheres tinham mais atitude ou se calhar era-lhes pedido que tivessem. Acho que essa é a principal diferença em relação às manequins. Não é uma crítica negativa em relação às manequins de hoje em dia porque penso que é isso que lhes é pedido. Hoje em dia destacam-se pouco e nessa altura deixavam que a nossa personalidade transparecesse. Obviamente que nos dava mais gozo e foi isso que o Faísca me deixou fazer. Eu nunca desfilava sem perguntar ao criador qual era a atitude que ele pretendia porque era paga para vender a sua imagem. Há um diálogo entre o criador e a plasticina que sou eu.

Gostaste de fazer este desfile?
Bastante. As pessoas perguntam-me sempre se tenho saudades. Eu não tenho saudades de desfilar, aliás não quero nada voltar a esta vida. Mas pelo facto de ser o desfile do Faísca, por gostar dele e de lhe reconhecer um enorme talento foi um prazer enorme e senti-me lindamente.

E continuas a ir à ModaLisboa?
Não. Vou muito pouco, vou de vez em quando ver o Filipe, Protic ou Valentim. Vou ver aqueles que tenho no coração por alguma razão.

Notas diferenças no público?
Uma enorme diferença. Acho que é um público muito desajustado.

Diz tudo o que te vai na alma.
Eu digo, eu digo, aliás, há quem não goste de mim por aquilo que eu digo, imagina se soubessem o que eu penso (risos). Eu acho que o público da ModaLisboa é muito desajustado. Deveria ser direccionada para a imprensa, profissionais, compradores e clientes dos criadores. Neste momento está cheia de pessoas que vão lá como se fossem a um circo ou a uma feira de vaidades e eles próprios são os animais e respectivos espectadores. As pessoas que lá vão não compram criadores nacionais. Posso também dizer que odeio bloggers? Existem até alguns blogs que são interessantes mas depois existem todos os outros, em que se vestem todos da mesma maneira, e são facilmente reconhecíveis. E porquê? O que é que eles estudaram? O que é que eles sabem? Que desfiles internacionais é que viram e que semanas de moda frequentaram para terem uma opinião para escrever sobre moda? Liberdade de expressão claro que sim, mas controlo de qualidade não é censura e devia existir.

Como vias este mundo há 12 anos atrás?
Acho que acima de tudo havia mais entusiasmo. Não sei se havia mais dinheiro, sempre conheci os criadores com dificuldades em fazer as colecções. Sempre conheci os manequins a fazer a ModaLisboa por amor. Havia outros desfiles que fazíamos apenas se nos pagassem bem e a ModaLisboa era por prazer. O que eu tenho sentido sobretudo nos criadores que têm mais talento é uma falta de estímulo. Lembro-me do Osvaldo Martins, que é um dos maiores talentos para os quais eu já desfilei na vida. Os desfiles dele eram muito difíceis de fazer. Lembro-me que uma t-shirt do Osvaldo, por vezes no fim, transformava-se numa tenda de campismo. O Aleksandar Protic também esteve muito tempo sem fazer nada, talvez por falta de dinheiro e de estímulo. Os criadores são o motor de tudo e se eles tiverem entusiasmo, os manequins também têm, e consequentemente a indústria e os compradores.

Com que criadores é que gostavas mais de desfilar?
Com todos aqueles que tivessem uma imagem coerente, mas nem sempre aqueles que eu mais gostava da roupa eram os que eu mais gostava de desfilar. A Fátima Lopes, por exemplo, que não é uma criadora com a qual me identifique e compre roupa, lembro-me que gostava imenso de fazer os seus desfiles porque tinham uma imagem muito coerente. Desde Fátima Lopes, a Filipe Faísca, passando por Luís Buchinho e Aleksandar Protic de quem sempre gostei imenso.

E depois existiam os desfiles da Ana Salazar.
Sim, sabes que Ana Salazar foi o primeiro desfile que eu fiz na vida. Tinha 15 anos e ela era uma estrela. Pelo que ela fez pela moda em Portugal, merecia estar numa posição muito mais confortável e digna. Acho que ao fim de todos estes anos merecia um enorme reconhecimento e mais visibilidade. Conheço poucas pessoas com tanto mérito como a Ana Salazar na história da moda em Portugal. Ela para além de ter sido a primeira não desapareceu, manteve-se. É a Amália da moda.

Que papéis tiveste na ModaLisboa?
Fui manequim, fiz parte da associação, fiz o gabinete de imprensa estrangeiro e o nacional e fiz produção.

Gostaste de ter esses papéis?
Sim, eu acreditava na ModaLisboa e no projecto que tínhamos em comum e só saí quando deixei de acreditar.

Sinto que estás um pouco decepcionada.
Não, eu acho é que nem sempre as coisas correm como nós queremos ou idealizamos. Continuo a sentir que a ModaLisboa foi uma das minhas casas, fui lá fazer o desfile do Faísca e senti-me em casa, mas fez todo o sentido sair. Claro que continuo a querer que tudo corra pelo melhor, não tenho qualquer ressentimento nem estou magoada com ninguém. Simplesmente deixei de acreditar pois gostava que as coisas fossem mais profissionais, elitistas e sérias.

Vestes com frequência criadores portugueses?
Eu visto-me mal com frequência. Tenho imensa roupa de criadores portugueses no meu guarda-roupa e quando tenho algum evento ou ocasião especial visto criadores, mas no dia-a-dia não visto nada de especial.

Há algum criador de quem sintas falta e que tenhas pena que já não faça parte?
Sim, o que me deixa mais saudades é o Osvaldo. Para além de gostar imenso dele como pessoa tínhamos os dois uma ligação artística e eu gostava de ser a plasticina dele. Mas como desde miúda que viajo sozinha, os meus pais mandaram-me estudar para fora, tenho poucas saudades.

Lembras-te de alguma história insólita que te tenha acontecido?
Uma vez caí da passerelle num desfile da Fátima Lopes. Tinha uma mama à mostra e caí ao colo de um senhor, não foi muito agradável.

E o mercado da moda, achas que funciona?
Não. Os criadores desfilam a roupa e depois vão para casa. Isso faz sentido? Acho que a seguir aos desfiles a roupa deveria estar em showroom e acho que o público deveria ter possíveis compradores. Só assim é que faz sentido. Os desfiles não deviam existir para fazer massagens ao ego.

Sentes que há muito trabalho a fazer.
Mesmo muito. Para já não faz sentido haver Portugal Fashion e ModaLisboa. Temos um país super pequeno. Que sentido faz exigirem duas semanas de moda? Se uns têm indústria e outros know how em moda porque é que não juntam sinergias?

Para finalizar, qual é a tua opinião sobre a Umbigo?
Acho muito importante ter aparecido na altura em que surgiu. Foi uma estalada de luva branca porque mostrou que se podia fazer uma revista com qualidade, com um grafismo bonito, inovador e com conteúdos interessantes. Acredito que não seja fácil manter-se. É muito bonita e é talvez a minha revista preferida no mercado português.

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