MÚSICA

  • none
  • none
  • none
  • none
  • none

Fotografias: David Polido.

Um Freud no bolso e um Magnum na mão.

Psychic TV, sensivelmente a meio e uma necessidade – cerveja. Entre comprar senha e levantar encomenda ouço voz: “Para este senhor é isso juntamente com dose dupla de juízo”. Não sei se foi conselho recorrente e se exactamente para mim, mas juízo? Como juízo? Onde? No Reverence – Valada? Num festival com 300 mil bandas?

Psychic TV, voltar a eles, e a mesma pergunta – juízo? Uma história de amor porque transcendente, e tão intensamente documentada por Marie Losier, onde assistimos ao processo de transformação, não somente físico, de Genesis Breyer P-Orridge (vocalista) e Lady Jaye Becker. Não há um ela, nem um ele, tão pouco nós. Somente um eu, e não necessariamente eu, um eu desconhecido. Esta ideia assalta-me recorrentemente ao longo dos três dias. É então que decido tirar o mini Freud do bolso – Quantos “eus” podemos ser? Um eu que se deixa hipnotizar pela mistura de ritmos sincopados e desbravados a desespero de alma. Um eu que viaja continuamente no tempo e um eu que absorve, ou ao menos há esforço nesse sentido, para não perder descargas de memórias e descobertas, de universos cruzados. Pelo menos, um eu que se transforma.

Recordações, também muitas, com A Place to Bury Strangers. 2 de Novembro de 2013, quem não o celebra? Impossível não o fazer. Somos todos suspeitos desde essa noite. Passado quase um ano, agora no palco do Campo de Football (em qualquer aldeia há um), bem lá na frente. E ouvir, ouvir e estar atento ao que têm para dizer, sobretudo os amigos, como a Sofia Filipe – “Incisivo, intenso, directo e honesto, seria a forma como descreveria o concerto. Uma descarga essencialmente pelo Worship, pelo quarto álbum sem título e pelo I Lived My Life to Stand in the Shadow of Your Heart. Oliver Ackermann e a obstinação pelos amplificadores e colunas, quando os direcciona para o público, e nos envolve na epopeia sonora que assume como desafio em cada concerto. Simplesmente inesquecível. Consegue dar sentença de morte a mais uma guitarra. Temo final antecipado, mas ele dirigindo-se ao seu stock, pega noutra ainda meia imaculada e destina-lhe igual sorte. Como ficar indiferente? 30 minutos? Sim foi muito curto, também o seria se tivessem sido três horas. É sempre triste quando termina o concerto de uma das bandas mais audaciosas da actualidade.”

Um eu que ainda não se sabe se em Valada ou em Lisboa, que ainda não conseguiu encontrar as instruções para o trem de aterragem, ou que se imagina sob o espírito da serpente cor de laranja, idêntica à que deu as boas vindas e me convida a fazer parte de um universo de pessoas dedicadas, voluntariosas e acolhedoras. Um eu que vislumbra magos e druidas em cada amigo que indica – “Estes concertos são obrigatórios. Não podes perder este momento.” ou ainda “F****** isto é mesmo incrível!”. Porque é sem exageros que se utilizam todas as formas hiperbólicas para descrever as prestações de Hawkwind e The Black Angels.

(continua)

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: