DIÁRIOS DO UMBIGO

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Já fez um pouco de tudo, mas é formado em jornalismo pelo CENJOR. Começou no jornal A Capital e saiu pouco antes da publicação fechar, impulsionado pelo desejo de trabalhar numa redacção noutro ponto do globo. O destino foi a Folha de S. Paulo, onde esteve durante seis meses, mas com o qual nunca quebrou o vínculo, até hoje.

Regressado a Portugal, foi colaborador do Diário de Notícias durante dois anos até ser levado novamente para fora do país, deste vez rumo ao Opinión de Granada, onde trabalhou durante um ano.

Algures no meio das idas e vindas, descobriu na máquina fotográfica uma extensão natural do seu olhar de jornalista e, hoje em dia, é o seu principal meio de comunicação.

Encontramo-nos no Intendente, perto das ruas onde já andou “perdido”, de máquina na mão, a captar aquilo que mais lhe interessa: a naturalidade da vida e das pessoas. Por hábito ou por instinto, gosta de desconstruir imagens, especialmente as que têm uma dose extra de glamour.

Fala-se de passagem num artigo do Ípsilon sobre a nova população do Intendente, os hipsters. Sem qualquer pretensão de contrariar esse ponto de vista, mas afirmando uma experiência pessoal, diz que nestas ruas encontrou uma noção de verdade na vida dos emigrantes. “Pessoas que vão às compras, que passeiam com os filhos, coisas reais”, diz.

Foi também este lado real do dia-a-dia que procurou captar no projecto Maria Bicicleta, feito em parceria com a jornalista Laura Alves. Ao longo de 20 semanas, recolheram o testemunho de 20 mulheres. Todas elas usam a bicicleta (um amor comum de Laura e Vitorino) como meio de transporte diário em Lisboa. Laura conduzia a conversa, Vitorino fotografava, ambos com o objectivo de explorar e revelar o lado feminino do ciclismo urbano como algo orgânico e espiritual – na relação das mulheres com a bicicleta, mas também com a cidade quando vista e sentida neste meio de transporte.

O carácter documental de Maria Bicicleta é comum ao seu mais recente projecto, desta vez a solo. Light & Sea é aparentemente mais artístico, mas os retratos que lá encontramos têm uma essência próxima do fotojornalismo. É a estética em função (ou em consequência) da humanidade e não a humanidade em função da estética.

No fundo, o que se passa em Light&Sea não é mais do que uma entrevista conduzida e fotografada pela mesma pessoa. Sempre à beira rio, Vitorino Coragem fala com os retratados, descascando as camadas da cebola até captar, com a câmara, as expressões mais genuínas. “Na fotografia, interessa-me acima de tudo o rosto, a cara das pessoas. Gosto muito de cicatrizes, de rugas. Gosto de desmontar o olhar”, diz.

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É uma relação a três – o fotógrafo, o retratado e a máquina. De um lado, a empatia gerada durante a conversa, do outro, a relação muito específica que cada pessoa tem com a câmara e com a sua própria imagem. A última camada da cebola cai no no momento em que a máquina se funde com o fotógrafo e se dilui no ritmo da conversa.

Pela lente de Vitorino Coragem já passaram nomes tão variados como a fotógrafa Estelle Valente e os músicos Rita Redshoes, Tó Trips e Joaquim Albergaria. Sejam mais ou menos conhecidos do público, Vitorino admira em todos a coragem e a disponibilidade para se exporem assim, sem grandes artifícios. As fotos, inicialmente registadas em formato RAW, têm pouco ou nenhum tratamento posterior. “Apenas alguns toques a nível de luz”. Tudo em função da tal naturalidade que procura com este projecto e sempre que pega na máquina para fotografar.

Esta viagem documental à beira do Tejo ainda não tem data de término. Tem várias pessoas na lista e é também contactado por outras tantas, motivadas pela qualidade do trabalho apresentado e, se calhar, pelo desafio desse confronto com a imagem.

Paralelamente, não fecha a porta a outros projectos, sejam eles quais forem. “É muito redutor achar que vais fazer só uma coisa o resto da vida. Acima de tudo, se calhar, sou um pessoa que gosta de criar e de se reinventar. Tenho uma necessidade constante de me redefinir e de me tornar melhor pessoa, se assim quiseres”, afirma.

O olhar de jornalista, diz, é transversal a qualquer linguagem e a qualquer actividade que exerça. É uma forma de estar na vida marcada pela curiosidade, pela procura de dimensão e verdade.

For whatever we lose (like a you or a me)

it’s always ourselves we find in the sea

E.E. Cummings, maggie and milly and molly and may

Vitorino Coragem – vitorinocoragem.com / facebook.com/vcoragem7

Maria Bicicleta – mariabicicleta.com

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