MODA E BELEZA

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A Umbigo esteve em Paris e entre as várias maravilhas de moda que a rua Faubourg St Honoré oferece, descobrimos uma loja surpreendente de Pierre Cardin. Entrámos e foi difícil esconder o espanto ao descobrir que afinal este criador ainda está dinâmico e fresco em seu estilo futurista desde os anos 60 até agora. A boutique parecia uma cápsula do tempo, mas também apresentava muitas novidades e algumas peças bem ousadas para homem e senhora. É aqui que se encontra a sua colecção de alta-costura, coisa que em Portugal não se vê há mais de três décadas. Aliás, a marca surpreende muitas das pessoas que por ali passam pois a sua produção é exclusiva e mesmo os desfiles são realizados à maneira antiga, apenas para clientes seleccionados, imprensa e buyers.

Quem nos atendeu foi Marise Gaspard, a sua musa e modelo Pierre Cardin na década de 60, uma senhora belíssima, de porte altivo e extremamente simpática. Foi assim que descobrimos que a marca Pierre Cardin se mantém activa. Descobrimos também uma outra parte do império da sua marca que vai muito para além dos produtos licenciados, como toalhas, gravatas, carteiras e muitos outros objectos. Pierre Cardin possui ainda um museu dedicado à sua carreira nos arredores de Paris, assim como o restaurante Maxim's, antigo cabaré em estilo Art Nouveau, um barco que faz passeios sobre o Sena, o Espace Pierre Cardin que alberga exposições e eventos culturais, uma galeria de arte e design de mobiliário... Uma multiplicidade de espaços e ideias que não deixam parar este representante da moda parisiense mais futurista. Estivemos à conversa com Pierre Cardin no seu escritório, mesmo por cima da boutique.

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Só depois de termos feito a nossa pesquisa em casa para nos prepararmos para esta entrevista é que reparámos no tamanho do seu império e em todos os prémios que conquistou ao longo da sua vida.
Aah pois, vocês não vêem então as minhas coleções em Portugal? Então ficaram surpreendidos não? Sim, todas as criações que viram fui eu que desenvolvi e esta é a importância da Maison Pierre Cardin. Estamos numa instalação com três mil metros quadrados, num edifício de sete andares. São poucas as marcas existentes que podem trabalhar num espaço destes. Temos teatros, barcos, fazemos peças de mobiliário...

O que acha do facto de as pessoas não conhecerem este lado da marca?
Nós apresentámos, faz muitos anos, uma coleção no Hotel Ritz em Lisboa. Acho eu. Mas já foi há muito tempo! Há uns 30 anos... Eu conheço Portugal, Sintra, Nazaré. Conheci todo o país quando tinha 30 anos.

Gostávamos que nos falasse sobre a marca Pierre Cardin e a filosofia por detrás da mesma.
Eu tinha uma filosofia muito provocante e difícil para a época porque comecei logo com uma coleção de Prêt-a-Porter. Comecei a trabalhar com Christian Dior, onde fiz 50% do seu newlook. Todos os tailleurs e casacos, fui eu que os fiz. Três anos depois comecei a construção da minha casa, Maison Pierre Cardin e tive um enorme sucesso. Tinha vinte e poucos anos quando estava na Dior e uma vez disse-lhes que a haute couture não iria durar a nível social. Então com essa idade comecei a fazer prêt-a-porter mas continuei a fazer haute couture ao mesmo tempo. Isto trouxe-me uma garantia social e financeira. Porque se não, tinha feito como os outros. É muito caro manter uma casa de haute couture. Quando se ganha algum lucro, perde-se logo a seguir, porque temos que recomeçar e fazer uma nova colecção! E então eu pensei que tinha de conseguir dinheiro garantido e seguro suficiente para manter a minha Casa e o meu staff.

Quando saiu da Dior,  inventou um estilo completamente  diferente…
Sim, eu admirava Dior, mas quando saí, apercebi-me de que tinha que fazer uma colecção Pierre Cardin. E então fiz algo diferente da Dior. No meu museu pode ver o último modelo que fiz com influência Dior e depois o primeiro modelo feito por mim para a Maison Pierre Cardin. A diferença é enorme! Enorme!

Nos anos 50, estas propostas de moda eram muito vanguardistas...
Eu sempre fui muito vanguardista! O que eu fazia há 50 anos ainda faço agora, é muito contemporâneo. Coisas muito excêntricas. Roupas futuristas.

O Pierre serve de inspiração para muitos criadores hoje em dia.
Sim, principalmente para os jovens criadores! Tenho uma influência muito grande junto deles porque eles não conheceram o início. Fui a única pessoa no mundo que vestiu o fato espacial usado por Neil Armstrong.  Foi quando eu era manequim. Eu fui manequim no início da minha carreira...

O que quis mudar na moda?
Na moda eu queria ser popular, enquanto todos os outros eram couture. Eu vi a mudança na sociedade, as mulheres ricas queriam vestir-se como operárias. Antes, todas as empregadas queriam vestir-se como as suas patroas, agora é ao contrário! Porque as mulheres agora trabalham. Tinha que pensar no factor popular.

Certo, mas as suas roupas não são acessíveis a toda a gente…
Mas toda a gente as pode usar. Já no início as minhas criações eram caras, e eram haute couture, mas eu chamava-as de prêt-a-porter.

E actualmente…
Actualmente eu continuo dentro do processo criativo, sempre! Como existiria eu se não estivesse sempre a criar?

Tem relações com alguns artistas contemporâneos? Chegou a criar roupa para algum em particular?
Sabe, eu vesti imensa gente pelo mundo fora, todo o tipo de artistas, sejam francesas, americanas, inglesas... Vesti rainhas, embaixadoras... Eu visto quem eu quero.

Também pode ser considerado um artista, pois criou objectos que são esculturas e que ao mesmo tempo podem ser peças de mobiliário.
Sim, eu fiz de tudo, fiz chocolates, vinhos, champanhe, água mineral, perfumes. Tenho mil produtos.

Inspira-se nos jovens para criar?
Não importa a idade, sejam jovens, ou mais velhos. Eu trabalho para as mulheres que sabem vestir-se e andar. Não para as mulheres vulgares.

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Como define a mulher Pierre Cardin?
É a mulher que trabalha, que usa saias, mas não aquelas travadas, não são confortáveis, ninguém usa esse tipo de saias para trabalhar, são muito apertadas. É preciso saias e roupas livres. Uma nova concepção da moda, roupas práticas, modernas.

Como vê a haute couture de há 30 anos, e a de agora?
As minhas coleções sempre foram fiéis a mim, sempre foram Pierre Cardin. Nunca fui de me inspirar em estrelas de cinema, peças de teatro, museus ou na história do traje, ou mesmo pinturas. Eu conheço, sei o que se passa por aí, é preciso saber. A minha cultura é muito vasta, eu viajei imenso, fiz muitos figurinos para filmes ou peças de teatro. Se eu vir num museu que há uma saia com um corte assim, eu  não vou fazer igual. Eu inspiro-me no meu subconsciente, nos meus sonhos. Tenho mais de 60 anos de carreira e agora a história é outra.

No que toca a perfumes, criou perfumes excepcionais nos anos 80 e 90.
Tenho 18, meus. Todos criados por mim em colaboração com perfumistas!

Gostávamos que nos falasse da criação dos perfumes.
O primeiro foi Cardin de Cardin. Quando faço um perfume, começo sempre pelo nome, depois o frasco e finalmente o “sumo”. Falo com os perfumistas e digo que quero algo fresco, ou algo que cheire a madeiras, ou água do mar. Inspiro-me em coisas que sinto.

Todos os frascos são um bocado sexuais...
Sim, eu inspiro-me na vida e na forma humana.

O que acha dos perfumes que a Coty fez, uma vez que eles detêm agora a licença dos perfumes da marca?
Sabe, eu sou proprietário dos meus perfumes. Não é como os outros que têm sociedades, tudo me pertence! Tudo o que vem com o meu nome, é meu. Quando faço algo, eu não pergunto aos outros se gostam ou não. Tem que agradar a mim em primeiro! Os meus licenciados não têm nada a ver. Toda a criação é muito pessoal.

Tem um grande império espalhado pelo mundo, era esse o seu objectivo?
Não, eu não posso comer duas vezes mais que os outros. O que me interessa é criar.

As suas criações são intemporais, podemos usar colecções de há 30 anos e e elas continuam bastante modernas e actuais.
Sim, é tudo muito moderno. Eu agora visto-me de forma mais clássica porque estou mais velho, mas se tivesse a vossa idade, mais novo, não me vestiria assim. As roupas nas lojas são diferentes mas são clássicas. É muito difícil estar actual, ser moderno e vender. Mas para criar uma reputação, é ideal.

Sente-se fora do seu tempo?
Não, estou sempre com os jovens. Os jovens adoram-me, porque não sou clássico, não sou burguês.

Qual é o futuro para a marca Pierre Cardin?
Continuar a fazer o que sempre tenho feito. Evoluir.

Evolução, é a palavra-chave?
Sim, Evolução da vida. Não se pode parar. Faço coisas modernas, mas pessoais. Não copio. Sou uma pessoa que continua na mesma linha de pensamento.

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