NOTAS SOLTAS

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Física Quântica e os braços da sala de estar

Quando acabámos a sessão falámos de física quântica. Sentámo-nos numa cadeira à espera de boleia. A Anabela explicava-me as teorias sobre corpos em movimento e de como estamos todos interligados no que projectamos. Começámos o retrato pelas linhas da mão dela. E da ilusão que são as mulheres piscirianas ( “pois dizem que noutra vida morremos na fogueira como bruxas”).

Shape shifters que se vão diluindo nas pessoas e no espaço que as acompanha. Falámos também do peso de Vickie e da leveza como o mundo se esqueceu destas personagens secundárias que Joyce Johnson um dia mais tarde gravou em escrita. O mundo só teve memória para os mitos que criou, parece que as coisas simples deixaram de fazer sentido. Uma vez mais, pouco ou nada se sabe de Russell. Descrevem-na como um magnete de homens e mulheres que havia fugido das suas raízes penosamente conservadoras para semear liberdade num casebre em S. Francisco.

Força do vício em bezendrina levaram-na a sustentar-se como call girl. A ocupação deu mote para o cliché da sessão. Queria aproveitar o nevoeiro holográfico da Anabela; aquele tipo de intuição no agir e no estar que poucas vezes é presenciado. Criou-se um mise en scéne branco sem nada de característico. Aquela casa poderia ser outra, a mulher não. Ela recriava uma larga sala de estar, a de Joan Volmer. Era a novidade de Burroughs, um retrato no quarto de Ginsberg e a musa de Little Jack, um pintor fura-vida.

Todos juntos roubaram uma vez um carro por sugestão de Vickie, o que haveria de resultar na visita de Allen até à ala psiquiátrica de Rockland, na qual conheceu Carl Solomon e escreveu Howl. Vickie desapareceu depois deste feito, ressurgindo como fina camada de nevoeiro. Um apontamento nas memórias de Herbert Huncke e nas nossas. Podemos pensar nas personagens secundárias como o gatilho de uma acção ou como a acção em si. Certo é que Vickie era todo este espaço de recreio, de revelação e de procura. Os braços na poltrona, a anima do jogo de cadeiras. Da mesma forma, Anabela traduziu bem estas linhas finas da abstração da realidade. Centrou-a em si mesma e depois desapareceu num vestido florido de uma manhã de Verão. Como foi e como tinha que ser.

bg

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