MÚSICA

  • none
  • none
  • none
  • none

Fotografias: Paulo Furtado.

Foi sob a curadoria de Paulo Furtado, em conjunto com o Musicbox, que na passada quinta-feira pudemos assistir a uma noite folk-rock. Sim, esse género musical que, a par com a psicadelia, anda a despertar atenções de muita gente e consequentemente das editoras. A palavra de ordem em relação à folk, ou pelo menos é esse o conselho que dou como curiosa, é "escavar"! Quando se pensa que o Dylan e a Baez são os melhores é porque ainda não sujaram muito as mãos.

A banda a quem coube mostrar o quão trabalhoso pode ser espremer o sumo das bandas folk das décadas de 60 e 70 foram os Beautify Junkyards. O sexteto liderado pelo ex Hipnótica João Branco Kyron, lançou o ano passado um álbum muito bem composto do ponto de vista formal e, paralelamente, muito sumarento do ponto de vista de conteúdo. Há muitos pontos a favor desta banda: primeiro são óptimos multi-instrumentistas, o que ajuda tendo em conta a complexidade de sons de que estamos aqui a falar. Segundo, é difícil encontrar vozes que se encaixem tão bem como a de João e Rita Vian. Só aí, o desafio de dar nova roupagem a nove temas que vão desde Linda Perhacs a Kraftwerk já está practicamente ganho!

TeachmeTiger-5

E se o álbum é encantador, o concerto no Musicbox também o foi. Muito pouca gente para ver os Beautify Junkyards e bizarro o facto de o single que saiu também o ano passado pela editora inglesa Fruits de Mer estar esgotado na fonte. É enternecedor ver as críticas que os Junkyards tiveram fora de Portugal e ainda mais enternecedor é ouvir ao vivo a versão Space-Folk que fizeram da música Que o amor não me engana, original de Zeca Afonso. Houve folclore português no ar, mas o folclore na realidade é um denominador comum a todas as culturas. E se as culturas podem ser tão díspares e o calor que nelas se faz sentir também, porque não dar a Fuga nº 2 até ao Brasil para aquecer os corações dos poucos presentes hipnotizados com a versão dos Mutantes? Poderia ainda falar de Bridget St. John ou de Roy Harper, de folk pastoral, dos britânicos em contraponto com os nomes da Greenwich Village ou da Califórnia mas prefiro falar dos Kraftwerk. O Radioactivity foi das versões mais bem conseguidas que ouvi nos últimos tempos e a prestação ao vivo fez jus ao que podemos ouvir no álbum.

E pegando na ideia inicial de "sujar as mãos", os Beautify Junkyards abriram portas ao britânico e obscuro da Folk Nick Garrie. O senhor lançou em 1969 o álbum The Nightmare of JB Stanislas que, como tantas centenas de discos (normalmente de prensagem privada ou limitada), caiu no esquecimento. O ataque que Garrie fez aos temas durante o concerto foi humilde (apenas com guitarra e voz), despretensioso e com muito storytelling à mistura. Ele sabe que poucos mais para além da sua mãe ouviram a sua música e deve ser gratificante, quarenta e cinco anos depois, saber que muitos mais a ouvem por estes dias. Desde os Camera Obscura ao Jacco Gardner (ambos já partilharam palco com Garrie), muitos são os que se benzem quando se cruzam com esta obra psych folk.

TeachmeTiger-7

Mas o Homem Tigre foi ambicioso. O Homem Tigre arriscou. O Paulo deu-nos duas noites Teach me Tiger de mão beijada e nós, os mortais do Rock, não as soubemos aproveitar. A segunda noite pode ser encarada como um estudo de caso. E vamos começar por pôr as coisas nestes termos: à meia noite fui para o Musicbox e disseram-me à porta que estavam duas pessoas lá dentro. Fui dar uma volta, passados vinte minutos estavam cinco! A uma Sexta-Feira à noite? Meus caros, só fez falta quem lá esteve. Os catalães Tokyo Sex Destruction abriram o concerto a matar. Bandas que mandam estaladões na primeira música, das duas uma: ou não têm mais nada de jeito para tocar ou então vão dar a "hell of a show" e aqui, aplica-se alegremente a segunda premissa.

Os Tokyo Sex Destruction fizeram os 635 quilómetros (em linha recta) que separam Washington DC de Detroit parecessem rigorosamente nada. Para os fãs dos sons da Motor City, tivemos garage punk, poderio MCFiveano e Iggy Popiano. Da capital chegou-nos a dialética Marxista dos "muy hermosos" Make Up, mas também muitos espasmos musculares dos Fugazi. Aposto que se o Musicbox estivesse cheio de "pessoal do rock and roll" rapidamente estaríamos expostos a um concerto à la Minor Threat.

TeachmeTiger-6

Mas os catalães não foram a única pérola da noite. O Homem Tigre estava em modo natalício e, apesar de tanto apregoar o "Fuck the Christmas", ofereceu-nos mais dois DJ's até às 07h da manhã. Iñigo Pastor, o tipo que concebia fanzines em 1983 e começou a editar discos de vinil em 1987, que idealizou a Vampi Soul e a Munster Records (esta última responsável por editar em 2001 um sete polegadas dos portugueses Les Baton Rouge e também o Naked Blues do Legendary Tiger Man em 2002) esteve lá para mostrar que não é por acaso que é considerado um dos maiores conhecedores mundiais de garage, punk, rumba e tudo mais que possam imaginar. Estavam lá meia dúzia de entendidos... os outros todos que não marcaram presença não fizeram falta porque a sala entretanto encheu e as pessoas que foram lá ouvir música electrónica deixaram-se levar pelos ritmos quentes que Iñigo Pastor imprimiu à noite.

Igualmente quente foi o set do A Boy Named Sue, que soube melhor que ninguém agarrar os presentes à pista com os suas obscuridades vinilescas em consonância com clássicos indiscutíveis do rock. Querem melhor que isto?

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: