MODA E BELEZA

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Foi há cerca de dois anos atrás que me deparei pela primeira vez com o trabalho de Alexandre Marrafeiro. Estava à procura de conteúdos para “reblogar” no Tumblr, quando, noutro blog, no meio de publicações que envolviam fotografias de colecções de designers de culto como Raf Simons, Yohji Yamamoto e Gosha Rubchinskiy, “tropeço” numa série de inquietantes imagens de qualidade propositadamente fraca, em que um modelo desconhecido (embora com potencial para desfilar para uma grande marca internacional como a Lanvin) vestia peças extraordinárias que poderiam facilmente ser vendidas em lojas tipo Oki-Ni e LN-CC. Curioso em saber a origem daquelas imagens, fui ver as legendas das mesmas, e qual não foi o meu espanto quando me apercebi de que se tratava de um lookbook de um designer português, o Alexandre Marrafeiro. Nessa altura, ele já apresentava as suas colecções no Portugal Fashion, mais concretamente no Espaço Bloom, contudo eu não fazia ideia de quem ele era. Desde então, passei a estar atento ao seu trabalho.

Actualmente, Marrafeiro trabalha na K L A R, marca que fundou em 2012, juntamente com a sua colega de curso Andreia Oliveira e com Tiago Carneiro. Enquanto o Alexandre e a Andreia se dedicam ao design das colecções, Tiago fica encarregue da direcção de arte. Tal como ainda acontece com imagens de antigos trabalhos de Marrafeiro, os lookbooks, campanhas e fotografias de desfiles da K L A R continuam a ser partilhados no Tumblr, em blogs internacionais geridos por admiradores de designers como Raf Simons (uma das maiores referências deste trio de criativos nacional).

Reconhecendo o valor dos avanços tecnológicos e evitando processos que afectam directamente o meio ambiente, a equipa da K L A R tem vindo a desenvolver para a sua marca uma imagem muito coesa, algo bastante positivo e que infelizmente não é usual na indústria da moda portuguesa, e a mostrar que está atenta ao que se passa à sua volta, apostando não nas tendências do agora, mas nas do futuro.

Como é que vocês os três se conheceram e como surgiu a ideia de criarem uma marca em conjunto?
Andreia – Eu e o Alexandre estudámos juntos e, desde aí, mantivemo-nos muito próximos, mas nunca tivemos vontade de trabalhar juntos. O Tiago e eu namoramos há bastante tempo e trabalhávamos muitas vezes em conjunto. Todos admiramos o trabalho e potencial individual de cada um. O Tiago é o mais pragmático e com a influência dele percebemos que era mais interessante e (neste momento) mais inteligente unirmos as três estéticas e as capacidades de cada um, com o objectivo de desenvolver um trabalho mais completo e profissional. O mote da nossa primeira colecção foi a própria estruturação do pensamento e conceito da marca enquanto produto de design e de evolução ética, uma necessidade de praticalidade. A noção de sustentabilidade e questões mais comerciais.

Porquê o nome K L A R?
Tiago – Inicialmente, a designação K L A R tinha sido para o meu projecto de música. Durante uma noite no Passos Manuel, decidimos reaproveitar K L A R, que coincidia com os ideais e premissas do projecto que estávamos a desenvolver. Precisávamos de uma designação que resumisse de forma prática e sucinta a nossa visão. Evidentemente, o nome é intrínseco ao conceito que queríamos desenvolver, sendo uma palavra de origem germânica que significa clarificação, límpido, distinto, lúcido, consciente.

Descrevam a vossa estética.
Tiago – Casualwear's functionality é a expressão que resume toda a estética da marca. As peças com finalidade utilitária acima de tudo. E temos alguns pontos que se vão repetindo no desenvolvimento do trabalho, palavras que achamos pertinentes, como por exemplo prático, funcional, utilitário, empírico, cuidado e consciente.

Quais são as vossas maiores referências?
Yohji Yamamoto, Raf Simons, Christopher Kane, Haider Ackerman, J.W. Anderson, Stella McCartney, Calvin Klein, Pierre Debusschere, Peter Saville, Constantin Brancusi, Felix Lee, Brody, Modernismo, entre outros.

Na vossa opinião, é mais importante que as vossas peças sejam “vestíveis” ou ricas do ponto de vista conceptual?
Tiago – Os dois pontos. Tudo tem que ter um conceito desenvolvido e consciente em K L A R. Tentamos um equilíbrio pertinente, algo inteligente, não necessariamente básico, nem estupidamente desconfortável.

Durante o processo criativo, quer de uma colecção, quer de uma campanha, vocês costumam discordar uns com os outros? Como é que resolvem essas situações?
Andreia – Discordamos muitas vezes em alguns pontos, mas, por norma, como todos temos o hábito de pesquisar e argumentar as nossas opiniões e compreendemos bem o que se passa à nossa volta, apenas seguimos direcções diferentes para entretanto se misturarem.
Tiago – Cada um defende a sua ideia, discutimos e abordamos os nossos pontos de vista. Eu venho de uma formação em arte e design e eles os dois de moda. De uma forma global, eu desenvolvo mais o aspecto gráfico, o Alexandre homem e a Andreia mulher criam as peças, sendo que muitas delas são unissexo… Portanto, tudo se encontra. Em último caso, vamos a votos, também funciona, embora não se decida nada realmente sem o consentimento dos três.

Quais são as vossas opiniões em relação à indústria de moda portuguesa? Estamos a ir no bom caminho? O que está a falhar?
Andreia – Na nossa opinião, ainda não existe um público que compreenda a moda de forma abrangente, consequentemente não existe um público consumidor que possibilite o crescimento de marcas de qualidade. Não acreditamos que vá existir em breve uma máquina funcional nesta área. Achamos que, por enquanto, é obrigatório apontar as marcas para o exterior. Talvez daqui a várias gerações aconteça algo por aqui. O que está a falhar? Educação.
Tiago – Um caminho lento e penoso, que reflecte a falta de visão e de pessoas a saber o que estão a fazer. Estes factores associados a uma cultura nitidamente viciada fazem desta indústria uma grande celebração do que nunca existiu. Não existe crítica de qualidade e o ensino ainda se encontra numa fase muito prematura relativamente a outras áreas do design. Temos excelentes fabricantes e matéria-prima, mas não temos uma estrutura que nos permita saber se, garantidamente, as coisas vão funcionar.

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