DIÁRIOS DO UMBIGO

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Fotografias: Alípio Padilha.

Nunca há duas noites más

Fevereiro. A carne, o carnaval e o mês em que todos os excessos são permitidos. Em Torres Vedras são mais mulheres que homens, ou mais mulheres – homem, do que homem – homem, mulher – mulher. Em Trás-os-Montes, os tradicionais caretos de Podence, em Veneza a renascença, nas lutas de rua, de calçada ou em binário 0-1, os Anonymous. Na palavra musicada – HHY & The Macumbas, Goat, ou até mesmo Fever Ray, isto se não houver necessidade de tão grande recuo e nos lembramos de Slipknot e Kiss. Na palavra em celuloide Donnie Darko ou Batman para citar os que saltam à memória. Nunca se deseja ser um, procuramos quatro, cinco outras identidades com que nos identificar. Slow Magic surge-nos com máscara de última geração. Animal, eléctrico, animal-eléctrico, fluorescente. Uma hora de atraso, braços ao alto para a multidão, sofreguidão em pegar nas baquetas e começar a castigar a tarola. Nem Coppola se lembraria de início tão prometedoramente apocalítico. Nunca se sentiu tanto o gosto pelo cheiro a napalm. Prometia.

Sintetizadores, tarola e máscara. Um, dois, três – 1, 2, 3. Sempre a mesma métrica. Sempre as mesmas combinações. O impacto estava criado e começam a desculpar-se os corações desenhados com as duas mãos. A plateia dança, aplaude, salta. Embarca na euforia e não vem mal ao mundo por isso. Como em La HaineJusqu'ici tout va bien, Jusqu'ici tout va bien, Jusqu'ici tout va bien. Passa meia hora. 1 – nos teclados, 2 – na tarola, 3 – braços esticados. Trinta minutos tudo bem, mas mais? Uma hora e meia, a mesma trilogia. Não planeaste frequentar uma aula de Zumba e sabes, como no filme de Mathieu Kassovitz que – l'important n’est pas la chute, c’est l’atterrissage. E a aterragem foi brutal. De cara no chão ou melhor em incontáveis idas ao bar, na esperança, que um pormenor, uma projecção adequada, uma ligeira variação rítmica que fosse e tudo mudasse. Esperança vã. Falta de imaginação, de dinâmica, de audácia. Defraudado. How to Run Away (2014) e Triangle (2012) indiciavam outro tipo de concerto, que nunca chegou a acontecer ou a repetir-se terá lugar, muito seguramente, na próxima edição do Festival Sudoeste, o seu habitat natural.

Cabisbaixo. No entanto, como qualquer ludopata, a certeza ilusória, mesmo sabendo que todas elas são ilusão, que o melhor remédio é voltar à casa de perdição. Se uma noite correu mal, a seguinte não pode ser pior. Dito e feito. Sábado, Musicbox, Baile Tropicante – Jackpot. Cumbia, rumba e demais géneros tropicais de denominação de origem variada, a enchente habitual e a invasão de palco tradicional. O sol à porta e a saída ao som do Danúbio Azul.

La Palice também dever ter sido noctívago inveterado – nunca há duas noites iguais.

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