DIÁRIOS DO UMBIGO

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Ainda que com a chuva que cai lá fora, hora perfeita para o regresso, a abrir portas e janelas e arejar os cantos à casa.

Mas descansem os que pensam que vou agora tecer considerações sobre fraldas, biberons e babetes cor-de-rosa. É exactamente por passar os dias deliciosamente envolta num mundo de diminutivos fofinhos, felicidade pueril e açucarada sobriedade que o rock n’ roll mais sombrio e sensual acaba por ter lugar de destaque nos meus corredores.

E, em 2014, rock n’ roll aqui em casa é sinónimo de Keep Razors Sharp, banda que se estreia com uma tal certeza de acordes e uma tal negritude brilhantemente incandescente que já nem consigo dizer que é nova.

Keep Razors Sharp, o primeiro bébé de Afonso, Rai, Bráulio e BiBi é um caldeirão onde as referências de quatro rapazes de refinada educação musical (e não só) são temperadas com doses certas da originalidade e talento de cada um.

Como o saving best for last parece aqui não ser o lema – e ainda bem – o álbum abre num crescendo magnético com cinco temas que bem que podiam ser um tratado sobre as últimas quatro décadas da música que interessa feita com guitarras.

Da psycadelia adulta pós 60’s, ao shoegaze, passando pelo indie pintalgado de pós-rock, tudo pode ser reconhecido em The LionessI See Your FaceBy The Sea9thWaiting Game. As camadas de voz com os efeitos na proporção ideal, as duas guitarras em criativa dialética, o calor do baixo que parece que vem de dentro e a bateria que marca a cadência de um trabalho que se quer desfrutado com o corpo todo asseguram que nada aqui soe datado ou decalcado.

O percurso continua com subidas e descidas quase todas em espiral com Cold Feet a garantir um disparo estratosférico e Scars and Bones a trazer-nos gentilmente de volta à terra.

Num esforço quase nulo que nos dá a sensação de que podiam fazer álbuns destes todos os dias, o resultado deste primoroso trabalho de estreia é mercurial, sinuoso e perigosamente atraente.

Um disco que nos leva numa dançável e por vezes desgovernada viagem de wishful thinking por entre maldades e pecados, daquelas que bem que podiam terminar no estreitar de amizades "mezcladas" no deserto mexicano.

Os Keep Razors Sharp mais do que cortar fundo, cortam fino.

A elegância rock, despretensão e à-vontade que demonstram ao passear-se por uma mão cheia de estilos provam que têm neles enraizado, e que deles brota, o que muitos tentam sem nunca lá chegar. O carisma rock n’ roll, mais do que qualquer outro, ou está lá ou não está. E disso, como tão bem eles dizem, “you run but you can hide.” E os Razors não têm nada do que fugir nem do que se esconder. Venha de lá o 2º bébé. O deles.

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