FOTOGRAFIA

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Nermine Hamman trabalha composições imagéticas em que combina fotografia manipulada digitalmente com colagens e pintura. O seu trabalho incorpora influências religiosas, sejam islâmicas ou budistas, e de design gráfico, nunca pondo de parte o carácter político e profundamente crítico que possui.

Nasceu no Egipto em 1967, onde vive e trabalha. Estudou realização na Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, tendo trabalhado com o cineasta Youssef Chahine. Desencantou-se com o cinema e trabalhou durante 20 anos como designer gráfica na sua própria empresa que fechou em Janeiro de 2011 quando decidiu dedicar-se à fotografia a tempo inteiro (embora a sua primeira exposição date de 2001).

Nermine manipula as fotografias da mesma forma que considera que a realidade é manipulada, nomeadamente pelos media. Em muitos dos seus trabalhos, retira os fundos reais que fotografou e constrói novos ambientes a partir de postais antigos, pinturas ou gravuras japonesas. Muitas vezes isto cria um efeito disruptivo, já que as imagens de violência são inseridas em ambientes florais nostálgicos ou montanhas alpinas idílicas que transmitem paz e beleza. Nermine considera, aliás que o belo é violento, porque nos atinge. A artista cria composições que nos parecem absurdas, mas também a realidade é absurda. Principalmente para uma artista do Médio-Oriente. Ela levanta questões precisamente sobre a realidade e a sua manipulação na contemporaneidade. Dando razão aos que dizem que neste início de milénio, toda a arte é, e deve ser, política, Nermine lança um olhar irónico e preciso sobre a realidade que é a sua, a egípcia, mas acabando por questionar também toda a sociedade ocidental e as políticas que defende.

Nermine lança questões universais sobre a nossa humanidade. Considera que somos diariamente bombardeados com imagens terrivelmente violentas às quais vamos ficando progressivamente menos sensíveis e que por isso tem de haver outra forma de chamar a atenção para esses acontecimentos. É o que faz sempre, nomeadamente em Upekkha e Unfolding.

Upekkha (2011) é uma palavra do budismo que designa equilíbrio e calma e é uma das grandes quatro virtudes. Aqui, Nermine retrata os militares durante a revolução egípcia de 2011 que levou à renúncia de Hosni Mubarak. Militares que desceram até à praça Tahrir para se juntarem à população e não para a reprimir. A estes retratos de um exército jovem e bem disposto, munido de armas e tanques, a artista contrapõe paisagens bucólicas e poses descontraídas. Há o desvelar do aparelho do poder como uma encenação coreografada protagonizada por jovens indivíduos que são, afinal, meros peões. Em Unfolding (2012), Nermine retrata a violência policial sobre a população civil que se seguiu a essa revolução popular, utilizando postais japoneses do século XVII e XVIII. Aqui a artista opta por utilizar estes ambientes florais não como fundo, mas sim como recorte das personagens e das situações violentas que mostra. As personagens e situações parecem assim, estar escondidas por entre estas paisagens românticas e só a espaços percebemos a violência do que na realidade estamos a ver. Não se pense que a agressividade é escondida ou suavizada. Pelo contrário, ao olhar atento, ela torna-se ainda mais violenta pois surpreende-nos. Mas, ao mesmo tempo, cria um espaço ficcional e estético entre uma época passada de bom gosto, aprazível e um presente de brutalidade que nos choca. É este espaço que nos impede de nos mantermos insensíveis como quando somos bombardeados pelas mesmas imagens nas notícias enquanto jantamos.

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A questão que Nermine lança é a forma como vemos o poder. O poder é construído (cada vez mais, no presente) através de imagética própria e reconhecível. Ao retirar os soldados ou as imagens de violência do seu contexto natural, a artista leva-nos a indagar se aqueles são os rapazes que queremos mandar para a guerra e se aqueles são os governantes em que nos revemos ou a sociedade em que queremos viver. Ela desconstrói a linguagem do poder e os seus mitos e cria imagens de anti-heróis.

Em muitos dos seus trabalhos a artista usa-se a si própria como modelo, encarnando diferentes personagens, nomeadamente nas séries Alchemy (2011) ou Ma’at (2012). Fá-lo para ser verdadeira consigo própria e para com o espectador. Muitos artistas o fazem pelas mesmas razões.

Nermine é considerada uma fotógrafa, mas o seu trabalho de manipulação e montagem aproxima-a da pintura ou até do design gráfico que tão bem domina. A fotografia, tal como em muitos outros artistas contemporâneos como por exemplo o português Edgar Martins, é um meio que lhes permite expressar a sua obra e a sua visão, mais do que um fim artístico em si mesmo. Até porque algumas das imagens são retiradas da Internet. As suas composições de fotografias com colagens ou mesmo pintura que funcionam quase por camadas em camadas, provocam um efeito irreal e utópico.

Mesmo em Metanoia, a sua série de 2009 sobre um hospital psiquiátrico no Cairo, conhecido como Palácio Amarelo, Nermine manipula as imagens. Não insere os doentes em fundos diferentes, opta por manter o ambiente do hospital onde passou três meses em comunhão total com os pacientes, como forma de denúncia das condições desumanas do hospício, mas trabalha as texturas e cores das imagens.

Hal Foster considera que a fotografia como uma técnica analógica acabou e que a sua manipulação digital põe em causa o estatuto físico da imagem. Considera ainda que os atributos que normalmente associamos à fotografia permanecem naturais o suficiente para detectarmos qualquer alteração digital que pareça disruptora, O trabalho de Nermine Hammam serve perfeitamente este paradigma.

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