MÚSICA

  • none
  • none
  • none
  • none
  • none
  • none
  • none
  • none
  • none

Fotografias: Vera Marmelo.

Ao terceiro dia de Out.Fest e citando uma das primeiras pessoas que encontrei mal cheguei ao Grupo Desportivo Ferroviários do Barreiro: "Então, vieste ao Rock e à amiga?". A minha resposta foi: "Sim"!

Sim porque há dez anos que existe Out.Fest e a organização consegue a proeza de nos oferecer um festival que tem Rock e que ultrapassa descaradamente os limites do mesmo, escarafunchando na história da música contemporânea e adejando o Jazz e a "outside music" sem qualquer tipo de pudor. A esta equação juntemos a familiaridade que se sente no recinto que acolhe o festival, livre das luzes néon da publicidade. Outrora, os "Ferroviários" eram sede de encontros de operários, sindicalistas e "pessoal braçal" que ergueram o pólo industrial às portas de Lisboa à custa de muito suor. No entanto, no dia 4 de Outubro, foi sede de um público com sede de fabricações musicais que fogem totalmente aos pré-conceitos da indústria musical. Construir para depois desconstruir...

O Barreiro não é assim tão acessível a partir de Lisboa, daí ser um micro-clima urbano. Ou se vai via Ponte 25 de Abril, de barco ou para os mais ousados, a nado. Eu decidi ir de barco, mas quando se faz por perder um, tem de se esperar uma hora pelo seguinte. Daí ter perdido os "queridos" do catálogo Cafetra, os Putas Bêbedas.

Seguiram-se os norte-americanos Magik Markers. Fãs assumidos de Sonic Youth, foi ao lado destes que em 2004 encetaram uma tour norte-americana e também se tornam mais visíveis aos olhos do público e imprensa sónica. No concerto mostraram a garra punk por vezes desnorteada e tensa. Uma espécie de ataque epilético sob vigilância médica. O quarteto conta com Pete Nolan na bateria, que não falha para dar liberdade à vocalista/guitarrista irada Elisa Ambrogio nas suas deambulações líricas.

Mas o Out.Fest também se fez cá fora. Os proletários do Rock esperaram no terraço ou no bar por algo que indiciasse o início do concerto dos alemães metalúrgicos Faust. A sala escurece, a banda aparece e é pedido por Jean-Hervé Perón que se feche a porta que dá acesso o bar e se faça silêncio. O público respeitou. As programações tomam lugar com um spoken word a condizer e sob as ordens do maestro Werner "Zappi" Diermaier, aquilo que são trechos musicais oblíquos tornam-se gradualmente concisos e ritmados, algo que só se constrói com pulso forte, aquele tipo de pulso que caracteriza os Faust do primeiro álbum de 1971.

Músicos locais, trabalhadoras da indústria têxtil (a tricotar em palco) e um artista plástico deram o seu contributo aquilo que a uma dada altura não passou de uma performance. O Saxofonista convidado esteve à altura do acontecimento, talvez pela soltura do seu instrumento, sobressaíndo contornos de Free Jazz mesmo quando era a betoneira a querer brilhar. Viram-se olhares perdidos no palco quando se tratava de obedecer ao fio condutor e comparando com o concerto dos Faust em 2010 no Teatro Maria Matos, devo confessar que faltou um James Johnston (também Gallon Drunk e que por coincidência já tocou ali mesmo, por altura de Barreiro Rocks) para dar um rasgo de consciência a um concerto que esteve nalguns momentos um pouco à deriva quando há tanto Out.Faust Krautrockiano para tocar.

A surpresa da noite, vinda directamente do país que vive abaixo do nível do mar, a Holanda, mereceu os créditos de fechar a noite. O Punk Anarca e talvez até um pouco sindicalista que caracterizou os The Ex em início de carreira vale-lhes de muito agora que são madurões e rodados nas lides do Rock. De outra forma era dífícil chegar ao som que os define hoje em dia. O tempo deu-lhes maturidade para conseguir fazer cruzamentos entre Stray Cats e Canned Heat, trazer os Fugazi de Washington D.C. ao Barreiro e juntar a família No-Wave Nova Iorquina para um alegre convívio! Arrisco dizer que até os Tuxedomoon vieram à baila.

A coesão do grupo sentiu-se até no bar dos Ferroviários, como se de uma família saudável se tratasse. A baterista "matriarca" desde 1984, Katherina Bornefeld, foi de uma competência infindável, a marcar os seus poli-ritmos de uma forma invejável e a retomar a história que não pertence tanto ao ocidente mas à África Subsariana. Acrescentando a isso, tivemos muitos coros na linha Punk/Pós Punk (a porem em dúvida as cordas vocais das saudosas Raincoats), três guitarristas em que um matava e os outros dois esfolavam com as suas respectivas guitarras barítono. O público atento, respondeu com os aplausos que os The Ex fizeram por merecer e já com as luzes acesas sorriu porque sabe que para o ano há mais.

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: