DIÁRIOS DO UMBIGO

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As viagens por mar são longas. Do porão, a linha do horizonte aparece – uns dias mais nítida, que outros. Um linha horizontal que divide onde se vive e/ou se viverá. Perguntas-me, embalada pelo Atlântico, hoje calmo e ainda longe do mar da Travessa, o que acho eu sobre linhas horizontais? Respondo-te que nunca pensei em linhas assim tão horizontais. Vivemos num sítio onde tudo parece nivelado, à distância, pelo horizonte marítimo. Que é uma espécie de segurança sempre presente no subsconsciente. Tu, afirmas que, um tsunami, de quando em vez, não faria mal a ninguém.

Por entre os nós desta conversa altera-se a paisagem. O horizonte é interrompido. Não é uma tempestade, uma vez que o vento que habitualmente as anuncia não se sentiu. O horizonte continua lá, mas, de repente, naquela madrugada a bordo do pequeno cruzeiro, a interromper aquela linha, surgem ilhas. “Terra à vista!”

Assim de repente, num primeiro plano: três ilhas. Uma mais pequena, parece uma formação rochosa em forma de mesa e com uma espécie de planalto na sua parte mais elevada. Soubemos, mais tarde que lhe chamaram “Ilhéu Chão”. Não está sozinha: ao seu lado a Deserta Grande e do Bugio. Não há sinal de vida humana ali.

Num segundo plano, parece-nos um “gigante” de cores castanho e verde.  Um rochedo gigantesco no meio do atlântico. Será ali que repousa do Adamastor?

A viagem continua. Aproximamo-nos deste “Adamastor”. O horizonte deixou de ser uma linha horizontal. Vemos terra pontilhada de verde e pontos brancos que à medida que nos aproximamos vão mudando de cor, tornando-se mais nítidos. Chegamos à costa sul daquela grande ilha. De repente tudo se torna gigante. Há casario, estradas, aeroporto, automóveis. Tudo numa correria que cria uma dinâmica que contrasta com a suposta monotonia do horizonte estático.

Aportamos e, ao sentir os pés na terra, julgamos que a viagem de férias foi interrompida. Tentamos adiar esse fim e viramos a norte. Passamos por estradas, atravessamos pontes, viadutos e túneis como se fugíssemos daquele súbito regresso a terra. Inventamos estradas, em dez quilómetros que nos levam acima dos 1000 metros para logo seguir descer em direcção à altitude zero.

Chegamos ao norte. Aqui também há vida humana. Mas uma vida diferente. O nosso lado de seres contemplativos volta à superfície… voltámos a ter tempo para aquela linha que nos tinha acompanhado na viagem de barco. Pelo caminho percorremos caminhos que nos levam por uma das florestas mais antigas do mundo com espécies que só existem ali, lagoas, quedas de águas, precipícios para o mar. Tudo em tons de verde e com o som de água. Do lado da terra é água doce e fria que a Laurissilva produz (gota a gota) que se ouve cair e correr pelas levadas ou ribeiras. Um som omnipresente por onde quer que se ande. Ali ao lado, as correntes do Atlântico aproveitam para descansar nos areais de calhau preto.

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