DIÁRIOS DO UMBIGO

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Fotografia: Daniel Azevedo.

Somos peritos. Sempre fomos. Não me lembro de conhecer um português que não saiba falar de tudo. Conheço, isso sim, portugueses que sabem falar de outros portugueses que não sabem falar de nada. Pensam eles, sem saberem que esses outros têm um pensamento similar. É e sempre foi assim. Desengane-se quem pensa que isto mudará um dia. Não muda. Opinar com razão está-nos no sangue. É como os glóbulos vermelhos, renova-se. Quando a postura em determinado assunto parece estar definida, vem uma eritropoiese eficaz que formula tudo de novo. E a culpa parece nunca ser de ninguém. Nem minha. É biológico, intrínseco. Cultural, até.

Apontar o dedo é confortável. Até a mais agudizada artrite reumatóide é dissipada com este gesto, sem necessidade de recorrer a anti-inflamatórios ou corticosteróides. Terapêutico, portanto. Com benefícios físicos e psicológicos. Sentir que não conseguimos fazer melhor dá-nos livre trânsito para aprumar o indicador e, desordeiramente, mirar o mundo. E sentamo-nos confortavelmente no sofá. Quando superar não está ao alcance, tranquiliza-nos fazê-lo verbalmente. Por norma, sem pudor. Como se este escarnar nos desse a dianteira, quando o simples facto de não tentarmos nos faz partir em último.

Esquecemo-nos, porém, que ao vigorizarmos o indicador, temos outros três dedos descaradamente a apontar para nós, o que nos faz partir ainda mais atrás. Sabendo disto de antemão, é inato virarmos o indicador para nós, de forma a que os outros três dedos fiquem desconjuntadamente voltados para o mundo. Todavia, o indicador encontra-se sempre mais vigoroso e prolongado do que os restantes. Este poder mimetizado, leva-nos imediatamente a voltar a mão para a posição original, deixando os três míseros dedos a apontar para nós. Mas “três” é sempre plural, o que nos leva a voltar, de novo, a mão.

Com esta brincadeira, fiquei com uma tendinite, devido ao excesso de repetições. Uma importante doença ocupacional que me leva a crer que se estivesse a trabalhar, nada disto teria acontecido. Mas aconteceu e, ou muito me engano, ou a culpa não foi minha. Foi do maldito português que escreveu esta crónica, com a mania de que sabe falar de tudo.

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