DIÁRIOS DO UMBIGO

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É o frio que nos faz apertar as roupas contra o corpo como um torniquete que tenta desesperadamente estancar a hemorragia de calor [ou será de amor?].

O frio que comprime os nossos corpos um contra o outro. Calor com calor. A convergência dos nossos limites, tu e eu, pele contra pele. Sim, nós [os dois] contra o Inverno, nós [os dois] contra a inevitabilidade do Fim. Seja ele quando fôr e por que motivo fôr.

O frio de se estar sozinho no meio da multidão.

O frio que se instala quando a luz morre. E a escuridão que nos serve de cobertor.

O frio que faz calar o canto dos pássaros. E despe as árvores.

O frio que nos faz querer voltar para o útero materno, onde o calor era garantido e sinónimo de segurança e de que tudo ia correr bem, agora e sempre. (A nossa posição fetal é o órgão vestigial desse tempo já ido.)

O frio que deixamos entrar no coração [quando estávamos distraídos com o Mundo] e que agora percorre as nossas veias. E artérias. E capilares.

E já não quer sair.

O corpo começa a perder a sua luta contra o frio logo nas extremidades, tentando a todo o custo proteger o seu bem mais precioso, o coração e a capacidade de amar. Essa só vacila no fim, quando tudo estiver perdido e as trevas se anunciarem vitoriosas.

Capitula, mas não morre. É derrotada, mas não desiste.

O zero é absoluto, sim, mas até lá ainda temos, tu e eu e nós – tempo.

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