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*Pode conter spoilers e impressões à flor da pele.

“Like Jesus or a Zombie”. Pode ser uma forma de descrever alguém que voltou dos mortos ou o estado de uma relação. Em Life After Beth, o filme que abriu ontem a 8ª edição do MOTELx, é uma frase aplicada frequentemente a uma e a outra situação - à primeira, de forma directa, à segunda, com muita subtileza e sentido de humor.

A história começa com a morte de Beth (Aubrey Plaza) e o estado inconsolável do seu namorado Zach (Dane DeHaan) e dos pais, Maury e Geenie (John C. Reilly e Molly Shannon). Uma semana e meia depois, Beth regressa dos mortos sem se lembrar de nada do que aconteceu.

Inicialmente, Zach fica feliz com esta segunda oportunidade para estar com a namorada. Aparentemente, a relação não andava bem e ficaram muitas coisas por dizer e fazer.

Durante alguns dias, os dois vivem o que parece ser um milagre. Mas, aos poucos, o comportamento de Beth vai ficando estranho, com falhas de memória, ataques súbitos de fúria e uma força sobre-humana.

Zach insiste que ela é um zombie, os pais (também a aproveitar o momento para pôr a escrita em dia com a filha) dizem que ressuscitou, como Jesus.

Realizado por Jeff Baena, Life After Beth é uma comédia de terror encantadora, que se move com leveza e inteligência entre os clichés dos filmes de zombies e as peripécias de uma história romântica de domingo à tarde. The Walking Dead meets 500 Days of Summer, mas com menos gore e mais charme.

A unir as partes deste corpo em decomposição, está o sentido de humor inusitado de Baena, característica que reconhecemos de I Heart Huckabees (David O'Russell, 2004) do qual foi co-argumentista antes de se aventurar nesta primeira obra.

Life After Beth não nos obriga a pensar (isto é um elogio) mas também não funciona apenas numa camada. Há um paralelo entre a decadência de Beth (e do mundo à volta de Zach) e o estado moribundo da própria relação. “I'm dead, I'm alive, I'm dead, I'm alive”, repete ela incessantemente enquanto espalha o caos à sua volta.

A pele, que antes era macia, começa a ficar com feridas; o desejo, outrora tão avassalador, é agora um ataque – sexual e emocional – incómodo. “Don't leave me, I miss you”, diz Beth. “I'm just going around the car to get in”, responde Zach com medo de ser (literalmente) comido.

Em bom português, isto traduz-se por “o que antes era um sinal, agora é uma verruga”.

Entre a felicidade inicial de uma segunda oportunidade e a consciência de que Beth (e a relação) nunca voltará a ser a mesma, há um processo de luto. Zach precisa de fazer as pazes com o que está para trás, de forma a poder andar para a frente.

No final, convida outra rapariga para sair e fica no ar a promessa de uma nova paixão. Para chegar aqui, foi preciso um ataque de zombies e uma dose anormal de smooth jazz, mas ninguém disse que o amor é fácil.

Life After Beth

Jeff Baena, 2014

Com Aubrey Plaza, Dane DeHaan, John C. Reilly, Molly Shannon e Paul Reiser

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