• none
  • none
  • none

Um graffiter que explora outros territórios artísticos

Encontra-se no MUDE uma exposição individual sobre a obra de André Saraiva (n.1971), sendo uma mostra diferente do habitual, tanto no plano do conteúdo temático como na sua forma de apresentação dado o ambiente criado nos espaços do Museu do Design e da Moda, sob a curadoria de Bárbara Coutinho e do próprio criador, não se trata de uma exposição de graffiti nem de uma retrospectiva de homenagem ao autor. Trata-se simplesmente de uma selecção de trabalhos e objectos (cerca de 200) do universo do artista dos últimos vinte anos que marcaram a sua carreira. Estão assim representados novos territórios e múltiplas expressões artísticas (instalação/escultura, pintura, graffiti, serigrafia, cartaz/poster, edição, vídeo, curtas-metragens e filmes) que surgem de forma complementar de modo a sublinhar a área do desenho, como esfera principal do seu saber.

A. Saraiva é francês de origem portuguesa, nascido na Suécia, vive em Paris e Nova Iorque (duas cidades favoritas), não é muito conhecido entre nós, tendo porém sido reconhecido internacionalmente durante os anos 90 com a criação da personagem Mr. A. Esse desenho esquemático é habitado em diferentes contextos, seja em graffitis nos murais, nas empenas de edifícios, em espaços devolutos, estações de metro, nas peças escultóricas (em caixas de correio amarelas e em esferas), seja em sinais de trânsito e em composições, sendo objectos essencialmente com uma componente estética.

Mr. A é um desenho gráfico de um boneco criado e inventado por André, sendo um personagem alegre, enérgico, longilíneo, de cabeça redonda, de sorriso rasgado, um olho em bola e o outro em X, de pernas lineares e compridas. É uma forma quase obsessiva, funcionando como se fosse um duplo, um alter-ego que o acompanha permanentemente nas suas aventuras em tudo o que realiza, constituindo uma espécie de tag com a sua marca pessoal. Graffiter desde a sua adolescência é considerado um dos mais notáveis writers, sendo na actualidade uma das figuras cimeiras da street art.

Please activate Easy Media Gallery Pro license key. You can activate here

"Sempre soube que queria contar histórias pelo desenho"

As latas de spray foram o primeiro material que utilizou, começando a trabalhar em graffiti em 1985 nas ruas e nas paredes da cidade de Paris. Actualmente continua a usar o mesmo material mas o espírito transgressor do graffiti ficou na rua. O artista diz que a transgressão é para a rua, isso não significa que tenha deixado as ruas, onde continua a deixar a sua marca através dos Love Graffiti. Foi e ainda é um artista de rua, nunca perdendo uma linguagem gráfica, a sua escrita de origem.

Na exposição emprega técnicas do graffiti mas sem ser graffiti. É um exemplo de como a linguagem marginal, irreverente foi sendo apropriada pelas instituições. As suas peças transformaram o MUDE numa proposta criativa onde mistura o real e a ficção, trazendo para o interior a noção de arte através de uma linguagem com um sentido lúdico e divertido numa contaminação entre o lado erudito e a leitura pop do pós-modernismo.

A exposição foi pensada como uma grande instalação. Este aspecto é particularmente notório na criação de uma dezena de esculturas de médio porte, edifícios luminosos cor-de-rosa com néon envolvidos numa atmosfera densa e escura, que recria o ambiente de uma discoteca, baseada nos seus desenhos de cidades e clubes nocturnos night clubs cheios de fantasia, fazendo lembrar o Empire State Building, outro projecto marcante do autor.

Outro sinal a relevar é a inserção de desenhos genuínos grafitados ao longo das paredes descarnadas do espaço interior museológico que os acolheu de uma forma soberba dadas as características do espaço próprio do MUDE, como se estivesse pronto para entrar em obras de restauro e recuperação.

Podem também ser vistos os seus objetos preferidos e referências artísticas – livros, fotos de graffiti, pares de sapatos de ténis personalizados e o documento da 1ª multa por ter grafitado um lugar público – arrumados no interior das vitrinas desenhadas em 1948 pelo Arq. Jorge Segurado, que vieram do Museu de Arte Popular. Estão também encostadas às paredes sete pranchas de surf que o artista tenciona pintar posteriormente.

Please activate Easy Media Gallery Pro license key. You can activate here

"Isto é um sonho, voltar a Portugal e criar um mural desta dimensão. Sempre quis pintar em azulejo"

Umas das maiores atracções é a concepção do desenho a preto e branco de um extenso painel mural work in progress, numa re-invenção em técnica de azulejo que irá ser concretizado no jardim Boto Machado, junto à Feira da Ladra. Antes do fim da Exposição uma parte desse projecto poderá ser observado. O tema irá versar uma síntese das cidades de Lisboa, Nova Iorque e Paris, numa mistura de um artista que já não se sente "de nenhum lugar", por estar constantemente a correr o mundo.

ARTIGOS RELACIONADOS

Arte

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: